A bolha do alicate da Mundial

As ações da Mundial, tradicional fabricante de alicates, tiveram uma valorização de 1 400% em 2011 — e ninguém consegue explicar o que está acontecendo

São Paulo – Na história das bolhas financeiras, já houve de tudo um pouco. Tulipas, ferrovias, empresas de internet, casas: de tempos em tempos, uma modalidade de investimento fica tão na moda que os preços começam a disparar e se afastar da realidade — e a volta à normalidade costuma ser traumática. Pois o Brasil está dando, em 2011, sua contribuição à história das manias financeiras.

Inaugurou-se, na Bolsa de Valores de São Paulo, a bolha do alicate: esse é o produto mais tradicional da companhia gaúcha Mundial, que fabrica também produtos de beleza, talheres e válvulas hidráulicas. As ações da Mundial valorizaram em 2011 quase 1 400% na bolsa.

O número de zeros não está errado: o valor de mercado da companhia passou de 77 milhões para 1,4 bilhão de reais neste ano. Isso num ano em que o Índice Bovespa acumula queda de 15%.

A euforia é tamanha que a ação da Mundial, até o fim do ano passado ignorada pelos grandes investidores, acabou se tornando uma das cinco mais negociadas do pregão — em alguns dias, superando até mesmo a Petrobras.

A bolha do alicate é, atualmente, o maior mistério da bolsa brasileira. O que está acontecendo? Há razões concretas para essa paixonite aguda dos investidores pela Mundial? A bolha do alicate explodirá? Desde que as ações começaram a subir, em abril, surgiram rumores de que a empresa estaria prestes a ser vendida.

A boataria foi seguidamente negada pela empresa até que, no dia 18 de julho, surgiu algo de mais concreto no horizonte. O fundo americano Yorkville Advisors, de Nova Jersey, anunciou que investirá 50 milhões de dólares na Mundial. Para quem esperava a concretização de um negócio bilionário, o diminuto investimento americano foi uma decepção.

Mas o mercado não estava nem aí para decepções. As ações da Mundial subiram 11% no dia do anúncio do negócio. O Ibovespa, no mesmo dia, atingiu sua mínima do ano.

Se não é a expectativa de aquisição o motivo para o fenômeno Mundial, como explicá-lo? Há, de acordo com a diretoria da empresa, uma origem mais prosaica. Pela versão oficial da companhia, a valorização das ações se deve a uma série de visitas que seus diretores fizeram a fundos e corretoras.


Em conferências, os executivos prometeram que a atual dívida de cerca de 400 milhões de reais da empresa seria quitada com a venda de cinco terrenos e com a emissão de títulos no valor de 100 milhões de dólares. Além disso, foi anunciada a intenção de aderir ao Novo Mercado, nível máximo de governança corporativa da BM&F Bovespa.

Logo no primeiro dia da apresentação de seus planos para 37 pessoas, em 6 de abril, às 11 horas, na corretora Souza Barros, em São Paulo, as ações preferenciais da empresa subiram 13%. Se a origem do fenômeno Mundial foi essa mesmo, trata-se, sem dúvida, do PowerPoint mais lucrativo da história do sistema financeiro.

Melhor que a Apple?

Seja qual for a qualidade do ar que infla a bolha do alicate, a Mundial entrou de vez no radar dos investidores brasileiros. Um relatório do banco Santander prevê que a Mundial entrará no grupo de grandes empresas que compõem o Índice Bovespa (mesmo tendo faturado 365 milhões de reais em 2010, aproximadamente um terço das receitas de outras possíveis estreantes, como a varejista Hering e a rede de laboratórios Dasa).

Para quem quer entrar na festa agora, há de se perguntar se esse fascínio todo tem futuro ou está prestes a se esgotar. A relação entre preço e lucro (o conhecido índice P/L) é um bom indício de que toda essa euforia tem grande risco de não acabar bem. Esse é o índice mais usado para concluir se uma ação está cara ou barata — quanto maior, mais cara.

No caso da Mundial, o P/L é 128. E no caso, por exemplo, da Apple de Steve Jobs, o P/L não passa de 14,4 — isso para uma empresa que praticamente dobra de tamanho a cada dois anos. No primeiro trimestre deste ano, a Mundial teve um prejuízo de 6,2 milhões de reais. O que só torna a bolha do alicate ainda mais intrigante.