Para sair da lama, montadoras vão investir R$ 80 bilhões no Brasil

As montadoras devem investir, até 2022, o dobro do último ciclo buscando trazer de volta a euforia do início da década. Falta só combinar com o consumidor

Novas fábricas. Novos modelos. Mais funcionários. Terceiro turno de produção. O setor automotivo tem sido um dos mais otimistas com a provável aceleração da economia brasileira em 2019. As montadoras estabelecidas no Brasil devem investir cerca de 20 bilhões de dólares (perto de 80 bilhões de reais) até 2022, o dobro do valor investido de 2014 a 2017. O objetivo é deixar para trás de vez um atoleiro sem precedentes. Após uma queda de 46% em quatro anos, para 2,05 milhões de unidades em 2016, as vendas de carros e caminhões cresceram 9% em 2017. Neste ano, as vendas devem subir 15%; em 2019, mais 12%, segundo projeções da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Se tudo der certo, em alguns anos o setor espera voltar ao nível de 2012, quando foram vendidas 3,8 milhões de unidades. Para chegar lá, não basta tentar repetir o passado.

A escada tem mais degraus do que os (bons) números dos últimos dois anos sugerem. O aumento de vendas em 2017 e 2018 foi puxado por frotistas e empresas de aluguel de carros, as quais têm atraído, com promoções e facilidades, motoristas de aplicativos. Enquanto as vendas no varejo aumentaram 9,7% neste ano, para quase 1,5 milhão de unidades, a comercialização para frotas cresceu 24%, para 1,1 milhão de veículos. Esses números tendem a cair com o fim das promoções, à medida que as montadoras conseguem recompor suas margens. De 15% nos momentos de maior aquecimento da economia, as margens chegaram a 8% no início de 2017 e agora estão se aproximando de 10%. Para continuar subindo, é preciso aumentar as vendas para os consumi-dores, e isso depende da expansão da economia, da criação de empregos e da -oferta de crédito. Na avaliação das montadoras, a agenda do próximo governo pode ter esses efeitos.

“Estimamos um crescimento do PIB que pode chegar a 2,5%. Estamos bastante entusiasmados com essa perspectiva”, diz Antonio Filosa, presidente do grupo FCA, que fabrica os veículos das marcas Fiat, Chrysler e Jeep e é a terceira maior montadora do país, com 267.000 veículos produzidos neste ano. Em junho, o FCA anunciou investimentos entre 14 bilhões e 15 bilhões de reais na América Latina de 2018 a 2023. O gastos serão, principalmente, com o desenvolvimento de produtos. Estão previstos 25 lançamentos em seis anos, incluindo a remodelação de veículos já existentes. O pior, para a montadora, parece ter passado. O grupo instalou em Pernambuco, em 2015, uma fábrica da Jeep que opera em três turnos para produzir os modelos Renegade e Compass. O lucro antes de juros e impostos do FCA na América Latina, no terceiro trimestre, subiu 41% ante o mesmo intervalo de 2017, para 83 milhões de euros.    

Para Ricardo Jacomassi, sócio da consultoria de gestão e reestruturação corporativa TCP Latam, a empolgação das montadoras se justifica. “Devemos ter uma conjunção de fatores econômicos positivos com uma frota envelhecida. O último grande movimento de compra ocorreu há quatro anos”, diz Jacomassi. A maior dúvida nesse cenário, para a Ford, quarta maior montadora do país, com 189.000 veículos vendidos no ano, diz respeito à taxa de juro. A redução dos juros nos últimos trimestres não tem sido repassada ao consumidor: enquanto a taxa básica de juro caiu 54% de 2016 a 2018, a taxa cobrada pelos bancos no crédito para a compra de veículos recuou 14%.

“As vendas diretas para empresas têm subido porque os fabricantes precisam escoar a produção. Mas, para o consumidor, financiar um veículo ainda é caro no país, e isso afeta as vendas no varejo”, diz Rogelio Golfarb, vice-presidente de estratégia, comunicação e relações governamentais da Ford América do Sul. De 2012 a 2017, a produção de carros e veículos comerciais leves da Ford recuou 36%, para 206.000 unidades. A montadora não divulga o valor de investimentos ou o número de lançamentos previstos, mas já anunciou que vai passar a vender no Brasil em 2019 a picape Ranger Storm e o SUV Edge ST.

Um grande impulso para as montadoras virá do governo federal. É o programa Rota 2030, de incentivos para as companhias aprimorarem a eficiência e a segurança dos carros. O projeto foi sancionado como medida provisória pelo presidente Michel Temer em 11 de dezembro. O programa tem vigência de 15 anos e concede créditos de até 12,5% em tributos em troca de investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação. Também reduz a alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados a ser pago pelos compradores de carros híbridos e elétricos. O principal efeito desse conjunto de medidas é estabelecer as diretrizes que guiarão os estudos das montadoras para criar novos modelos de carros e tecnologias nos próximos anos.

“O Rota 2030 é muito bem-vindo porque dará mais previsibilidade à indústria”, diz Patrice Lucas, presidente para o Brasil e a América Latina do grupo francês PSA, que fabrica os automóveis Peugeot e Citroën. Décimo no ranking das montadoras no Brasil, com 36 700 carros vendidos até novembro, o PSA quer aumentar sua participação de mercado de cerca de 2% para 5% em 2021. O grupo não divulga estimativas de investimentos futuros, mas afirma ter gastado 580 milhões de reais de 2016 a 2018 com uma nova linha de montagem em sua fábrica de Porto Real, no Rio de Janeiro, para produzir o SUV Citroën C4 Cactus. Entre as tendências de produtos para os próximos anos, estão justamente os veículos grandes esportivos, que nasceram nos Estados Unidos e caíram no gosto dos motoristas brasileiros.

Antonio Filosa, do grupo FCA: 25 lançamentos previstos para os próximos seis anos | Germano Lüders

O primeiro novo projeto relacionado ao Rota 2030 foi divulgado em cerimônia com a participação de Temer no início de dezembro em Brasília. A montadora japonesa Toyota anunciou a produção de um veículo híbrido, alimentado por eletricidade e etanol de cana-de-açúcar, a partir de 2019. Não deu detalhes, porém, do modelo e dos investimentos envolvidos. “Essa combinação entre eletricidade e etanol é uma das tecnologias mais limpas do mundo. Começou no Brasil e está sendo estudada em outras unidades da Toyota”, diz Ricardo Bastos, diretor de assuntos governamentais da montadora. A Toyota já tinha informado em setembro que vai injetar 1 bilhão de reais em sua fábrica de Indaiatuba, no interior de São Paulo, nos próximos 12 meses. A unidade produz atualmente o Corolla, modelo mais vendido da marca no Brasil.

FCA, Ford, Volks, PSA e Toyota simbolizam a corrida em curso no setor — com a perspectiva de melhora, ninguém quer ficar para trás. A dúvida é se há espaço para todos. A frota de veículos no país cresceu 1,2% em 2017, para cerca de 43 milhões, o que dá uma média de um para cada 4,8 habitantes. Em 2007, a relação era de um para 7,3 habitantes. Ainda há espaço para o crescimento da frota no país, a tomar como exemplo as nações desenvolvidas. Nos Estados Unidos e na Europa, a relação entre número de veículos e habitantes varia de 1 a 1,4, e a taxa de crescimento da frota está entre 0,5% e 1% ao ano.

Mas a expansão tem de vir com o aumento da renda, e não com instrumentos artificiais. Um risco é o Rota 2030 se tornar uma armadilha, como aconteceu com seu predecessor, o InovarAuto, projeto de incentivo à inovação no setor automotivo que começou a funcionar em 2013, durante o governo de Dilma Rousseff, e terminou em 2017. Também tinha como meta criar condições para a fabricação de veículos mais econômicos e seguros, exigindo o aumento das atividades de pesquisa e inovação em contrapartida a créditos em impostos.

“O problema é que as montadoras seguiram investindo, mas veio a crise e a demanda não atendeu às expectativas”, diz Renato Romio, chefe da divisão de motores e veículos do centro de pesquisa do Instituto Mauá de Tecnologia. Assim, a ociosidade da indústria só fez aumentar. Em 2012, quando foram vendidos 3,8 milhões de veículos no Brasil, a capacidade ociosa do setor estava em 24%. Essa proporção atingiu o pico de 57% em 2016, quando foram vendidos 2 milhões de unidades. No momento, a capacidade total instalada está em 5 milhões de veículos, e a ociosidade, em 41%.

Se no Brasil ainda não discutimos carros autônomos e não há previsão para a oferta de modelos 100% elétricos, as últimas tendências mais triviais, como a conectividade entre carros e celulares, têm chegado aos novos modelos. De olho nessas perspectivas otimistas para o mercado brasileiro, o grupo alemão Volkswagen sonha em recuperar a liderança de vendas no país, perdida há 15 anos. “Estamos em meio a um processo de completa transformação da cultura da empresa, que se torna cada dia mais ágil, eficiente, inovadora e próxima de seus públicos.

Essa estratégia contempla a maior ofensiva da história no país, com o lançamento de 20 novos produtos até 2020, fruto de um investimento da ordem de 7 bilhões de reais”, diz Pablo Di Si, presidente da VW na América Latina. Os primeiros resultados já estão sendo alcançados. De janeiro a novembro, a Volkswagen cresceu 35% nas vendas na comparação com 2017, enquanto o setor avançou 14%. Entre os novos produtos está o T-Cross, primeiro SUV a ser produzido pela subsidiária local. Para que todos os objetivos do setor se tornem realidade, falta só combinar com o consumidor. 


PARA SAIR DO SÉCULO 20

Após uma queda profunda, o mercado de caminhões voltou a crescer: 50% em 2018. As montadoras agora apostam em tecnologia | Ana Paula Machado

Rodovia na Europa: por lá, a idade média da frota de caminhões é de seis anos; no Brasil, por sua vez, a idade média é de 17 anos | Ruddy Gold/AGB Photo

Se a crise levou as vendas de automóveis a cair pela metade, no caso dos caminhões o baque foi maior: queda de 70% entre 2011, o melhor ano, e 2016, o pior. A ociosidade das fábricas passou de 80% em 2016 e 2017. Neste ano surgiram os primeiros sinais de retomada: as vendas deverão crescer 50%, para 75.000 unidades. “Eu, que sou um otimista de plantão, não esperava uma evolução dessas”, diz Roberto Cortes, presidente da Volkswagen Caminhões e Ônibus. “O ano de 2019 será o da recuperação da rentabilidade.”

As cinco maiores montadoras de caminhões do país — Iveco, Mercedes-Benz, Scania, Volkswagen e Volvo — preveem aportes de 8 bilhões de reais de 2016 a 2022. A maior parte será aplicada no desenvolvimento de produtos que devem dar ao mercado brasileiro um salto tecnológico. O Brasil continua no século 20 em caminhões, com a frota com idade média de 17 anos, ante seis na Europa e nos Estados Unidos.

A Volkswagen Caminhões e Ônibus tem um plano de investimento de 1,5 bilhão de reais no qual prevê a abertura de uma linha de montagem para seu caminhão elétrico, o e-Delivery, desenvolvido no Brasil. Essa fábrica, em Resende, no Rio de Janeiro, deverá entrar em funcionamento em 2020 e abastecerá a América Latina. A empresa já tem contrato firmado com a cervejaria Ambev para a venda de 1.600 veículos. Dois protótipos estão em testes em São Paulo. Outra montadora que prepara a fábrica para a chegada de uma linha de caminhões mais eficientes é a Scania, que planeja investir 2,6 bilhões de reais de 2016 a 2020. A fábrica da Scania em São Bernardo do Campo, na região do ABC paulista, recebeu 75 robôs conectados. A empresa estuda trazer ao país também os veículos híbridos.

Mercedes-Benz e Volvo Latin America, por sua vez, já têm caminhões autônomos rodando em plantações de cana-de-açúcar. A Volvo estuda levar a tecnologia para a mineração. A Mercedes-Benz pretende investir 2,4 bilhões de 2018 a 2021. Philipp Schiemer, presidente da Mercedes-Benz na América Latina, afirma que o próximo ano será focado em transformar a fábrica de São Bernardo do Campo na primeira unidade no mundo dentro do conceito Indústria 4.0, em que todos os processos são conectados. “Se o Brasil for mais aberto comercialmente, facilita”, diz Schiemer.