A luxuosa Daslu virou um ímã de confusão

A rocambolesca venda da varejista de luxo Daslu, suspensa por uma liminar, coloca em confronto dois polêmicos empresários: Creso Suerdieck e Marcus Elias

São Paulo — A varejista de luxo Daslu é um imã de confusão. Em 2005, sua fundadora, a empresária Eliane Tranchesi, foi presa pela Polícia Federal por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha (ela morreu três anos depois da sentença). Segundo a Polícia Federal, ela maquiava o preço das vendas nas notas fiscais para pagar menos impostos e fazia importações ilegais.

Com o nome manchado, a loja começou a dever aluguel, demitir funcionários e definhou até pedir recuperação judicial. Em 2011, foi arrematada em um leilão judicial por um novo dono — o empresário Marcus Elias, então presidente do conselho da holding Laep, que controlava a marca Parmalat no Brasil.

Elias também seria acusado, três anos depois, de lavagem de dinheiro, organização criminosa e crime contra o sistema financeiro (a ação está em curso). A Daslu mudou de endereço, abriu novas lojas, mas não conseguiu recuperar o prestígio do passado. No dia 12 de fevereiro, a varejista anunciou que estava sob novo comando.

Foi comprada por um empresário baiano, que daria um choque de gestão na empresa para retomar credibilidade. Mas, como não podia deixar de ser quando envolve a Daslu, a história tem um figurino um pouco mais complicado do que parece. O novo controlador é o empresário baiano Creso Suerdieck, sócio da gestora de investimentos DX Group e especialista em comprar empresas em dificuldade.

Suerdieck comprou as ações de um grupo de executivos da Daslu, incluindo o diretor Eduardo João, que detinha 52% da companhia por meio da Moda Brasil Participações. A Laep permaneceu como sócia minoritária, com 48% das ações. Como novo dono da Moda Brasil, Suerdieck escolheu dois novos diretores, Elizeu Lima e Marcelo Giovannetti, para substituir os administradores.

Mas a posse durou pouco. Em 24 de fevereiro, a Laep obteve uma liminar para suspender a operação — e, até o fechamento desta edição, a Moda Brasil não havia conseguido derrubá-la. Segundo a Laep, a Moda Brasil havia se comprometido a fazer um aporte de 11 milhões de reais no caixa da empresa.

O acordo foi feito em novembro de 2014, com os antigos sócios — eles teriam 12 meses para colocar o dinheiro no caixa. Com a venda, essa obrigação teria passado para os novos acionistas, reunidos no grupo de Creso Suerdieck. Mas, em vez de colocar dinheiro, o empresário baiano aportou um terreno ao patrimônio da Daslu, o que a Laep argumenta ser um descumprimento da cláusula.

Segundo o escritório Sérgio Bermudes, que advoga para a Laep, imóvel “de origem discutível”. Com a liminar, a Moda Brasil é considerada hoje pela Justiça “sócia remissa” da Daslu — aquela que comprou, mas não cumpriu as condições da negociação — e, por isso, a Laep pode pedir sua exclusão da sociedade.

Já a Moda Brasil argumenta que a Laep tem interesse na falência da Daslu, pois transferiu os direitos da marca, em caso de inadimplência, para uma credora ligada aos sócios da Laep — e ficaria livre dos passivos. Os sócios tentam, na Justiça, mostrar quem merece confiança para assumir a gestão da Daslu. A briga é feia.

Na argumentação da Moda Brasil, os advogados apontam os sócios da Laep como “golpistas”, dizem que Marcus Elias é réu de uma ação penal e destacam a dívida de 85 milhões de reais da Daslu, acumulada por “má gestão”. Segundo o novo controlador, a Daslu estava descontando as contribuições previdenciá­rias dos funcionários sem repassar o imposto ao governo.

“Com isso, a dívida total sobe para quase 150 milhões de reais”, afirma Suerdieck. Marcus Elias é acusado pelo Ministério Público de coordenar uma fraude contra investidores da bolsa de valores brasileira, que teria gerado prejuízos da ordem de 2,5 bilhões de reais. Nas devidas proporções, Suerdieck e seus sócios também têm sua dose de polêmica.

Herdeiro da tradicional fabricante de charutos baiana Suerdieck, ele foi DJ em Salvador na adolescência e, em 2003, fundou a DX Group para comprar empresas em recuperação judicial. Em pouco mais de uma década, comprou mais de 12 empresas em dificuldade, como o jornal A Tarde, a empresa de metalurgia Metalsistem e a de projetos de construção Seebla Engenharia.

Suerdieck é acusado de caloteiro por uma empresária de São Paulo que vendeu a ele dois carros de luxo — e ele a processa por danos morais.

Em algumas das recuperações judiciais, o empresário e seus sócios são acusados de “dilapidar” as empresas compradas, sem cumprir os planos de recuperação — foi o caso da fabricante de produtos plásticos Silflex, segundo a decisão do juiz que decretou a falência da empresa, em novembro de 2013 (ele diz que vendeu a empresa dois anos antes).

A retomada dos tempos de glória está longe para a Daslu. Não bastasse a disputa entre os sócios, a situação financeira é péssima. No início do ano, a Nukk Alfaiataria, que produz roupas para marcas de luxo, entrou com pedido de falência da Daslu por não receber pagamentos. Também há um processo de despejo da Daslu no shop­ping Riomar, em Recife, por falta de pagamento do aluguel.

O plano da nova gestão é ampliar o número de lojas com franquias e unidades menores, além da compra de outras marcas de luxo para ampliar a rede. Claro, esse é um sonho distante. Afinal, a Justiça precisa, antes de qualquer coisa, definir se a “nova gestão” é mesmo de quem acha que é.