A construção de elefantes brancos para a Copa do Mundo

A falta de viabilidade econômica dos estádios após a Copa do Mundo eleva o temor de desperdício de dinheiro público

São Paulo – A menos de dois anos para o início da Copa do Mundo no Brasil,  as promessas brasileiras estão longe de ser cumpridas. Os estádios da Copa, inicialmente orçados em 3,5 bilhões de reais, já custam o dobro — por enquanto. Das 12 arenas selecionadas para os jogos, sete já prorrogaram a data de inauguração.

O risco de o país passar pelo vexame extremo de não ter estádios prontos para o Mundial parece pequeno. Restam, no entanto, muitas dúvidas sobre o futuro dos estádios depois do evento. Em tese, todas as arenas da Copa estarão aptas a abrigar, por exemplo, shows e exposições. Mas apenas sete delas foram concebidas pensando em sua viabilidade econômica. O restante não tem plano algum ou apenas estudos preliminares. Ou seja, tem tudo para se transformar nos temidos “elefantes brancos”. 

Apesar do alto investimento, sediar uma Copa do Mundo ou os Jogos Olímpicos pode trazer muitos benefícios a um país. Melhorias em aeroportos e nos sistemas de transporte imprimem maior competitividade à economia. O turismo traz receitas e cria empregos.

Um estudo de Andrew Rose, professor da Universidade da Califórnia, e Mark Spiegel, vice-presidente do Federal Reserve de São Francisco, constatou que um evento esportivo de grande magnitude pode resultar em um aumento de 30% do comércio exterior nos anos seguintes graças à tendência de maior abertura econômica após um grande evento. Nada disso, porém, resolve a conta a ser paga pelos investimentos nos estádios.

“Este sempre será o grande desafio de uma Copa”, diz Danny Jordaan, executivo responsável pela Copa do Mundo da África do Sul, país onde o futebol não é o esporte nacional. Lá, ao menos três dos dez estádios erguidos para o evento — os de Durban, Nelspruit e Cidade do Cabo — correm o risco de ser desativados.

Na Cidade do Cabo, o estádio poderá virar um condomínio residencial e o gramado ser transformado em área de lazer. Aqui, a esperança é que a paixão pelo futebol e a quantidade de times profissionais possam assegurar as receitas de jogos em grande parte das sedes.

Outras fontes de recursos também podem ajudar a fechar as contas. Na Europa, os jogos representam, em média, 30% do faturamento. O restante vem da venda de publicidade, espaços comerciais e eventos. Mas, para que isso aconteça, é preciso planejamento — algo em falta em muitas cidades-sedes. 

O Brasil vive uma situação intricada em relação às arenas esportivas. Três modelos de negócios estão sendo utilizados para construção, reforma e administração dos estádios brasileiros: gestão dos governos estaduais, parcerias público-privadas e administração feita pelos próprios clubes.


Dependendo­ do modelo adotado, há mais ou menos clareza em relação à viabilidade econômica dos empreendimentos depois da Copa. Hoje, quatro arenas estão sendo tocadas em regime de PPP e três estádios são geridos por seus clubes (Corin­thians, Internacional e Atlético Para­naense).

As cinco arenas restantes são de responsabilidade de governos estaduais — entre elas o Maracanã. São justamente os projetos com envolvimento privado que têm maior chance de devolver o dinheiro investido. No leque de oportunidades ma­pea­das constam desde a criação de um centro comercial de produtos têxteis, como é o caso do Castelão, em Fortaleza, até a venda dos direitos do nome da arena, como vem sendo negociado pelo Corinthians com o estádio apelidado de Itaquerão.

O projeto cujo modelo é considerado um dos mais avançados no país é o do estádio do Mineirão, feito em parceria entre o governo de Minas Gerais e a iniciativa privada. A principal fonte de receita do estádio virá dos jogos de Cruzeiro e Atlético Mineiro, clubes que atuam em pelo menos 60 partidas por ano.

Além da renda dos jogos, Ricardo Barra, presidente do consórcio Minas Arena, acredita que precisa fechar mais 30 eventos, como feiras de negócios e shows, para começar a remunerar o governo. O consórcio também negocia a receita que virá com restaurantes e patrocínios. “Imaginamos o retorno do investimento em um prazo de oito a dez anos”, diz Barra.

Realidade bem diferente é a do projeto do estádio Mané Garrincha, em Brasília, obra tocada pelo governo do Distrito Federal. Na mais otimista das projeções, a arena irá abrigar 12 grandes jogos ao ano, número considerado insuficiente para dar retorno financeiro. O valor da obra é de 812 milhões de reais, o terceiro maior da Copa. O mesmo dilema sofre a Arena Amazônia, em Manaus. Sem nenhum time nem na segunda divisão, o estádio teria de receber 25 grandes eventos para se tornar viável.

Sejam eles privados ou públicos, todos os gestores vão ter de suar a camisa para fazer dinheiro com os estádios da Copa. Considerando-se um prazo de 20 anos para amortizar os investimentos, média usada para calcular a viabilidade de concessão de rodovias, a parcela mínima para pagar a reforma ou a construção dos estádios varia de 12 milhões a 43 milhões de reais por ano.

Ao comparar esse valor com as receitas totais dos clubes que jogam nesses estádios, constata-se que, em seis das 12 arenas, a situa­ção é complicada. Em duas delas a receita gerada pelo estádio é insuficiente para pagar o investimento. Em outros quatro casos, como não há nem previsão de receita, é impossível calcular o retorno.

“Teremos arenas cuja viabilidade dependerá de um esforço enorme por outras fontes de recurso”, diz Mauro­ Johashi, sócio da consultoria de infraestrutura BDO, de São Paulo. Se forem levadas em conta as receitas apenas dos estádios, o buraco pode ser quase insuperável. O principal deles, o Maracanã, teve lucro de apenas 3 milhões de reais antes de ser fechado para reforma. Nesse ritmo, seriam necessários mais de 400 anos para saldar a dívida gerada na reforma. E aí, só mesmo com um milagre para fechar a conta.