Carta de EXAME — A esperança de avançar

Nesta edição especial, EXAME se dedica ao tema da saúde, um dos que terão de ser prioritários para os governantes que vamos eleger em poucos meses

No espaço restrito dos campos de futebol, o duelo das seleções participantes da Copa se dá em condições razoavelmente equilibradas. Pelo menos no início de cada partida, são 11 contra 11, todos com preparo físico, algum domínio técnico do esporte etc. Por trás de cada time, porém, as coisas podem ser muito diferentes. O Brasil pegou logo de cara a Suíça e ficou no 1 a 1 — merecendo até ganhar o jogo, na nossa visão. Mas levaríamos sem dúvida uma goleada se a disputa migrasse para os dados que compõem o Indicador de Desenvolvimento Humano das duas nações. Basta notar que, enquanto as manchetes da nossa imprensa diária eram ocupadas pelas imagens e pelos placares do Mundial, estávamos tomando nas costas uma notícia daquelas que volta e meia nos envergonham: o risco da volta da poliomielite pondo em alerta dezenas de cidades no país. A terrível pólio é uma doença que já se chegou a considerar praticamente erradicada entre nós — seu retorno é um desastre ainda a ser controlado. A causa: negligenciamos a imprescindível vacinação para evitar esse tipo de doença e outras.

Nesta edição especial de EXAME, dedicada ao tema da saúde, um dos que terão de ser prioritários para os governantes que vamos eleger em poucos meses, uma reportagem esmiúça a situação que está na base desse vexame: o do Brasil que convive com doenças do subdesenvolvimento. Elas são geradas, entre outros motivos, pelo fato de que quase metade dos domicílios não está ligada à rede de coleta de esgoto. Não há nada de novo nisso e na proliferação de doenças infectocontagiosas. A novidade com que sonhamos será o devido enfrentamento dessas questões que nos atrasam e já deviam ter ficado para trás há muito tempo. Até porque temos muitas outras questões despontando. O Brasil que ganhou sua primeira Copa, há exatos 60 anos, tinha 62 milhões de habitantes, cuja expectativa média de vida era de 48  anos. Hoje somos quase 210 milhões, com esperança de viver 76 anos. Os brasileiros mais novos podem alimentar a expectativa de que irão além disso.

A perspectiva de viver mais é uma bênção, mas ela tem outro lado: o desafio de custear esse prolongamento da existência em massa. A pressão sobre os serviços de saúde é crescente aqui como é em todo o mundo. Nossa reportagem percorreu países como a Holanda, dona do melhor sistema europeu de saúde, e Singapura, um exemplo de custo-benefício nessa área, para verificar como esses centros de ponta estão lidando com o problema. Mas, como o desejo de viver mais é insaciável, fomos também conhecer tecnologias e experiências que estão sendo feitas em cidades como Boston, Toronto e Tóquio para ampliar ainda mais a longevidade — e com saúde vigorosa.

As páginas a seguir podem fornecer alguma inspiração para enfrentar a árdua jornada que temos pela frente. A missão de construir um país que brilhe também fora dos estádios.