“A China não é um sistema ditatorial”

Para o presidente da Câmara Brasil-China, os chineses estão felizes com seu sistema político e têm liberdades que não são encontradas no Brasil

São Paulo – Em meados de novembro, a China, como era esperado, passou por mais uma troca de comando de cartas marcadas. Meses antes do anúncio, todos sabiam que Xi Jinping seria conduzido ao cargo máximo do Partido Comunista.

Para Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China, não há falta de liberdade na segunda maior economia do mundo. “Os chineses estão satisfeitos e, se houvesse uma eleição direta, o Partido Comunista ganharia”, afirma o empresário chinês, que vive no Brasil há 35 anos.

1) EXAME – Por que o senhor afirma que o sistema político chinês é democrático?

Charles Tang – O que a China tem é um governo com um partido forte. Não uma ditadura de uma só pessoa. O presidente chinês não tem liberdade de fazer o que bem entende. Existem outras legendas, mas o Partido Comunista, com mais de 80 milhões de membros, é o mais poderoso.

2) EXAME – Por que, então, não são realizadas eleições diretas na China? 

Charles Tang – Ninguém quer arriscar e ver acontecer na China o que ocorreu com a União Soviética. Você já imaginou o Brasil tentando governar 1,3 bilhão de pessoas?

3) EXAME – A Índia é quase tão populosa e tem um sistema democrático. Os chineses não querem ter mais liberdade?

Charles Tang – Os chineses têm muita liberdade. Isso é evidente para quem vai à China. Logo se percebe que eles são felizes. Diferentemente do que acontece no Brasil, na China não é necessário viver cercado por grades ou dirigir carros blindados. Isso é ter liberdade, não é?

4) EXAME – Quem se opõe ao partido é calado. Quando os chineses terão a opção de escolher outro regime? 

Charles Tang – A China possui 57 etnias e 154 dialetos. Para mantê-la unida, sempre houve governos fortes. Mas estou certo de que, se houvesse uma eleição direta no país, o Partido Comunista ganharia. Nos últimos 30 anos, o partido tirou o país da miséria e o elevou à condição de segunda economia do mundo. Garanto que o povo chinês nunca viveu tão bem.

5) EXAME – Como a desaceleração da economia pode afetar o cenário chinês? 

Charles Tang – A China não é uma ilha imune à crise, mas ainda vai crescer, pois há espaço para transformar a economia via consumo interno. Lembre-se de que a China tem munição. Em 2008, gastou 600 bilhões de dólares em um pacote de estímulo que tirou o mundo da recessão. O governo não vai deixar um pouso forçado acontecer, até porque o crescimento econômico é um fator de legitimidade perante a população.

6) EXAME – Por que a China tem tanta dificuldade de estabelecer um mercado interno de consumo? 

Charles Tang – Não se muda uma economia de um dia para o outro. A China levou 30 anos para tirar centenas de milhões de pessoas da pobreza. Não gastará outros 30 para fazer os chineses consumir, mas não conseguirá isso amanhã.

7) EXAME – O aumento dos salários na China está tirando a competitividade do país?

Charles Tang – A competitividade não está só nos salários, mas na infraestrutura, na logística, na escala de produção e na cadeia tributária. No Brasil, os encargos sociais correspondem a quase 130% do salário de um trabalhador, ante menos de 60% na China — e isso faz diferença.