A disputa entre China e Estados Unidos só começou

A volta da guerra tarifária mostra que a rixa entre os Estados Unidos e a China deve durar mais do que o esperado

Poucas companhias são tão globalizadas quanto a fabricante de produtos químicos alemã Basf. Presente em 90 países e com mais de 122.000 funcionários espalhados pelo planeta, a empresa depende de uma rede de distribuição global e de unidades de produção instaladas em diferentes regiões. A Basf é líder mundial no setor químico, com faturamento anual de 63 bilhões de euros. Mas sua posição de destaque tem sido ameaçada desde o ano passado. As tarifas de importação impostas pelos Estados Unidos e pela China aos produtos de ambos os países têm elevado os custos e prejudicado as operações da companhia alemã.

Em 2018, o lucro da Basf caiu 22%, uma queda que, em boa parte, é atribuída à disputa tarifária e ao ritmo mais lento da economia mundial. A Basf não está sozinha. Outras grandes empresas, como a montadora alemã BMW e a empresa de tecnologia americana Apple, dependentes de fábricas na China, estão igualmente de cabelo em pé. Boa parte da produção delas, obtida com os custos chineses mais baixos, segue para os Estados Unidos, principal mercado. Centenas de negócios, com sede em diversas partes do mundo, utilizam a mesma estratégia. Com a escalada da tensão entre os gigantes, a lógica se embaralhou.

A elevação de 10% para 25% das tarifas aplicadas sobre 200 bilhões de dólares em produtos chineses determinada pelo presidente Donald Trump em 10 de maio tem consequências amplas. Cerca de 5.000 categorias de importados, desde formulações químicas para produtos de limpeza, maquinário, eletrônicos até colchões, bambu, paraquedas, frutos do mar, soja e alfafa entraram na lista. As novas tarifas atingiram praticamente metade dos artigos chineses vendidos aos Estados Unidos, que já haviam sido sobretaxados com uma tarifa de 10% em 2018. Do lado chinês, a nova fase de retaliações cobre quase 2.500 produtos americanos, incluindo os setores de alimentos e manufaturados, e representa negócios de 60 bilhões de dólares por ano.

Os fazendeiros do Meio-Oeste americano, onde é produzida grande parte da soja e da carne vendida aos chineses, estão na frente da linha de tiro. Os Estados Unidos exportam mais de 25 bilhões de dólares em produtos agropecuários para a China todo ano — só de soja são 12 bilhões. Nos últimos meses, a neve e a chuva nos estados de Illinois, Nebraska e outras regiões produtoras prejudicaram as lavouras. Com a guerra comercial, a situação piorou e as exportações de soja para a China despencaram. Para os agricultores, nem a ajuda anunciada por Trump, da ordem de 20 bilhões de dólares, pode tirá-los do atoleiro. Devido à querela com a China, a renda dos produtores vem caindo. Ela passou de 123 bilhões de dólares em 2013 para 63 bilhões no ano passado, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.

Nos últimos anos, o presidente Xi Jinping vem deixando claro que segue firme e forte no propósito de tornar a China a maior economia do mundo em 2030, com uma intensa política de subsídios e, segundo os líderes ocidentais, diretrizes obscuras sobre propriedade intelectual e combate à pirataria. “Essas questões são muito mais relevantes para o governo americano do que a balança comercial, que não chega a ser um problema econômico tão grave”, diz Gregory Daco, economista-chefe da consultoria britânica Oxford Economics. De fato, a economia americana vai bem. No primeiro trimestre deste ano, o crescimento de 3,2% foi acima do esperado, com a criação de quase 200.000 postos de trabalho e o consumo em alta. “Os Estados Unidos não querem ser solapados pela China na geopolítica e no comércio mundial”, afirma Daco.

Há também motivações políticas de ambos os lados. Caso Trump consiga vencer essa briga, ele poderá chegar mais perto de um segundo mandato na Casa Branca. Xi Jinping tem a difícil missão de negociar com a maior potência mundial — e seu principal parceiro comercial — sem causar muitos arranhões à economia chinesa e ao rígido controle que exerce no Partido Comunista.

Desde que assumiu o poder, em 2013, Xi Jinping alterou a Constituição para permanecer no cargo por tempo indefinido e aumentou a censura às críticas à sua gestão. O governo também vem incentivando o desenvolvimento tecnológico e a educação. Empresas chinesas estão conquistando avanços importantes em inteligência artificial, robótica e outras tecnologias avançadas que, até pouco tempo atrás, eram de domínio americano. Trump anunciou que deve impor restrições para a venda de chips à indústria de tecnologia chinesa, a exemplo do que fez com a empresa de telecomunicações Huawei, que foi proibida de trabalhar com parceiras americanas. “A China já tem bases militares na África, exerce forte influência na Venezuela e está do lado da Rússia na Guerra da Síria”, diz Yun Sun, cientista política chinesa especializada nas relações bilaterais, do centro de estudos americano Stimson. “Os Estados Unidos têm motivos para se preocupar.”

Produtor de soja nos Estados Unidos: as vendas para a China secaram | R. Hamilton Smith/AGB Photo

O custo dessa briga deve ser alto. Segundo o Fundo Monetário Internacional, a economia mundial deve perder fôlego neste ano, com um crescimento de pouco mais de 3%, após um crescimento de 3,6% em 2018. Christine Lagarde, diretora da entidade, avalia que o clima global passou de “nuvens cinzentas” para o de “instabilidades” — e isso, no linguajar das organizações internacionais, revela uma piora. A Organização Mundial do Comércio também está preocupada. As projeções indicam uma desaceleração do crescimento das trocas globais para 2,6% neste ano, ante 3% em 2017 e 4,6% em 2017.

As estimativas de bancos e economistas apontam para uma redução da taxa de crescimento do produto interno bruto de diversos países caso os Estados Unidos e a China não cheguem a um entendimento. Até o Brasil, pouco integrado a cadeias mundiais de suprimentos, seria afetado. De acordo com projeções do banco Itaú Unibanco, a expansão econômica esperada para este ano, que já é pequena, poderia sofrer um revés de até 0,2 ponto percentual com a redução do comércio global causada pela guerra tarifária. “Com uma demanda mundial menor por commodities e outros produtos, o Brasil passa a vender menos minério de ferro e outros itens importantes da pauta de exportações brasileiras”, diz Roberto Prado, economista do Itaú Unibanco. O mercado prefere nem pensar numa escalada, com as tarifas de 25% atingindo todos os produtos chineses importados pelos Estados Unidos, que somam 600 bilhões de dólares por ano. “Nesse caso, teríamos de rever as estimativas, pois o impacto negativo certamente seria maior”, afirma Prado.

No cenário atual, a China e os Estados Unidos também enfrentariam um crescimento menor, na casa do 0,2 ou 0,3 ponto percentual, que poderia ser seguido de uma política de redução de juro em ambos os países para estimular o consumo. Os países em situação mais delicada, no entanto, são o Vietnã, o Camboja, o Japão e outros fornecedores de peças para a China, onde os produtos são finalizados e vendidos para os Estados Unidos. As economias do Sudeste Asiático correm o risco de sentir outro efeito colateral. Sem acesso ao mercado americano, as fabricantes chinesas podem direcionar as vendas para os mercados da região. No Camboja, os fabricantes de bicicleta, terceiro maior produto da pauta de exportação, estão com as mãos atadas. Depois de ter investido cerca de 400 milhões de dólares para fabricar e exportar bicicletas, o setor teme a invasão chinesa e seus preços reduzidos. É uma briga que ninguém sabe muito bem onde vai dar.

Se os últimos meses servirem de exemplo, é possível que os Estados Unidos e a China cheguem a um entendimento na questão das tarifas. Da última vez que Trump e Xi Jinping estiveram juntos, em Buenos Aires, ambos concordaram em dar uma trégua à disputa. Mas a estabilidade durou pouco e a negociação comercial azedou. O próximo encontro de Trump e Xi Jinping será no fim de junho, durante a cúpula do G-20, no Japão. O mundo acompanha ansioso os próximos passos. Mas o fato é que a fase em que a China e os Estados Unidos trabalhavam juntos para o benefício de ambos os lados parece ter ficado no passado.