À espera do dia 28, a economia fica paralisada

Recuperação lenta, greve dos caminhoneiros e, agora, o segundo turno de uma eleição polarizada. A somatória de fatores que faz empresas congelar tudo

Quaisquer que sejam as inclinações políticas de cada um, a notícia de que as eleições presidenciais vão para o segundo turno representa o prolongamento de uma espera agoniante para quem lida com negócios no Brasil. Apesar da euforia dos mercados com a liderança de Jair Bolsonaro (PSL), para quem está à frente das pequenas, grandes e médias companhias brasileiras a prorrogação eleitoral impõe mais 20 dias de imobilismo.

A retomada da atividade econômica tem deixado a desejar desde 2016. Depois de ter encolhido 8,2% ao longo de 11 trimestres, o produto interno bruto só avançou 2,5% nos últimos seis trimestres. Em maio deste ano, a greve dos caminhoneiros jogou um balde de água fria na incipiente retomada. De lá para cá, o acirramento dos ânimos na política fez com que as empresas pisassem mais fundo no freio, suspendendo planos e projetos até que as perspectivas fiquem mais claras. O que se vê agora é uma economia semiparalisada, à espera da definição do ocupante futuro do Palácio do Planalto: Jair Bolsonaro ou Fernando Haddad (PT).

Os sinais de uma economia em compasso de espera estão por toda parte. No último trimestre de 2017, o PIB teve alta de 2,1% ante igual intervalo de 2016, segundo o Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas. No período de três meses encerrado em julho de 2018 (dados mais recentes disponíveis), a elevação desacelerou para 0,5%. A taxa de investimento recuou de 18,4% do PIB no fim do ano passado para 17,4% em julho.

O indicador de incerteza da economia, medido pela mesma instituição, subiu de 105 em dezembro de 2017, taxa em que se manteve desde o início do segundo mandato de Dilma Rousseff, para 121,5 pontos em setembro. O índice é feito pela FGV com base, principalmente, no somatório de previsões para o futuro da economia — quanto maior o índice, mais incerteza pela frente. “No ritmo atual, serão necessários mais uns dois anos para a economia voltar ao patamar anterior a essa retração. Dá certa desilusão, uma perspectiva ruim para o consumidor. Isso faz com que os investimentos privados sejam postergados.

Mas também há empresas que preferem olhar o copo meio cheio e aproveitam o momento repensando sua estrutura a fim de se posicionar melhor para a retomada”, diz Silvia Matos, pesquisadora sênior do instituto de economia da FGV. É o caso da americana Mondelez, fabricante da linha de chocolates Lacta e das balas Halls. A companhia realocou a produção de duas fábricas no interior paulista para as unidades de Curitiba, no Paraná, e de Vitória de Santo Antão, em Pernambuco. O objetivo é aumentar a eficiência da operação e acelerar o crescimento no longo prazo no Brasil, que responde por 46% do faturamento da empresa na América Latina.

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Entre os setores que mais têm sofrido com a paralisia está o agronegócio. Nos últimos meses, a gigante de alimentos BRF — que penou, ainda, com uma briga societária e a restrição da Europa às exportações de aves do Brasil — fechou linhas de produção em Mineiros, no estado de Goiás, e Campo Verde, em Mato Grosso, e deu férias coletivas a funcionários de outras quatro filiais. Em meio a uma reestruturação de operações, a BRF não faz previsão de quando retomará os investimentos. Os produtores de carne bovina, embora sofram menos porque as exportações sustentam boa parte de sua lucratividade, também têm motivos de preocupação. A venda de couro caiu 4% de abril a junho, para 8,2 milhões de peças, acompanhando o encolhimento do setor de calçados. No segundo semestre, grandes marcas brasileiras continuaram fechando fábricas devido à baixa no consumo. A fabricante gaúcha de calçados Bottero encerrou as atividades de quatro unidades no Rio Grande do Sul em julho, demitindo 630 funcionários, e a Dakota, outra fabricante gaúcha, resolveu em agosto que baixaria as portas da planta de Sarandi, no mesmo estado, ficando apenas com a matriz, em Nova Petrópolis. O PIB do agronegócio recuou 1,6% no primeiro semestre deste ano ante os primeiros seis meses de 2017, enquanto a média da economia teve avanço de 1,1%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Procuradas, as empresas não deram entrevista.

DISPOSIÇÃO REPRESADA

Não é que falte, aos empresários, vontade de investir. Mas tomar decisões de longo prazo em momento de alta octanagem muitas vezes é arriscado demais, sobretudo para os donos de pequenas e médias empresas, que viram o acesso a empréstimos secar. “Precisamos de previsibilidade e estabilidade”, afirma Alex Buchheim, presidente do grupo de produtos de limpeza Limppano, do Rio de Janeiro. A companhia, que em 54 anos de história se especializou na fabricação de acessórios como vassouras, esfregões e esponjas, no mês passado anunciou a compra da adormecida marca de detergentes ODD, da Procter & Gamble, para entrar em um novo segmento de mercado. Fiel à estratégia de produzir em suas fábricas próprias a maioria dos itens que vende, a Limppano vai precisar montar uma nova linha de produção em uma de suas duas unidades em território fluminense para o novo negócio. Os detalhes dependem também do desfecho da corrida presidencial e novas políticas a serem adotadas. Assim como muitas outras empresas, a fabricante de produtos de limpeza acabou empurrando para o final do ano a conclusão de seu planejamento para 2019. De setembro, a reunião da equipe de gestão da Limppano para bater o martelo no orçamento do ano que vem passou para 25 de outubro e, depois, para a primeira semana de novembro. Concretizando-se o mais otimista dos cenários, o de um governo que tenha o apoio do Congresso para realizar reformas como a do sistema de Previdência Social, a Limp-pano espera aumentar seu faturamento no próximo ano em 20% — a estimativa para 2018 é de uma receita total de 185 milhões de reais, com uma elevação de 15% sobre 2017.

Alex Buchheim, da Limppano: o planejamento de 2019 ficou para novembro | Divulgação

A aquisição da ODD pela Limppano vai na contramão da tendência do mercado de fusões e aquisições, outro bom termômetro dos humores na economia. O número de transações desse tipo totalizou 848 até setembro no país, ante 1 043 no ano passado, segundo a consultoria Deloitte. Mas o perfil das operações é menos de euforia e mais do pragmatismo típico de períodos de vacas magras. “O que se observa é que as empresas estão se desfazendo de ativos que não são sua atividade principal para se concentrar no que sabem fazer melhor. Assim, conseguem ganhar eficiência. E os estrangeiros têm se destacado nas compras”, diz Reinaldo Grasson, líder da área de finanças corporativas da Deloitte. A dificuldade em conseguir dinheiro para novos projetos também ajuda a explicar a cautela dos empresários. A bolsa de valores, um caminho muito usado para levantar recursos utilizados na expansão de atividades, anda quase às moscas. Apenas três empresas abriram o capital na B3, a bolsa brasileira, neste ano: o Banco Inter e as administradoras de planos de saúde NotreDame Intermédica e Hapvida. Pelo menos sete companhias desistiram de fazer uma oferta inicial de ações devido às condições adversas do mercado. Segundo estimativas, há uma fila de 30 empresas aguardando um momento melhor para ir à bolsa.   

O segmento de serviços para empresas, chamado de B2B, é um dos que primeiro percebem a paralisia. De janeiro a setembro, a GL Eventos, que administra os espaços de convenções SP Expo, na capital paulista, e Riocentro, na fluminense, realizou 215 feiras, cinco a menos do que no mesmo período de 2017. Metade delas teve público menor do que o esperado pelos realizadores. “Assim como as demais empresas, também estamos esperando a definição do cenário eleitoral para decidir sobre nosso crescimento orgânico em 2019. Fechamos nosso orçamento em setembro, mas vamos revisá-lo em novembro. Precisamos saber se vai haver demanda”, afirma Arthur Repsold, presidente da GL, subsidiária da multinacional francesa de mesmo nome, que tem faturamento anual na casa de 1 bilhão de euros. No ramo de imóveis comerciais, a falta de clareza também reflete diretamente nos negócios — ou na falta deles. “Diversos clientes que estão com os estudos prontos para mudança de prédio preferiram esperar o término da eleição para selar ou não novos contratos”, afirma Marina Cury, presidente do grupo de consultoria imobiliária corporativa Newmark Grubb no Brasil.

Se há uma boa notícia em tanta espera, são as boas perspectivas de expansão uma vez definido o resultado nas urnas. Embora nove entre dez investidores considerem a vitória de Bolsonaro melhor para a economia, a visão de que um triunfo de Haddad será uma tragédia tem perdido força. “Cada um terá sua dificuldade, mas é possível que os governos não sejam assim tão diferentes, pelo menos no primeiro ano”, diz Evandro Buccini, economista-chefe da gestora Rio Bravo. Nas últimas semanas, a B3 e o dólar têm respondido positivamente tanto à ascensão de Bolsonaro quanto aos sinais de Haddad de moderação na economia. O Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, acumula alta de 13% no segundo semestre até o dia 8, enquanto a moeda americana tem queda de 11% desde seu pico histórico em 13 de setembro, quando chegou a valer 4,17 reais. Faltam as projeções para a economia real começar a refletir a euforia do mercado financeiro. Desde junho, a previsão para o crescimento do PIB em 2019 na pesquisa Focus, do Banco Central, que reúne as estimativas de analistas de instituições financeiras, está estacionada em 2,5%. Ou seja: até os analistas estão em compasso de espera. 

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