A DeVry, dona do Ibmec, quer crescer no Brasil

Presidente da DeVry, uma das maiores redes de ensino do mundo e dona do Ibmec no Brasil, a advogada americana Lisa Wardell diz que seu plano é crescer aqui

São Paulo – A advogada Lisa Wardell é um caso raro no capitalismo americano. Ela assumiu há seis meses a presidência do grupo educacional DeVry, um dos maiores do mundo, com faturamento anual de 1,8 bilhão de dólares, tornando-se a única negra a presidir uma das 500 maiores empresas dos Estados Unidos. Deve ser também uma das raras altas executivas do país com seis filhos — cinco deles adolescentes.

À frente da DeVry, virou uma das vozes mais ativas na discussão das mudanças educacionais nos Estados Unidos e também na inserção de mulheres no mercado de trabalho. O Brasil é uma de suas prioridades. Por aqui, a DeVry é dona da rede Fanor, com faculdades nas regiões Norte e Nordeste, e também da escola de negócios Ibmec. Em entrevista a EXAME durante uma visita a São Paulo, ela falou sobre os planos para o Ibmec, sobre mulheres e, claro, sobre Donald Trump.

EXAME – A senhora comanda uma instituição que tem escolas nos Estados Unidos, no Brasil e ambição de chegar a outros países. Qual é a prioridade?

Lisa Wardell – A DeVry é um grupo de sete instituições. Nosso maior objetivo é democratizar o acesso à educação, tornando o ensino acessível a diversos estratos sociais. Por isso, priorizamos áreas de grande demanda global, que podem ajudar a desenvolver a economia de diferentes países. Essas áreas são saúde, tecnologia e educação profissional. Meu objetivo é tornar a DeVry internacional, replicando o modelo de sucesso do Brasil na América Latina e em outros países, como a China.

EXAME – Não existe demanda no Brasil que justifique a abertura de uma unidade do Ibmec em cada capital. Como crescer no país?

Lisa Wardell – É a mesma questão estratégica que, por exemplo, a Universidade Harvard e a Universidade de Chicago têm. Não queremos crescer apenas geograficamente. Em vez disso, pretendemos criar uma abordagem internacional e trazer mais alunos dos Estados Unidos para o Brasil e levar estudantes brasileiros para o exterior. Também está nos planos oferecer programas de Ph.D. e cursos de educação corporativa. Temos muita experiência com empresas multinacionais, como General Electric, Wallgreens e Exxon Mobil. Uma instituição como o Ibmec pode fazer isso para companhias latino-americanas.

EXAME – O Brasil, como os Estados Unidos, está em meio a um debate sobre o país que quer ser e como chegar lá. Qual é o papel de uma empresa de educação nesse processo?

Lisa Wardell – Uma das coisas que aprendemos nos Estados Unidos é que a qualidade do programa da educação básica tem impactos diretos na qualidade do ensino superior. Tivemos problemas nacionais com o ensino básico durante muito tempo. As escolas não tinham o nível necessário, e isso colocava pressão nas faculdades e também desmotivava os estudantes — uma parcela expressiva dos alunos não conseguia acompanhar os cursos de graduação e acabava desistindo. Isso se resolve com mais envolvimento.

Mesmo as empresas de educação que não oferecem ensino básico precisam participar dos debates sobre o assunto, discutir quais são os exames usados e como as escolas estão preparando os estudantes para seu próximo passo. Nos Estados Unidos, a DeVry tornou-se uma companhia bastante ativa simplesmente porque isso facilita nosso trabalho.

EXAME – Não ouvimos muito a palavra “educação” durante a campanha eleitoral americana. O que esperar do governo de Donald Trump?

Lisa Wardell – O que os políticos dizem antes de assumir o cargo pode diferir muito do que farão no governo. Mas a educação tem sido parte do debate já há algum tempo, em razão do endividamento estudantil e da falta de qualificação de parte da força de trabalho. Trump e os republicanos não gostam do nível de controle que o governo de Barack Obama tem sobre a educação e acreditam mais na força do mercado privado.

Mas eu encontrei pessoalmente com os consultores de educação da campanha de Trump alguns meses atrás e estou otimista. Estou animada com a oportunidade de ajudar o novo presidente com soluções para eliminar os gargalos na força de trabalho.

EXAME – A senhora é uma das raras mulheres a comandar uma das maiores empresas americanas. É parte de seu trabalho mostrar para suas estudantes que elas podem chegar lá, e oferecer ferramentas para isso?

Lisa Wardell – Com certeza. Entre as 1.000 maiores empresas dos Estados Unidos, há 51 mulheres na presidência, e eu sou uma delas. E eu sou a única negra. Tenho de administrar a empresa e fazer com que ela cresça, mas também garantir que nós estamos pensando em nossas estudantes mulheres.

Eu falo em várias conferências para mulheres que sentem que elas precisam escolher entre ter uma família e uma carreira. Digo que elas não precisam escolher. De fato eu sinto que ter filhos ajuda a ter paciência e a se comunicar melhor — mas, claro, não precisam ser seis filhos. É muito mais fácil administrar as pessoas que trabalham na DeVry do que os meus filhos adolescentes.