A força da agricultura na Coamo

A Coamo e o comércio do Sul se beneficiaram do desempenho positivo do agronegócio na região

O comércio em boa parte da Região Sul apresentou no ano passado um desempenho positivo se confrontado com a média nacional. A razão está na participação elevada dos negócios do campo e das exportações na economia regional.

“Santa Catarina e Paraná foram especialmente beneficiados pelo ciclo de alta dos preços das commodities agrícolas em 2003”, diz o analista de mercado Adriano Pitoli, da consultoria econômica Tendências. O desempenho obtido por empresas do comércio que atuam diretamente associadas ao agronegócio é um indicador evidente.

Um caso exemplar é o da Cooperativa Agropecuária Mourãoense (Coamo), destacada pela segunda vez consecutiva como a melhor empresa de comércio na Região Sul. Fundada em 1970, em Campo Mourão, no Paraná, a Coamo tinha por objetivo desenvolver a agricultura e elevar a renda dos pequenos produtores rurais do centro-oeste do estado. Passadas três décadas, a então pequena cooperativa, que no início reunia 79 agricultores, transformou-se numa das maiores agroindústrias do país, com mais de 18 000 associados e oito unidades fabris. Sua produção se estende de óleo de soja a margarina e sua atuação comercial abrange tanto o mercado doméstico quanto a exportação.

No ano passado, com a safra brasileira batendo recorde e os preços das commodities superando as projeções, a Coamo se deu particularmente bem. Suas receitas cresceram 45% em relação a 2002, para 1,1 bilhão de dólares, e o lucro alcançou 57 milhões. “Crescemos nos concentrando em transformar a Coamo não apenas em uma grande cooperativa, mas em uma empresa com alta capacidade de produção e comercialização de produtos”, afirma o agrônomo catarinense José Aroldo Gallassini, idealizador do colosso agroindustrial e seu presidente desde 1975.

Atualmente, os números da Coamo são superlativos. Só no ano passado, a cooperativa recebeu 4,3 milhões de toneladas de insumos agrícolas, ou 3,5% da produção nacional. Pelo seu terminal no porto de Paranaguá foram exportados produtos no valor de 350 milhões de dólares, com crescimento de 11% sobre 2002. Uma das chaves do sucesso reside na coordenação de milhares de pessoas, entre funcionários e cooperados, espalhados por 53 municípios do Paraná, de Santa Catarina e de Mato Grosso.


Com um núcleo de gestão formado por apenas três executivos, incluindo Gallassini, a Coamo mantém um programa intenso de cursos e seminários para transmitir as diretrizes e técnicas a ser adotadas pelo conjunto dos produtores cooperados. No ano passado foram realizados 1 255 eventos para abordar questões técnicas, educacionais, cooperativistas e sociais.

O crescimento acelerado da Coamo também acarreta problemas. O mais grave é a falta de estrutura para o armazenamento. “Recebemos mais de 4 milhões de toneladas de grãos em 2003, mas só tínhamos capacidade de armazenar 3 milhões”, diz Gallassini. “Isso causou um aumento de custos que esperamos resolver com investimentos em novos armazéns.” Outra queixa do presidente da Coamo se refere às condições de transporte. “O frete rodoviário é caro, a situação das estradas é ruim e as ferrovias, que poderiam ser ótimos canais de escoamento, não funcionam adequadamente.”

O bom desempenho do agronegócio e das exportações acaba impulsionando o consumo. O movimento do comércio varejista, principalmente do Paraná e de Santa Catarina, refletiu positivamente o estímulo. Esses dois estados registraram leve expansão das vendas no varejo, enquanto no país como um todo o faturamento do comércio encolheu 3,7%. No Rio Grande do Sul, o resultado ficou mais perto da média nacional.

Há também indicadores de que a renda da população da região tem se sustentado e até melhorado, por exemplo, na região metropolitana de Porto Alegre, enquanto a renda média dos brasileiros moradores de outras regiões recuou. A situação relativamente privilegiada dos habitantes da Região Sul foi retratada na mais recente Pesquisa de Orçamentos Familiares, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Extrai-se dos números a seguinte conclusão: com menos de 15% da população do Brasil, os três estados são responsáveis por mais de 17% do consumo no país. “É o reflexo de uma economia bem balanceada, que suporta melhor as oscilações dos diferentes mercados”, diz Pitoli.


A renda é apenas parte da explicação para o comportamento do varejo no Sul. A outra parte é o crédito, que passou a ser um pouco mais acessível com a redução das taxas de juro ao longo de 2003. As empresas que podem oferecer linhas próprias de crédito se saem melhor. A Salfer, rede de lojas de móveis e eletrodomésticos de Santa Catarina, obteve receita de 140 milhões de reais em 2003, avanço de 47% sobre o faturamento do ano anterior.

“O marketing agressivo e nosso sistema de crédito próprio contribuíram para que tivéssemos bom desempenho nas vendas”, diz Valdemir Hafemann, diretor corporativo da Salfer. Com 44 lojas, 13 delas inauguradas em 2003, a rede planeja agora ampliar a presença no Paraná.

A expansão da renda e do crédito costuma ter impacto sobre a demanda de produtos mais populares. De acordo com a pesquisa Brasil em Foco, realizada pelo instituto Target Marketing para medir o potencial de consumo, a combinação favorável deve impulsionar, por exemplo, a venda de eletrodomésticos na região. O trabalho prevê que, neste ano, a população da classe C do Sul gaste o equivalente a 660 milhões de dólares em eletrodomésticos e equipamentos eletrônicos, alta de quase 20% sobre o ano passado.

O varejo em geral teria expansão mais modesta. Antonio Pacheco, presidente da Federação do Comércio de Santa Catarina, está confiante em que o comércio local vá crescer cerca de 5% neste ano. “Nossa economia diversificada proporciona uma retomada mais rápida, mas ainda não enxergamos isso como um movimento continuado”, diz Pacheco.