2014 vai trazer mais controle do governo sobre a economia?

A grande pergunta é se as autoridades vão ampliar o controle sobre a economia ou passarão a olhar o setor privado como um potencial aliado

São Paulo – O ministro Guido Mantega não agradou a muita gente com sua afirmação de que a economia brasileira vem crescendo “manca das duas pernas”. Nos dias seguintes, colegas do ministro manifestaram — na condição de anonimato — indignação, e sua chefe, a presidente Dilma Rousseff, teria lhe cobrado explicações.

A metáfora anatômica do ministro não foi das mais felizes nem das mais politicamente corretas. Mas não há como negar que ela esconde uma verdade desconcertante para o governo. Nos últimos anos, a economia do país se arrasta mediante um considerável esforço, com o auxílio de muletas que, parece claro, não servirão para sempre.

É verdade que o mundo pós-crise de 2008 não está ajudando. Mas também é verdade que, nestes últimos anos de dureza, o Brasil não se mostrou nem um pouco disposto a ajudar os investidores internacionais a colocar parte de seu dinheiro represado por aqui.

Desde seu início, o governo da presidente Dilma deixou claro que seguiria uma doutrina baseada na preponderância do Estado na economia e na consequente submissão da iniciativa privada.

Governos podem (e devem) regular certos aspectos da vida econômica. Mas não podem obrigar investidores a colocar capital num ambiente envolto pela imprevisibilidade e que, portanto, lhes causa desconforto ou repulsa. Governos democráticos também são incapazes de fazer com que o sistema financeiro privado distribua crédito para consumidores a despeito dos riscos envolvidos.

Por algum tempo, empresários e banqueiros até podem ceder às pressões. Mas, no sistema capitalista, a estratégia da faca no pescoço tende a ser ineficaz no longo prazo.

Se a economia brasileira ficou manca das duas pernas, como disse o ministro, não foi por uma conspiração global nem por um acordo maquiavélico da banca para cortar o fluxo de crédito ao consumo.

Suas deformidades são fruto de certa compulsão pelo controle e de um peso cada vez maior colocado sobre os ombros de quem produz — como se o empresário (e estou falando de qualquer empresário, não importando seu setor ou tamanho) tivesse de purgar eternamente pelos pecados cometidos em vidas passadas.

Quem vai pagar a conta de um Estado que hoje representa 40% do produto interno bruto? O caminho mais fácil e mais demagógico, convenhamos, é cobrar dos 5% de brasileiros que acreditaram que poderiam criar e administrar pequenos, médios ou grandes negócios.

Pelo menos, nesse aspecto, a vida de um Abilio Diniz ou de um Ermírio de Moraes é muito parecida com a do dono da mercearia da esquina.

A conta vem sob a forma de mais imposto, mais autuações fiscais e trabalhistas, mais custos associados ao emprego, mais regras, mais controles (vários deles absolutamente dispensáveis e estúpidos). É uma fórmula fadada ao erro, à decepção viral, à resistência em investir e ao medo do crescimento.

Ao dizer que a economia brasileira cresce com as pernas mancas, o ministro Mantega enxergou uma verdade inconveniente.

E reforçou aquela que talvez seja a grande pergunta para 2014, um ano eleitoral: nossas autoridades econômicas vão dobrar a aposta e ampliar o controle do Estado sobre a economia ou, convencidas pelos fatos, passarão a enxergar a iniciativa privada como potencial aliada, e não como inimiga? Os últimos leilões de concessão de aeroportos e de rodovias podem ser sinal de que algo foi aprendido.

O governo tem, finalmente, sentado à mesa para pelo menos ouvir o que os empresários têm a dizer. São avanços pequenos e ainda recentes — mas são avanços. Eles terão de ser muito ampliados — com convicção e rapidez — se quisermos que a economia brasileira se livre de seus aleijões.