A Luiza vai voltar?

Com uma queda de 37%, o Magazine Luiza fez a pior abertura de capital de 2011 — má notícia para 35 000 pequenos investidores e 1 000 funcionários que compraram as ações

São Paulo – “Gente, eu não estou no Canadá! Estou em Nova York, voltando para o Brasil com novidades muito bacanas (…).” A mensagem, postada em janeiro no Twitter por Luiza Helena Trajano, presidente da rede varejista Magazine Luiza, era apenas uma brincadeira com o fenômeno Luiza Rabello, a Luiza do Canadá, que havia virado celebridade poucos dias antes.

A mensagem refletia bem seu estilo: descontraída e carismática, não foi à toa que Luiza Helena se tornou uma das caras mais famosas do varejo brasileiro. Pegar carona no fenômeno da internet acabou se provando uma baita sacada de marketing.

A empresa logo anunciou a intenção de criar 10 000 lojas “virtuais” com a presença, claro, da Luiza do Canadá. Sob essa camada de bom humor, no entanto, a terceira maior varejista de eletrodomésticos do país vive um momento incômodo.

O Magazine Luiza vendeu 880 milhões de reais em ações na sua abertura de capital, em abril do ano passado. Nove meses depois, eis a áspera realidade: o preço das ações caiu 37%, o que faz do IPO da rede o pior do ano passado. Luiza do Canadá à parte, ninguém está achando muita graça.

Em um ano em que o mercado de capitais não deu moleza para ninguém, era natural — e até esperado — que algumas empresas que foram à bolsa tivessem um desempenho aquém do previsto. A diminuição no ritmo de crescimento da economia brasileira no segundo semestre de 2011 fez com que diversas empresas de consumo também vivessem dias ruins na bolsa.

Os papéis da varejista online B2W desvalorizaram 70% em 2011. Mas, no caso do Magazine Luiza, o mau desempenho no mercado de capitais ganha contornos peculiares: graças à liderança carismática exercida por Luiza Helena, a operação atraiu um número descomunal de pequenos investidores.

Num lance pouco usual, a própria Luiza promoveu a abertura de capital em comerciais na TV (inclusive em horário nobre). Quase 35 000 investidores individuais compraram ações da empresa — 12 vezes mais que a média dos IPOs feitos em 2011.

“Realizamos o sonho de transformar funcionários e clientes em sócios”, afirma Marcelo Silva, diretor-superintendente do Magazine Luiza. “O resultado ainda não veio porque antecipamos nosso plano de crescimento, só não vê valor nisso o investidor de curto prazo, que é quem fez a ação cair.”

As sucessivas desvalorizações dos papéis, no entanto, fizeram com que quase a metade desses novos sócios abandonasse o Magazine Luiza. Segundo dados fornecidos pela própria empresa, 41,8% dos investidores individuais que adquiriram ações no IPO já se desfizeram dos papéis.


No caso dos fundos, a debandada foi de 39,1%. Apenas os funcionários da varejista permaneceram fiéis a Luiza Trajano: dos 1 066 empregados que compraram ações, 97% ainda são acionistas.

“A empresa vinha num crescimento agressivo, que prometia uma trajetória de valorização”, diz o engenheiro paulista Paulo Pinto, pequeno investidor que comprou ações no IPO. “Mas o papel se revelou uma grande decepção. Assim que houver uma alta mínima, vou me desfazer das ações.”

O que explica tal desempenho? O Magazine Luiza penou com duas aquisições. A integração da rede nordestina Lojas Maia, adquirida em 2010, e a compra das Lojas do Baú, em junho do ano passado, impulsionaram o crescimento nas vendas, mas corroeram a rentabilidade da rede.

A previsão é que a empresa termine 2011 com um lucro de pouco mais de 60 milhões de reais. Segundo investidores, o problema é que, durante os encontros para vender o IPO, os executivos projetaram um lucro 100% maior para o ano. “A companhia apresentou resultados bem piores que os prometidos”, diz o presidente de um fundo que se desfez das ações da companhia.

“Num ambiente de incertezas como o atual, não podemos apostar em empresas que ainda precisam provar que conseguem entregar o que prometem.” Oficialmente, a empresa nega ter passado projeções de lucro.

Mesmo diante de um histórico de resultados visto por muitos investidores como decepcionante — o Magazine Luiza só deu lucro em um dos três anos antes do IPO —, muitos analistas e investidores estão otimistas em relação ao futuro. O banco americano Raymond James, por exemplo, prevê uma alta de 60% para as ações da empresa até o final deste ano.

“Ainda há ajustes a ser feitos, mas no segundo semestre os números devem começar a melhorar”, diz Daniela Bretthauer, analista de varejo da Raymond James. O novo canal de vendas online é uma das esperanças da rede para crescer — a ideia é permitir que os internautas criem lojas virtuais com até 60 produtos, como se fossem franquias: os “donos” do espaço recebem uma comissão de 2,5% a 4% sobre as vendas.

Além disso, a integração das redes compradas, sempre um processo penoso, deve ser concluída. Assim, será mais simples avaliar o real desempenho operacional da empresa. E só aí será possível saber se o Magazine Luiza volta ou não.