Melhor em transportes, a NTS espera um sinal verde

Primeira transportadora de gás vendida para a iniciativa privada, a NTS aguarda a abertura do setor para expandir sua malha

operação lava-jato revelou em 2014 o esquema de corrupção que desviou bilhões de reais da Petrobras, na época uma das maiores petrolíferas do mundo. Para cobrir o rombo nas contas, a estatal teve de vender diversos ativos. Um deles foi a Nova Transportadora do Sudeste, especializada no transporte de gás natural. Em 2016, a Petrobras anunciou a venda de 90% das ações da NTS para a Nova Infraestrutura, uma afiliada brasileira da gestora de investimentos canadense Brookfield. A transação foi um marco, uma vez que pôs fim ao monopólio da Petrobras no transporte de gás. A NTS opera 2 048 quilômetros de gasodutos que ligam São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais ao Gasoduto Brasil-Bolívia, a terminais de gás natural liquefeito e a usinas de processamento de gás. Por dia, leva 158 milhões de metros cúbicos aos três estados, que respondem por metade do consumo nacional, e tem por ora um único cliente — a própria Petrobras.

Em seu início de atuação como empresa privada, a NTS focou os esforços na melhoria de processos e no treinamento das equipes. “Somos parte do primeiro movimento de abertura do mercado e, nesses dois anos, foi possível trabalhar na preparação da empresa para o futuro”, afirma Wong Loon, presidente da NTS. Os números atestam os bons resultados alcançados até agora. Em 2018, a NTS faturou pouco mais de 1 bilhão de dólares e teve um lucro de 532 milhões, com um retorno sobre o patrimônio de 38%. Em outra frente, a NTS tem atuado para ajudar a modernizar a regulação do setor. “Buscamos conhecer modelos regulatórios no mundo, de forma a contribuir com as alterações para um novo mercado de gás natural no país”, diz Loon. Uma das ações práticas foi a criação, em dezembro de 2017, de uma associação de empresas do setor, a Atgas. O propósito da associação é contribuir nos debates para a criação de um novo modelo regulatório que permita maior abertura do setor.

Wong Loon, presidente da NTS: “Temos enorme interesse em participar da ampliação da malha de gasodutos no país” | André Valentim

Pelos sinais emitidos por Brasília, a situação tende a melhorar. No final de julho, o presidente Jair Bolsonaro assinou um decreto para a criação de um comitê que vai monitorar a abertura do mercado de gás natural. A ideia é abrir espaço para novos agentes no setor e tirar das empresas estaduais os monopólio regionais na distribuição do gás. Com isso, espera-se reduzir em 40% o custo do gás em dois anos. A Petrobras também discute se desfazer dos 10% que ainda tem da NTS. Em junho, a estatal concluiu a venda de outra empresa do ramo, a Transportadora Associada de Gás, para um consórcio liderado pela companhia de energia franco-belga Engie, por 33,5 bilhões de reais. “Finalmente, saímos da fase das intenções para a das ações”, diz Rivaldo Moreira Neto, diretor da consultoria Gas Energy. Segundo ele, a abertura do mercado de gás trará mudanças profundas. “Nos próximos anos, o setor verá investimentos privados na casa das centenas de bilhões.”

Os investimentos privados são essenciais para ampliar a malha atual. Os Estados Unidos têm quase 500.000 quilômetros de gasodutos. A França, 37.000. O Brasil — com um território que é 13 vezes o da França — tem apenas 9.000 quilômetros. Expandir os gasodutos é importante para o salto de produtividade que o Brasil precisa dar para se tornar mais competitivo. “Temos enorme interesse em participar da ampliação da malha de gasodutos do país”, diz Loon. Por enquanto, a NTS prevê investimentos de 900 milhões de reais nos próximos cinco anos apenas para a eliminação de gargalos e para a manutenção da malha atual.