4 milhões de investidores pagam a conta por briga pelo comando na Vale

A disputa pela presidência da empresa foi transformada numa sangrenta briga pública. E quem mais perdeu foram os mais de 4 milhões de investidores da empresa

“A confusão está feita.” A frase proferida dias atrás por um executivo de um banco com  sede em Londres e que acompanha de perto as ações da Vale resume perfeitamente a situação a que chegou o imbróglio envolvendo a substituição de Roger Agnelli, presidente da segunda maior mineradora do mundo desde 2001.

Numa campanha que se tornou pública e especialmente ruidosa nas últimas semanas, o governo brasileiro, dono de 61% da holding controladora da Vale (por meio do BNDES e de fundos de pensão, como Previ e Funcef), costurou a troca do principal executivo da companhia.

O fim da era Agnelli foi selado numa reunião entre o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e Lázaro de Mello Brandão, presidente do conselho de administração do Bradesco, maior sócio privado da Vale, com 21,3% de participação no controle. A interferência direta do governo na gestão de qualquer companhia privada já seria, por si só, um desastre do ponto de vista da governança corporativa.

No caso da Vale, maior empresa privada brasileira, com um faturamento de 46,5 bilhões de dólares em 2010, a manobra ganha contornos alarmantes. Em jogo estão o presente e o futuro de uma companhia cujo valor de mercado cresceu espantosos 1 700% nos últimos dez anos, com ações negociadas em quatro bolsas de valores — BM&F Bovespa, Nova York, Paris e Hong Kong — e que se tornou a maior exportadora brasileira, com vendas ao exterior da ordem de 24 bilhões de dólares no ano passado.

Como deixa claro a frase que inicia esta reportagem, o risco de que uma companhia desse porte se transforme num instrumento político preocupa o mercado financeiro dentro e fora do Brasil. “O ministro da Fazenda certamente não é a pessoa adequada para tratar da substituição do presidente de uma empresa privada, mesmo que o governo seja seu maior acionista”, diz o diretor de um grande banco estrangeiro com sede em Nova York.

Acionista incomum

A confusão está feita. E, como consequência, mais de 4,2 milhões de investidores da companhia assistem à perda de valor de seus investimentos. Entre eles estão 254 000 trabalhadores que colocaram parte de seu fundo de garantia em ações da mineradora. Outros 3,5 milhões são trabalhadores (ou aposentados) que têm suas contribuições previdenciárias aplicadas indiretamente na Vale por meio dos fundos de pensão dos quais são cotistas.


O restante é formado por outros investidores, muitos deles estrangeiros. De acordo com projeções do banco americano Morgan Stanley, os papéis da Vale negociados na bolsa de Nova York estão hoje depreciados em 30%. “Na nossa avaliação, a ação deveria custar 46 dólares, mas está em torno de 32”, diz Carlos de Alba, diretor executivo do Morgan Stanley, em Nova York.

“É claro que a incerteza sobre o comando da empresa não é a única razão para essa desvalorização, mas certamente é muito importante.” (Ao lado da polêmica presidencial, a dúvida em relação à duração do ciclo de alta das commodities e o impacto econômico global que os conflitos no Oriente Médio podem gerar vêm contribuindo para a queda nas cotações.)

Não é difícil entender como uma eventual politização da Vale poderia afetar o desempenho da companhia. “O acionista comum quer apenas que a empresa tenha os melhores resultados para que pague os maiores dividendos”, afirma Erasto Almeida, analista da Eurasia, consultoria americana especializada em risco político. “Mas governos têm agendas diferentes e podem perseguir, por exemplo, a criação de mais empregos e a alocação de investimentos em áreas que não são as melhores do ponto de vista do negócio da empresa.”

Durante parte de seu período à frente da Vale, Agnelli, egresso do grupo de executivos mais pro­missores do Bradesco, aproximou-se do governo e esforçou-se para lidar com seus caprichos. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva era uma figura próxima, ouvida e convidada para festas e jantares reservados.

Essa relação quase incestuosa, a confusão entre governo, Estado e acionista, talvez tenha sido um dos grandes erros de Roger Agnelli. Afinal, a que senhor ele deveria servir? A lua de mel com o governo começou a desvanecer em dezembro de 2008, quando Agnelli anunciou a demissão de 1 300 funcionários da Vale. Por causa da então recém-instalada crise econômica global, a mineradora teve canceladas várias encomendas de minério.

A atitude mais óbvia seria cortar custos e preservar a saúde financeira — e foi por ela que o presidente da Vale optou. A notícia caiu como uma bomba no Planalto. Lula ficou possesso — e fez questão de que Agnelli soubesse disso. Segundo um amigo do executivo, faltou traquejo ou, talvez, humildade a Agnelli naquele episódio.

“O maior problema foi que ele não avisou ninguém do governo antes de fazer o anúncio oficial.” Lula não esqueceu. Logo depois, o ex-presidente brasileiro repreenderia Agnelli publicamente por sua relutância em investir em siderurgia. A visão do Planalto era de que a Vale não deveria apenas exportar minério de ferro, mas produzir aço.


“O problema é que a margem do aço é menos da metade da do minério exportado, e os investimentos para construir siderúrgicas são elevadíssimos”, afirma o analista de um banco. Fora isso, boa parte das siderúrgicas opera com capacidade ociosa. Pressionado e já sentindo forte cheiro de fritura, Agnelli cedeu. Em 2009, a Vale anunciou que levaria em frente a construção das siderúrgicas do Espírito Santo e do Ceará mesmo com a desistência dos sócios — e contra sua estratégia inicial. Mas o destino de Roger já estava traçado.

Nos últimos meses, Agnelli dedicou parte de seu tempo a uma campanha para se manter no cargo. Foi ajudado sobretudo por Carla Grasso, diretora executiva de serviços compartilhados da Vale e uma das mais aguerridas defensoras do chefe. Seu primeiro passo foi tentar ganhar apoio do PT. Procurou o ex-presidente Lula, a quem convidou para acompanhá-lo numa viagem à Guiné, em fevereiro.

Encontrou-se com vários ministros do governo Dilma — Antonio Palocci, da Casa Civil; Fernando Pimentel, da Indústria e Comércio Ex­terior; Aloizio Mercadante, da Ciência e Tecnologia; e Edison Lobão, de Minas e Energia. Em busca de apoio, pediu reuniões com José Sarney, presidente do Senado, e com o ex-ministro José Dirceu.

“Parecia que ele estava em campanha, tentando de todas as formas mostrar que era parceiro do governo e deveria ser mantido na Vale”, diz um senador. As tentativas de aproximação com a base governista foram inó­cuas. Em tom de desabafo, relatado por um senador a EXAME, a presidente Dilma Rousseff teria dito recentemente: “Ele fica correndo atrás de tudo quanto é político e vem dizer que nós estamos politizando a questão?”

A gota d’água foi o vazamento do encontro entre Mantega e Brandão — segundo membros do governo, obra de Agnelli. Nas últimas semanas, Roger Agnelli, um dos executivos mais celebrados e bem pagos do Brasil, partiu em busca de apoio de políticos da oposição. Relatórios com o desempenho financeiro da Vale — com números inegavelmente brilhantes — foram distribuídos a senadores, governadores e deputados contrários ao governo.

Agonia pública

Por que um executivo desse calibre se submete a uma longa agonia pública é algo difícil de explicar. “O Roger está há dez anos na empresa. Sua sucessão deveria estar sendo discutida de forma serena”, diz o representante de um dos acionistas. Segundo pessoas próximas a Agnelli, mais que o salário e os bônus astronômicos — estima-se que sua remuneração anual seja próxima a 15 milhões de reais —, o tamanho do desafio na Vale e o poder do cargo o encantariam.


Hoje, aos 51 anos de idade, Agnelli parece grande demais para qualquer outra cadeira corporativa. “Telefonar direto para o presidente da República, falar com grandes investidores e com os presidentes das maiores empresas do planeta era sua rotina”, diz um amigo. Agnelli explica sua resistência de outra forma.

“Desde o primeiro dia que entrei aqui, percebi que seria possível transformar a Vale na melhor e maior mineradora do mundo. Ainda falta ser a maior”, disse ele durante uma entrevista concedida a EXAME no final de janeiro.

Na mesma ocasião, admitiu que sua situação na companhia era delicada e que a pressão se tornara avassaladora. “Claro que (a pressão) incomoda. Você chega em casa e a mulher te diz para largar essa droga, que você trabalha como um condenado e ainda tem de ler no jornal que pediram a tua cabeça.”

Com o iminente fim da era Roger Agnelli na Vale — em 29 de março, data do fechamento desta edição, sua saída era dada como certa, mas não havia sido oficializada —, parte das dúvidas quanto ao futuro da companhia se deposita em seu sucessor. A missão de encontrá-lo foi entregue inicialmente a Luciano Coutinho, presidente do BNDES e interlocutor de Dilma para assuntos econômicos.

O próprio Coutinho chegou a ser cotado para o cargo, mas a ideia não prosperou. O economista Tito Martins, de 47 anos, que começou a carreira na Vale há 26 anos como trainee, surgiu como favorito nos últimos dias. Martins já passou por diversas áreas da companhia — foi diretor financeiro, presidente da subsidiária MBR e preside a canadense Inco, comprada pela Vale, desde janeiro de 2009.

Logo que chegou ao Canadá, conseguiu colocar um ponto final numa greve de trabalhadores que se arrastava havia quase um ano. Fora dos quadros da Vale, um dos mais cotados era Antonio Maciel Neto, presidente da Suzano Papel e Celulose e ex-presidente da Ford no Brasil.