“A China não vai ter crise”, afirma o economista Fan Gang

Para o economista Fan Gang, um dos mais respeitados da China, o país está dando adeus às taxas de crescimento de 2 dígitos — o primeiro passo para manter a locomotiva nos trilhos

Rio de Janeiro – O chinês Fan Gang, professor de economia da Universidade Peking, a mais importante da China, é considerado um dos principais economistas do país.­ Ex-membro do conselho de política monetária do banco central chinês, Fan ajudou a fundar e preside o Instituto Nacional de Pesquisas Econômicas, uma das poucas organizações não governamentais e independentes da China.

Para o economista, o país continuará crescendo muito por mais dez ou 20 anos, mas num ritmo inferior ao das últimas duas décadas. Na sua avaliação, os principais desafios do país são universalizar a rede de proteção social, impedir o aumento da inflação e evitar crises provocadas por desastres financeiros ou pelo alto endividamento. Fan falou a EXAME durante visita ao Brasil, onde participou do seminário “O Brasil e o mundo em 2022”, promovido pelo BNDES. 

EXAME – Qual deve ser o crescimento da China neste e nos próximos anos?

Fan Gang – Acredito que ainda seja possível fechar 2012 em 8%. Estamos preparando o terreno para crescer numa média anual­ entre 8% e 8,5% nos próximos anos. Tivemos superaquecimento em 2009 e 2010, devido ao pacote de estímulo criado para fazer frente à crise internacional de 2008.

A partir desse ponto, o governo começou a desacelerar a economia para promover uma aterrissagem suave — uma expansão em torno de 7,5% no segundo trimestre deste ano. Uma coisa é certa: se a China crescer 9%, terá superaquecimento. O ideal agora é crescer 8%, e esperamos estabilizar nessa faixa.

EXAME – Por quanto tempo a China vai continuar crescendo assim?

Fan Gang – Acredito que teremos de dez a 20 anos de crescimento alto. Primeiro, na faixa entre 7% e 8%. Depois, entre 6% e 7%. Estimar esse ritmo é perfeitamente justificável. Temos uma população de 1,4 bilhão de pessoas. Cerca de 30% da força de trabalho ainda está no campo. Levando em conta a população total, nossa taxa de urbanização ainda é de 50%.

Pense na quantidade de pequenas cidades que se tornarão grandes ao longo da costa nos próximos anos. Pense em ruas, casas, metrôs e trens de alta velocidade que precisarão ser construí­dos. Nessa área, ainda temos um longo caminho a percorrer.

Mas, para atingirmos essas metas de crescimento, precisamos manter as reformas, evitar a inflação e impedir as crises provocadas por questões financeiras e pelo aumento desmedido da dívida pública.

EXAME – Quando o senhor fala em impedir crises, parece se referir mais a fatores internos do que externos. É isso mesmo? 

Fan Gang – Sim. Refiro-me a impedir a nossa própria crise. Precisamos aprender com os erros que outros países cometeram no passado: hiperinflação, crises fiscais e décadas perdidas, por exemplo. 

EXAME – Como a crise europeia está afetando a economia chinesa?

Fan Gang – No longo prazo, essa crise é uma ótima lição para a China. Se os países europeus estão enfrentando problemas de financiamento, um país em desenvolvimento como a China precisa ser muito cuidadoso. Estamos começando a construir uma rede de proteção social e devemos ter cuidado com a dívida pública. Precisamos prestar atenção principalmente nos governos locais, que não são entidades com responsabilidade fiscal legal.

Isso faz com que eles tentem emprestar o máximo possível, mas não se preocupem tanto em receber o dinheiro de volta. Afinal, o governante sabe que será enviado para outra região em cinco anos. A crise europeia resultou numa desaceleração global, mas o impacto não foi tão forte porque o mundo mudou.

Hoje, os países emergentes respondem por 50% do PIB mundial e por 70% a 80% do crescimento. O mundo não é mais só Europa e Estados Unidos. As exportações chinesas cresceram 15% em maio. Em junho, 11%. Não são os 25% de anos anteriores, mas ainda é um crescimento de 2 dígitos. 

EXAME – Quanto tempo o senhor acha que a crise na Europa e nos Estados Unidos ainda deve durar?

Fan Gang – Acho que de três a cinco anos. Nos Estados Unidos, falam em dez anos. Na Europa, falam em 15. Para mim, será mais rápido do que isso. Será um tempo de estagnação.

EXAME – Qual é o maior desafio da China na atualidade?

Fan Gang – Certamente é a desigualdade social. E esse é um problema político. 

EXAME – Como reduzir essa desigualdade?

Fan Gang – Temos de continuar crescendo e também temos de construir uma rede de proteção social, que ainda está no início. A maioria da força de trabalho chinesa ainda não tem direito à aposentadoria. Até pouco tempo atrás, apenas a população urbana podia ter esse direito. Ocorre que os migrantes rurais foram trabalhar nas fábricas das cidades, mas continuaram com status de cidadãos rurais.

O governo está unificando o programa agora. Em alguns anos, o trabalhador poderá viver numa cidade e pedir o benefício em outra. É um avanço gradual. Hoje, cerca de 40% da população no meio urbano é coberta pelo programa de aposentadorias. Recentemente, o governo criou um programa para a zona rural que cobre 60% da população dessa área.

Metade é financiada pelo governo central e a outra pelos indivíduos. As aposentadorias rurais pagam o equivalente a 1 000 dólares ao ano e as urbanas ficam, na média, em torno de 3 000. 

EXAME – Quando a China chegará ao padrão de vida de um país desenvolvido?

Fan Gang – Em algumas cidades, em 20 anos as pessoas viverão como europeus ou americanos. Mas o país é vasto, cheio de lugares pobres, cidades pequenas. Devemos demorar uns 50 ou 60 anos para termos um padrão americano ou europeu em toda a China.

Na zona rural, a renda média chinesa é de 3 000 dólares ao ano. Nas urbanas, chega-se a 10 000 dólares. A disparidade é muito grande. Saber disso é fundamental para entender a China.

EXAME – A população chinesa mostra sinais de insatisfação?

Fan Gang – É da natureza humana nunca se sentir completamente satisfeito. Na China, as pessoas falam muito dos problemas. Porém, se você perguntar se elas têm boas expectativas para o futuro, a maioria dirá que sim.

A China teve a maior pontuação nesse quesito em uma recente pesquisa internacional. Os chineses entendem que a vida está melhor. Mesmo a população rural, que ainda é pobre, tem a expectativa de conseguir um trabalho melhor para si e para o filho ou a filha. 

EXAME – O senhor acha que há espaço para o comunismo diante do individualismo crescente na China?

Fan Gang – Não sei se as novas gerações se preocupam muito com a igualdade de oportunidades. Hoje, a China está indo na direção de uma economia de mercado. As pessoas do Partido Comunista diriam que estamos num estágio inicial do socialismo. Como na teoria: socialismo primeiro, comunismo depois.

EXAME – O senhor acredita nisso?

Fan Gang – Não estudo muito esse tipo de assunto. Acredito nos seres humanos. Acredito que é preciso desenvolver um modelo em que as coisas funcionem. Buscar eficiência, tecnologia, educação, incentivos para que as pessoas trabalhem duro. Mas é preciso evitar disparidades sociais muito grandes. 

EXAME – Há quem tema que a China se torne uma superpotência e queira lutar por recursos naturais que lhe faltam. O que o senhor acha disso?

Fan Gang – Não compro essa ideia. Como conseguimos, hoje, os recursos que precisamos? Comprando. Já estamos acostumados com esse processo pacífico. Levaremos uns 60 anos para rivalizar com os Estados Unidos. Até lá, estaremos mais acostumados com esse processo. Mesmo que tenha poderio militar, é improvável que a China tenha de usá-lo.