O jipinho é o maior fenômeno do mercado brasileiro de carros

Já há 54 modelos de jipes “urbanos”, ou SUVs, disponíveis no país. Nenhum segmento da indústria automotiva cresce tanto, e vem muito mais por aí. Há espaço para todos?

São Paulo – Basta dirigir alguns minutos em qualquer das capitais brasileiras para perceber que algo está mudando na frota de carros nacional. Veículos mais robustos, com jeitão de jipe mas conforto de sedã, estão por toda a parte. Esses jipinhos urbanos, conhecidos pela sigla americana SUV, são o maior fenômeno do mercado automotivo nacional. Nenhum nicho cresceu tanto nos últimos anos.

De 2007 a 2013, o número de SUVs vendidos no país passou de 100 000 para 290 000. A ascensão ficou ainda mais evidente nos últimos 12 meses — quando a venda de carros estagnou no Brasil, mas a de jipinhos avançou 5%.

“Esse mercado era inacessível para a maioria dos consumidores”, diz Antônio Maciel Neto, presidente da Hyundai Caoa, que, desde 2009, produz no Brasil o SUV compacto Tucson e lançou agora o iX-35. Com preços a partir de 50 000 reais, os jipinhos são vistos pelos consumidores como carrões, mas custam o mesmo que modelos médios. 

Não é que os jipinhos estejam perto de assumir a liderança de vendas no país — longe disso. O domínio dos carros 1.0 continua indiscutível. Entre janeiro e setembro de 2013, Gol, Uno e Palio venderam, juntos, 465 000 unidades. É quase o dobro do que venderam todos os modelos de SUV disponíveis no Brasil. Mas volume não é tudo.

Para as montadoras, emplacar um jipinho significa ganhar espaço num segmento com margens de lucro de três a quatro vezes maiores que as dos carros basicões. Esse fenômeno pode ser apelidado de efeito-Duster, em homenagem ao SUV da francesa Renault, lançado no fim de 2011.

O Duster foi um sucesso impressionante. Em apenas dois meses, desbancou o EcoSport, lançado em 2003 pela Ford, da liderança da categoria. Graças a ele, a Renault cresceu 24% no Brasil em 2012 e encostou na Ford na briga pela quarta posição no mercado.

Com o lançamento da nova versão do EcoSport, em agosto de 2012, a montadora americana recuperou a primeira posição. Mas o frenesi em torno do Duster mostrou às demais montadoras o potencial dos jipinhos no mercado nacional.

Para todos os gostos 

Por isso, apenas neste ano, 12 novos modelos chegaram às concessionárias. Quem quiser comprar um SUV já pode escolher entre 54 variedades. Todas as grandes montadoras têm suas ofertas, com modelos de várias dimensões. Na Volkswagen, o Tiguan e o Touareg; na GM, o Tracker; na Fiat, o Freemont.


Esse nicho também é um dos preferidos das montadoras que tentam se tornar conhecidas no Brasil. Um exemplo é a coreana SsangYong, que nos últimos anos lançou quatro modelos de SUV de todos os tamanhos. 

A maior parte dos jipinhos ainda é importada, o que deixou o mercado nas mãos de EcoSport e Duster, produzidos no país e com modelos mais básicos vendidos por 50 000 e 45 000 reais, respectivamente. Mas, dado o sucesso do segmento, essa situação está mudando rapidamente.

No primeiro semestre, a japonesa Suzuki começou a produzir na cidade goiana de Itumbiara seu jipe Jimny, que custa a partir de 49 000 reais. No fim de setembro, a Hyundai inaugurou a linha de montagem do iX35 em sua fábrica de Anápolis, em Goiás, a mesma onde faz o Tucson.

A meta é fabricar 24 000 carros por ano — cada um custa 94 000 reais. E a briga vai ficar mais séria. Três das mais conceituadas montadoras de luxo — as alemãs Audi, BMW e Mercedes-Benz — anunciaram em agosto e setembro que vão fabricar seus jipinhos por aqui.

A Audi vai produzir o Q3; a Mercedes, o GLA; e a BMW, o X1. Importados, esses modelos custam em torno de 140 000 reais, mas, com o início da produção nacional, em dois ou três anos, os preços ficarão mais próximos de 100 000 reais. A francesa Peugeot vai fabricar no país, até 2015, o utilitário esportivo 2008, recém-lançado na Europa.

E a Volks vai inaugurar no ano que vem um novo nicho, o jipinho “de entrada”, com o lançamento do Taigun, construído na plataforma do popular Up!, que custará cerca de 40 000 reais.

Os SUVs dominam o mercado americano, mesmo apesar da crise. “O consumidor substituiu os modelos grandões por outros mais compactos e  econômicos”,  afirma Tom Wendt, con­sultor da Roland Berger na América do Norte. Os jipinhos garantiram a manutenção do espaço dos SUVs, que representam 45% da frota dos Estados Unidos.

Também é o segmento que mais cresce na Europa. A diferença, no caso brasileiro, é, como sempre foi, o preço. Por aqui, um jipinho básico custa o equivalente a duas vezes a renda anual per capita. Nos Estados Unidos, um carrão como o Grand Cherokee, da Chrysler, sai por 80% da renda anual. Ninguém sabe se há espaço para tantos SUVs no mercado brasileiro, ainda mais no custo atual.

A esperança é que, com tantas montadoras disputando uma fatia do segmento ao mesmo tempo, as empresas travem uma guerra de preços. Caso isso aconteça, é má notícia para as montadoras, que terão lucros menores em seu nicho mais promissor — e ótima notícia para quem quer ter seu próprio jipinho.