R$ 15 bilhões no vazio e uma briga de gigantes

A compra da Eldorado Celulose pela Paper Excellence deu início a uma guerra entre duas famílias bilionárias e ambiciosas: uma do Brasil, outra da Indonésia

avenida Faria Lima, em São Paulo, endereço preferido de bancos e empresas que querem impressionar clientes e parceiros de negócios, foi escolhida pela fabricante de celulose canadense Paper Excellence para receber sua sede brasileira. A empresa passou em agosto a ocupar ali uma laje de 1.200 metros quadrados. Num canto, um colchão e travesseiros ainda embalados devem ser instalados na sala da presidência para que o bilionário indonésio Jackson Widjaja, dono da empresa, descanse em meio às viagens entre suas residências em Singapura, Los Angeles e Nova York. O escritório está pronto para receber cerca de 140 funcionários, mas menos de dez ocupam o espaço por enquanto. E tudo indica que o escritório permanecerá vazio por um bom tempo, depois que a Paper Excellence viu ser frustrada, no início de setembro, sua tentativa de completar a aquisição do controle da fabricante de celulose Eldorado Brasil da J&F Investimentos, de Joesley e Wesley Batista.

O aluguel mensal daquele andar custa, segundo especialistas em imóveis, cerca de 160.000 reais por mês. A cifra é apenas uma parcela pequena do prejuízo da Paper Excellence com a transação, suspensa seguindo uma ordem judicial até a decisão final de uma câmara de arbitragem. A Paper Excellence é controlada pela mesma família, a Widjaja, dona do grupo indonésio Asia Pulp & Paper. Em setembro de 2017, a Paper Excellence assinou um contrato para comprar a Eldorado da J&F em etapas. Naquele momento, a holding da família Batista encontrava-se sufocada financeiramente. Após Joesley, Wesley e outros executivos importantes assinarem um acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal confessando o pagamento de propina a políticos em troca de apoio aos planos de expansão do grupo, a J&F comprometeu-se a pagar uma multa de 10,3 bilhões de reais, mas precisava se desfazer de ativos para levantar o dinheiro.

No primeiro estágio da compra, a Paper Excellence desembolsou 3,8 bilhões de reais por uma participação de 49,4% na Eldorado. Antes de colocar as mãos nos 50,6% restantes, porém, precisaria liberar as garantias de cerca de 7,5 bilhões de -reais em empréstimos da Eldorado, as quais tinham sido dadas pela J&F e in-cluíam ações do frigorífico JBS e de outros bens da holding. Foi nesse ponto que as conversas empacaram. “O rumo inesperado adia a conclusão do fechamento e o planejamento dos novos investimentos. Mas estamos otimistas com uma decisão favorável na arbitragem”, afirma um executivo próximo à Paper Excellence.

Em conversas com EXAME, executivos dos dois lados denotam a postura dos sócios que viraram adversários. O diabo, como costuma acontecer, está nos detalhes. A J&F queria que as garantias fossem substituídas por outros tipos de fiança, justificando que é isso que reza o contrato. A princípio, a Paper Excellence havia dito que contava com novas garantias a ser emitidas por instituições financeiras asiá-ticas, como o China Development Bank, só que essas cauções demoraram a aparecer. Fontes ligadas à canadense afirmam que a demora se deveu a questões burocráticas, enquanto pessoas da J&F acham que a Paper Excellence teve dificuldade em conseguir apoio por causa de um histórico controverso — o grupo APP ficou marcado por uma dívida de 14 bilhões de dólares em 2001, na esteira da crise dos Tigres Asiáticos no final da década de 90. Em junho, a companhia da família Widjaja propôs antecipar o pagamento de todos os débitos da Eldorado, em dinheiro, para não ter de providenciar novas cauções. A J&F não aceitou, por julgar que a operação — por injeção de capital ou emissão de dívida da canadense — poderia fazer o grupo Widjaja se tornar de fato o novo dono da Eldorado. O acordo de compra e venda expirou em 3 de setembro sem solução. Após alguns reveses na Justiça comum, a Paper Excellence pediu a abertura de um processo de arbitragem contra a J&F pelo direito de concluir a transação. O argumento é que os brasileiros perderam o interesse de vender a Eldorado com a melhora da situação financeira.
Joesley e Wesley Batista: pedido de dinheiro extra para vender o controle da Eldorado | Andre Borges/FolhaPress

No centro da disputa, que pode demorar até dois anos para ser resolvida, está uma fábrica bem posicionada para aproveitar um novo ciclo de aumento do consumo e dos preços da celulose. A unidade da Eldorado em Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul, tem capacidade de produzir 1,7 milhão de toneladas de celulose por ano. No segundo trimestre deste ano, sua receita subiu 39% em relação ao mesmo período de 2017, para 1,1 bilhão de reais. Os preços da matéria-prima avançaram 62% neste ano, para 1.050 dólares a tonelada. A China, com sua demanda crescente por papel, é a principal impulsionadora desse mercado. “Todo ano, o consumo mundial aumenta cerca de 1,5 milhão de toneladas, o equivalente a uma fábrica da Eldorado. Pelos nossos estudos, Mato Grosso do Sul é o melhor lugar do mundo para ter uma fábrica agora, pela abundância de madeira e de áreas de plantio, legislação favorável, estrutura logística e disponibilidade de mão de obra”, diz Marcelo Schmid, diretor para a América Latina da consultoria Forest2Market. Não há sinais de mudança nessa trajetória.

Na avaliação de quem conhece o setor florestal no Brasil, o sucesso da Eldorado, criada em 2010, deve-se à boa gestão da J&F. “A família acertou o timing de começar um negócio como esse e soube manter a companhia funcionando bem e rentável mesmo nos momentos de crise”, afirma um especialista. Os investimentos do -BNDES na construção da fábrica de Três Lagoas foram facilitados pelo pagamento de propina, segundo a delação de Joesley, e continuam sendo investigados na Operação Lava-Jato. Entre FI-FGTS, da Caixa, e BNDES, a Eldorado recebeu investimentos de 3,8 bilhões de reais. Joesley e Wesley foram soltos entre fevereiro e março deste ano, após cerca de seis meses presos. Se o grupo conseguiu superar os piores momentos é porque, na avaliação de executivos próximos, os Batista se mantêm unidos e são muito dedicados à administração das empresas. Aguinaldo Gomes Ramos Filho, sobrinho de Joesley e Wesley, preside a Eldorado desde setembro do ano passado e é descrito como um trabalhador incansável, o primeiro a chegar e o último a sair do escritório. Em agosto, os dois lados chegaram a discutir um valor para que o negócio fosse fechado imediatamente: um pagamento extra de 6 bilhões de reais, segundo EXAME revelou. Não é o tipo de oferta que costuma dobrar os indonésios.

Jackson Widjaja, presidente da Paper Excellence, é neto de Eka Widjaja, de 97 anos, empresário de origem chinesa que construiu do nada um império de 11 bilhões de dólares que hoje vai da mineração ao setor financeiro. Além do tino empreendedor, Eka é conhecido por haver tido mais de dez mulheres e 40 filhos. Para os Widjaja, é crucial estender as fronteiras de seu negócio de papel e celulose devido às mudanças nas leis ambientais da Indonésia e à pressão dos consumidores contra o desmatamento para a produção da matéria-prima. No Brasil, a celulose é feita com madeira de reflorestamento, algo que ainda não é o padrão na Indonésia. O Brasil, país com maior produtividade no cultivo de florestas para celulose do planeta, era um alvo óbvio. A Eldorado, por sua vez, era uma presa frágil, dada a dificuldade financeira dos controladores. Mas o ambicioso projeto dos Widjaja de subir no ranking dos maiores produtores de celulose do planeta se chocou, a 18.000 quilômetros da Indonésia, com os planos de outra família igualmente ambiciosa.