Esporte | A era dourada do tênis

Uma rivalidade como a de Novak Djokovic, Roger Federer e Rafael Nadal nunca foi vista e dificilmente voltará a acontecer

Um campeão se mede por seus oponentes. Muhammad Ali provavelmente voaria mais baixo sem Joe Frazier nas cordas opostas dos ringues — ou sem Sonny Liston, ou George Foreman. Ayrton Senna se arriscaria menos nas curvas se não tivesse Alain Prost ou Nigel Mansell no retrovisor. Michael Jordan teria a mesma vontade de vencer se não enfrentasse Magic Johnson e Larry Bird nos times adversários? Difícil saber. O tênis também é definido por rivalidades, cada uma a seu tempo. A boa notícia: a era dourada das quadras não está no saudosismo, na lembrança dos confrontos de outrora. Está acontecendo agora.

O sérvio Novak Djokovic, o espanhol Rafael Nadal e o suíço Roger Federer, os três primeiros do ranking na ordem, formam a melhor geração do tênis de todos os tempos. Ponto. A mais recente edição de Wimbledon foi testemunha dessa supremacia. Na mais longa final do torneio, com duração de 4 horas e 57 minutos, Djokovic bateu Federer depois de salvar dois match points, num dos mais brilhantes jogos até hoje. Na semifinal, Federer havia vencido Nadal, na 40a partida entre eles. Sorte de quem assistiu: foi outro duelo histórico. A partir de 26 de agosto as três lendas voltarão a se enfrentar em outro Grand Slam, o US Open.

Podemos dizer que esta é a terceira grande era do tênis. No fim dos anos 70 e início dos 80, Bjorn Borg travou partidas memoráveis com Jimmy Connors e John McEnroe. Era o tempo das raquetes de madeira e dos cabelos presos com faixas. Do fim dos anos 80 à metade dos 90, uma quantidade maior de jogadores passou a dividir as finais, a começar por Ivan Lendl, Boris Becker, Mats Wilander e Stefan Edberg, até a ascensão de Pete Sampras e Andre Agassi. Até chegarmos ao melhor momento.

Existem duas maneiras de definir os melhores de um esporte. A primeira, subjetiva, baseia-se no espetáculo. A segunda, nas estatísticas. Senna ganhou uma corrida apenas com a sexta marcha, com a embreagem do carro quebrada, mas não foi o piloto que mais venceu GPs. Jordan já acertou um arremesso livre de olhos fechados, a despeito de ser apenas o quinto maior cestinha da história. O trio de ouro do tênis atual vence nos dois critérios. Nadal inovou ao forçar o topspin às alturas. O backhand de Djokovic, chapado e com a bola na subida, apresenta inacreditável eficiência. O drop shot de Federer, mortal, parece passe de mágica. Com tudo isso, são também os maiores vencedores da história.

Andre Chaco/Fotoarena

Federer, Nadal e Djokovic ganharam, respectivamente, 20, 18 e 16 títulos de Grand Slam. A título de comparação, logo atrás deles está Pete Sampras, com 14. Borg tem 11. Lendl, Agassi e Connors, oito cada um. Como os atuais campeões ainda estão na ativa e no auge, é de supor que a lista de títulos ainda vai aumentar. Dos jogadores na ativa, os maiores vencedores são o britânico Andy Murray e o suíço Stanislas Wawrinka, com apenas três conquistas cada um. Ou seja: os recordes dos três jogadores estão muito longe de ser batidos.

O tênis mudou na era do atual triunvirato. Nas décadas anteriores, prevaleceram algumas escolas nacionais, com características bem marcantes. Australianos iam bem na grama. Suecos eram reconhecidos pela frieza. Americanos primavam pela rebeldia — o comportado Pete Sampras era exceção. Hoje, trata-se de um esporte mais universal, globalizado. Individualmente, os jogadores também eram classificados em dois tipos: os que jogavam no fundo da quadra, trocando bolas e apostando no erro do adversário, e os adeptos do saque e voleio, que tentavam resolver os pontos rapidamente. Até surgir um tal Federer, que conseguiu juntar essas habilidades com força e precisão. Cada vez mais, conta a capacidade de concentração. Basta lembrar que, na final de Wimbledon, Djokovic venceu os três sets no tie-break, quando cada ponto é decisivo.

Karsten Moran/The New York Times/Fotoarena

Rivalidades vendem bilheteria e atraem patrocinadores. Os acordos comerciais acompanham o desempenho dos três atletas. Nadal joga com um relógio Richard Mille, de quartzo ultraleve e com movimento turbilhão, uma complicação que anula o efeito da gravidade. Valor: cerca de 3,5 milhões de reais. Federer é garoto-propaganda de Rolex, Mercedes-Benz, Moët & Chandon, entre outras. Recentemente, trocou a Nike pela Uniqlo, aparentemente porque a marca japonesa de roupa casual teria oferecido a ele um contrato vitalício. Nessa dança das grifes, Djokovic, antes patrocinado pela Uniqlo, hoje veste Lacoste, que tem o tênis no DNA — seu fundador, René Lacoste, foi um campeão nos anos 1920.

Ex-campeões concordam que vivemos o apogeu do esporte da raquete? Aparentemente, sim. “Essa turma chegou muito cedo ao topo e, dez anos depois, continua melhorando”, diz o brasileiro Gustavo Kuerten, tricampeão de Roland Garros. “Antes a gente chegava ao auge aos 25 anos e se mantinha até os 28, 29. Isso é o que diferencia esta geração, eles foram agraciados por essa longevidade. São três extraterrestres que convivem ao mesmo tempo, e todos se alimentam dessa rivalidade. Por que o Federer consegue ser tão bom? Porque tem o Nadal e o Djokovic no calcanhar dele, e vice-versa.” E o que esperar do futuro? “Vamos sentir muita falta quando eles pararem. Vai haver um vácuo nessa transição, até novos nomes surgirem, mas uma hora certamente isso vai acontecer. O esporte é muito grandioso.”