A classe operária vai ao paraíso

Com os sindicatos fortalecidos por receitas de 5 bilhões de reais, os trabalhadores reivindicam aumentos salariais de até 10 pontos acima da inflação. Eis mais um problema para o governo Dilma Rousseff

O clima na sede do Sindicato dos Vigilantes no Município do Rio de Janeiro, no centro da cidade, era de euforia na noite de 7 de abril. Líderes da categoria afinavam propostas e preparavam discursos.

Outros companheiros trabalhavam na produção de panfletos e contratavam carros de som para a grande manifestação marcada para o dia 12 — uma paralisação que poderia levar ao fechamento de 90% das agências bancárias da cidade do Rio de Janeiro, já que bancos não podem funcionar sem a presença de seguranças.

“Estamos negociando desde fevereiro, mas não chegamos a um acordo”, diz Amílton Braz, vice-presidente do Sindicato dos Vigilantes. A proposta das empresas de segurança — aumento de 1,5% nos salários, além de reposição da inflação de um ano — não agradou aos trabalhadores. Entre as reivindicações do sindicato está um reajuste de 10 pontos percentuais acima da inflação.

É um aumento e tanto, especialmente quando se leva em consideração que a categoria já havia conquistado 11% de reajuste em 2010. Até o fechamento desta edição, no dia 11, permanecia a ameaça de uma greve nos bancos do Rio.

A movimentação dos vigilantes cariocas é apenas uma amostra da intensificação das disputas entre patrões e empregados neste início de ano. Recentemente, as greves interromperam grandes obras em todo o país, como as usinas de Jirau e Santo Antônio, em Rondônia, o complexo de Suape, em Pernambuco, e o porto do Açu, no Rio de Janeiro.

Ao todo, apenas na área de infraestrutura, mais de 100 000 operários já cruzaram os braços em 2011. Não será exatamente uma surpresa que tantos outros ameacem com greves nos próximos meses. Com a economia aquecida e a falta generalizada de mão de obra, os trabalhadores sabem que estão em vantagem — e querem aproveitar ao máximo o momento.


“Podemos ter uma das maiores ondas de greves da história”, diz Paulo Pereira da Silva, presidente da Força Sindical. “Vamos exigir mais a partir de agora. Em 2011, as negociações serão radicais.” Desde 2004, porém, os trabalhadores têm conquistado bons acordos. No ano passado, quase 90% das negociações terminaram com reajustes salariais acima da inflação.

A situação é delicada para a presidente Dilma Rousseff. Ao mesmo tempo em que os sindicatos vão à luta por novos aumentos — cogitando até uma paralisação coordenada de obras do Programa de Aceleração do Crescimento —, o perigo de escalada da inflação também cresce.

Em meio a essas forças contrárias, o governo precisará de jogo de cintura para não se indispor com os trabalhadores, a base do partido da presidente. Nas negociações para o reajuste do salário mínimo, Dilma não cedeu às pressões. Como cada 1 real­ de aumento do mínimo representa 250 milhões a mais nas contas da Previdência, ela bateu o pé em 545 reais e desagradou aos sindicalistas, que queriam 580 reais.

Daqui por diante, de acordo com analistas, a disseminação das reivindicações, com muitas categorias importantes, como metalúrgicos, bancários e servidores públicos, ainda por apresentar suas pautas, representará um desafio permanente à manutenção do índice de preços dentro da meta.

As pressões sindicais vêm complicar um quadro de elevação dos salários que já ocorre pela disputa entre as empresas por pessoal qualificado. Isso está acontecendo sem contrapartida suficiente na produção. “Os aumentos salariais têm sido maiores que o ganho de produtividade, e isso já vem alimentando a inflação”, afirma José Pastore, especialista em relações trabalhistas e professor da Universidade de São Paulo. “A demanda por mão de obra fatalmente fará com que os salários subam ainda mais em 2011.”


O aquecimento do mercado de trabalho, com o aumento no número de empregados com carteira assinada, também fortalece financeiramente as entidades sindicais. Os sindicatos, confederações e centrais de trabalhadores devem receber cerca de 5 bilhões de reais neste ano.

Uma parte desse valor é garantida pela contribuição sindical — tributo correspondente a um dia de trabalho de cada empregado. A contribuição é recolhida pelo governo e repassada às entidades. Em 2010, o montante arrecadado ultrapassou 1 bilhão de reais. A dinheirama é motivo de disputa entre os sindicalistas.

No caso das centrais, a participação no bolo foi oficializada em 2008. Elas passaram a receber 10% do total arrecadado pelo governo com a contribuição sindical. Quanto mais representativa a entidade, maior é sua fatia. No ano passado, a Central Única dos Trabalhadores, a maior do Brasil, com 2 000 sindicatos afiliados, levou 32 milhões de reais. A Força Sindical, segunda mais representativa, com 1 500 sindicatos, recebeu 29 milhões de reais.

A contribuição sindical, porém, é apenas uma das fontes de financiamento do sindicalismo no país. Segundo estimativas da Confederação Nacional da Indústria, o montante recebido pelos 12 000 sindicatos de trabalhadores, com cerca de 300 000 dirigentes, teria somado 4,7 bilhões de reais no ano passado.

Nessa conta, além do tributo sindical, entram contribuições associativas, repasses feitos por meio de convênios e salários de dirigentes pagos pelas empresas em que trabalhavam. “Há mais de 40 000 dirigentes com salários pagos pelas empresas e liberados para atuar nos sindicatos.

Só isso representa 1,6 bilhão de reais por ano para fortalecer o movimento trabalhista”, afirma Emerson Casali, gerente executivo da CNI. Organizadas e com os cofres cheios, as centrais têm investido na formação de dirigentes e assessores. Com pessoal mais bem treinado, os sindicatos ganham terreno nas negociações.


Hoje, os sindicalistas só sentam à mesa cercados de advogados e técnicos munidos de pesquisas para comprovar suas teses. O dinheiro farto também estimula o surgimento de novos sindicatos. “É mais fácil montar um sindicato do que abrir uma empresa. Em média, 2,3 são fundados diariamente”, diz Artur Henrique, presidente da CUT. “A maioria não serve para nada.”

Greve pelo Twitter

Embora fortalecidas, as lideranças tradicionais têm dificuldade para arrebanhar as novas gerações de trabalhadores. Os panfletos, como os bilhetes de João Ferrador, personagem criado pelos metalúrgicos do ABC paulista nos anos 70 e depois transformado em quadrinhos pelo cartunista Laerte, já não causam o impacto de outrora.

No dia 28 de março, uma greve no setor de informática em São Paulo começou com uma troca de mensagens entre colegas de trabalho no Twitter e constrangeu o sindicato do setor. A organização dos piquetes em empresas como HP e Tivit se deu com a propagação de mensagens virtuais.

Vídeos das negociações foram colocados na rede. Dois dias depois, os trabalhadores retornaram ao serviço, mas, sem o pedido de 11,9% de aumento atendido, podem voltar ao Twitter e retomar a greve. De todo modo, no momento, até a tecnologia está dando mais força às reivindicações.