A herança do pai da Turma da Mônica

Os planos de Mauricio de Sousa para, aos 69 anos, passar os negócios a seus dez filhos

O desenhista Mauricio de Sousa, criador da Turma da Mônica, nunca escondeu que o americano Walt Disney foi sua maior fonte de inspiração. Morto em 1966, Disney deixou um legado de mais de 200 personagens e eternizou Mickey Mouse, carro-chefe do maior império de entretenimento do mundo. Hoje a Disney fatura mais de 30 bilhões de dólares por ano com licenciamento, parques temáticos, desenhos e filmes. A Mauricio de Sousa Produções (MSP), embora muito longe do porte da gigante americana, também deu origem a mais de duas centenas de desenhos e fez das fantasias infantis uma fábrica de ganhar dinheiro no Brasil. A empresa de Mauricio de Sousa é o maior licenciador de personagens no país, com mais de 2 000 produtos, num mercado estimado em 2,5 bilhões de reais por ano. Ao tentar reproduzir o modelo de Disney, Mauricio de Sousa talvez enfrente, agora, seu maior desafio empresarial. O desenhista prepara a sucessão nos negócios para tentar imortalizar a Turma da Mônica e perpetuar o crescimento da MSP.

A sucessão não chamaria a atenção se Mauricio de Sousa não tivesse duas características peculiares. Primeiro, ele tem dez filhos, com idades entre 7 e 46 anos, de quatro mulheres. Nem todos deram nome a personagens — como Magali, que realmente é comilona, mas não engorda. Nem todos ficaram famosos — como Mônica, que realmente arrastava um coelho de brin quedo pela casa quando criança. Todos, porém, são seus herdeiros legítimos. “A história mostra que, geralmente, com a falta do líder, há desavenças entre os familiares”, diz o próprio Mauricio de Sousa. “Quero deixar o mapa do futuro pronto para que isso não aconteça.” Sua outra característica peculiar é ter criado uma empresa baseada numa capacidade intelectual que só ele carrega. “No caso de qualquer criador que personifique a essência da empresa, a sucessão é mais complicada”, diz o consultor René Werner, da Werner & Associados, especializada em empresas familiares. Como o dom do criador não é hereditário, quem assumir — herdeiro ou profissional do mercado — terá o desafio de estabelecer uma gestão que compense a possível redução da criatividade.

Prestes a comemorar 70 anos, que completa em 27 de outubro, Mauricio de Sousa contratou um escritório de consultoria societária para conduzir o que chama de “arrumação da casa”. Ainda neste ano, espera concluir uma reestruturação e definir os rumos dos integrantes da família hoje na empresa. Seu irmão, Marcio Roberto de Sousa, que detém 5% da MSP, dirige a divisão de som. A irmã Yara Maura, sediada nos Estados Unidos, responde pela área internacional. Sua filha Mônica, inspiração para sua mais famosa personagem, é diretora comercial há quatro anos e responde pela divisão de licenciamento, com 62% do faturamento. A filha Vanda toca a área de projetos especiais. Mauricio Spada, também herdeiro e professor de informática, apóia a área de tecnologia. A desenhista Alice Takeda — com quem Mauricio de Sousa acaba de reatar o namoro depois de 23 anos de casamento e sete de separação — é quem conduz a equipe de roteiristas.

Na reestruturação, a MSP deve virar uma espécie de holding. Divisões serão transformadas em empresas separadas. Mauricio de Sousa sairá da presidência e seguirá para o conselho de administração, abrindo espaço para a contratação de um presidente profissional. “Já estamos em busca de um executivo”, diz ele. “Deve ser contratado alguém da área de comunicação, que conheça bem o mercado publicitário.” Da família, serão identificados os profissionais com mais habilidades empresariais.

O universo de Mauricio de Sousa
Os diferentes negócios no faturamento do grupo
Produtos
62%
Revistas
26%
Cinema, vídeos e DVDs(1)
6%
Parque
2%
Eventos
2%
Livros
2%
(1) Inclui co-produções
Fonte: empresa

Ficando ou não no negócio, todos os parentes serão blindados numa empresa criada com o objetivo de preservar a governança familiar. De acordo com o próprio Mauricio de Sousa, a filha Marina é sua sucessora natural na arte de criar roteiros e desenhar. “É muita responsabilidade, mas estou me preparando”, diz Marina.”Temos idéias muito parecidas, mas não quero receber nada de mão beijada.” Filha do casamento com Alice e hoje com 20 anos, Marina desenha desde os 7. “É uma dificuldade ser filho de pai brilhante”, diz o consultor de empresas familiares Renato Bernhoeft. Para ele, a sucessão no âmbito da família não é mera troca executiva. É preciso manter a ação, os conteúdos, os princípios ideológicos e os valores. “Alocar filhos na empresa não é a solução”, afirma Bernhoeft. “Uma coisa é a equipe gostar do fundador e respeitá-lo. Outra é essas pessoas terem a mesma lealdade com o sucessor.”

A sucessão, contudo, não significa necessariamente uma ruptura na linha do sucesso. Há vários casos de herdeiros que conseguiram superar seus pais — e a sombra que eles costumam representar — nos feitos empresariais. Um exemplo é o empreendedor João Alves de Queiroz Filho, mais conhecido como Júnior. Ao lado do pai, Júnior transformou a Arisco numa potência da indústria de alimentos e de produtos de limpeza, com faturamento anual superior a 1 bilhão de reais na década de 90. Em 2000, vendeu o negócio para a Bestfoods. Em seguida, criou a Assolan e mordeu a liderança da Bombril no mercado de esponjas de aço.

Mauricio de Sousa começou a estudar a sucessão há quase dez anos, mas só agora resolveu pôr suas idéias em prática. Um dos motivos foi a queda nos resultados da empresa nos últimos anos. Sem revelar valores, ele afirma que o faturamento da MSP es tagnou de 2000 para cá, depois de dez anos de crescimento médio anual de 12%. Cinco anos atrás, a MSP chegou a ter mais de 3 000 produtos licenciados para 160 empresas. Hoje, são 2 000 licenças para pouco mais de 100 companhias. Na década de 80, a MSP tinha produtos em 25 países e vendia mais de 4,5 milhões de gibis por mês. Atualmente, está em dez países e não comercializa mais que 3 milhões de exemplares mensais. De acordo com Mauricio de Sousa, boa parte do abatimento da MSP se deveu à falta de uma série de TV que impulsionasse o licenciamento de produtos. Sem exposição na TV, seus personagens também foram machucados pela avalanche de produtos japoneses que invade o mundo desde a década de 90. “Pelo menos 50% do mercado de produção é do estilo que vem do Japão e da Ásia”, diz o produtor Sérgio Martinelli, sócio da Ânima Cultural, agência que atua na área.

A MSP começou a recuperar o fôlego no início deste ano, depois de reduzir em 75% a mão-de-obra criativa — a empresa dispensou 160 animadores de uma equipe de 210. Em 2004, depois de 15 anos sem produzir um longa-metragem, lançou Cine Gibi — o Filme, com a Turma da Mônica. Em outubro, deve sair em DVD o Cine Gibi 2 e há outra estréia prevista para 2006. Recentemente, a empresa inaugurou no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, a Lojinha da Mônica, a primeira de uma rede de franquias com produtos exclusivos da Turma. Outra mudança deve atingir a divisão de parques temáticos, que inclui o pioneiro, no Shopping Eldorado, em São Paulo. “Com a reestruturação, a MSP também vai voltar a investir no crescimento dos parques, na publicação de livros e em projetos de animação para TV”, afirma Mauricio de Sousa. “Voltaremos a crescer já neste ano.” Em 2004, a MSP também assinou contrato com o canal de TV paga Cartoon Network para a exibição de séries da Turma da Mônica. Agora, a empresa pretende fechar acordo com um canal de TV aberta.

No novo modelo de gestão implantado por Mauricio de Sousa, a MSP abandonou a estrutura vertical, em que tudo — do roteiro à sonorização — era feito internamente. “Agora fazemos parcerias com outros estúdios e produtoras”, diz ele. Não é a primeira vez que Mauricio de Sousa se desapega de suas criações. Há 25 anos, ele deixou de desenhar seus personagens, a exemplo de Disney, para comandar a MSP. Hoje, só desenha e faz o roteiro do Horácio, o dinossauro verde, seu alter ego na defesa de causas politicamente corretas. Mauricio de Sousa também não participa mais da elaboração dos temas, embora todos os roteiros passem pela sua mão para aprovação. Ele diz que, com o novo presidente, vai se contentar com a direção dos desenhos animados. “O desafio da MSP será sobreviver quando Mauricio não estiver mais ativo e isso só será testado quando esse dia chegar”, diz o consultor Werner. “Se a empresa perder o gênio criativo e não tiver boa gestão, será a receita para o desastre.”

Dinheiro em quadrinhos
Veja a dimensão dos negócios gerados por alguns dos mais
conhecidos personagens dos gibis no mundo
Criador Walt Disney Charles Schulz René Goscinny e Albert Uderzo Georges Remi (Hergé)
Criatura Mickey Mouse Snoopy Asterix Tintin
Negócios gerados 30 bilhões de dólares de faturamento anual com licenciamento,
parques, filmes, games e DVDs
35 milhões de dólares em direitos autorais por ano
para os herdeiros do cartunista
6,5 milhões de exemplares vendidos por ano em 77 idiomas 1 milhão de exemplares vendidos por ano com a série
de suspense As Aventuras de Tintin
Fontes: Disney, Forbes, Casterman, Quid e Wikipedia