WebGados: revolução no pasto?

Tom Cardoso 

Filho de Marcos Molina, dono do frigorífico Marfrig, Marcos Fernando Marçal dos Santos tem apenas 20 anos, mas desde os 13 está envolvido com o mercado de compra e venda de gado. Tão difícil quanto encontrar os melhores bovinos pra as fazendas da família, era lidar com a figura do “atravessador”, uma espécie de corretor do setor, nem sempre, segundo Marçal, bem intencionado. Marçal transformou a dificuldade em negócio. Ele criou o WebGados, um aplicativo que coloca em contato compradores e vendedores de diferentes regiões do país, anulando a necessidade de intermediários. Há dois meses no ar, o app ainda tem números modestos: alcançou a marca de 6.000 downloads. São 500 animais cadastrados.

“Pense num classificados de venda de carros. Substitua os veículos por gados. É o que estou fazendo”, diz Marçal, que não abre números sobre o quanto pretende faturar no curto e médio prazos. “Só posso dizer que vou começar a explorar um mercado gigantesco, com enorme potencial”, afirma. O WebGados é o primeiro aplicativo no Brasil com esse formato,

Marçal, estudante de administração, exibe números que justificam, segundo ele, tanto otimismo. No Brasil, são 500 milhões de cabeça de gado. “Se eu conseguir, por meio do meu aplicativo, comercializar 1% desse total, terei pela frente um universo de 5 milhões cabeças de gado”, afirma. Ele não lucra com a venda, apenas com os anúncios. Para cada cabeça de gado de corte anunciada, é cobrado uma taxa de 3 reais. Para gado de leite, 50 reais. Para gado puro, 80.

Valores que ele discutiu primeiro com o pai, Marcos Molina, um dos empresários mais experientes do setor. “Ele está me dando muita força e dando os seus palpites, que, claro, são muito bem-vindos”, diz Marçal. O criador do WebGados descarta qualquer tipo de parceria com a Marfrig no futuro. “É um projeto independente, não tenho intenção de me associar a nenhum grupo, muito menos à Marfrig, que é uma empresa de capital aberto. Não tem nada a ver”, afirma.

O estudante e agora empresário pretende também levar o aplicativo para outros países da América do Sul. “Já tenho vários interessados no Uruguai e na Argentina. O negócio ganhou uma proporção que eu não esperava”, afirma. Marçal acredita que a profissão de “atravessador”, de intermediário, como já ocorreu em outros segmentos, está com os dias contados. “Eu mesmo cansei de viajar até um determinado lugar, com a promessa de encontrar um lote que não correspondia ao perfil traçado pelo corretor”. No WebGados, que está disponível para download para as plataformas iOS e Android, é possível inserir vídeos e fotos junto com informações técnicas sobre o gado.

O consultor Maurício Palma Nogueira, da Agroconsult, aprova o surgimento do Webgados, mas, ao contrário de Marçal, acha difícil que seja eliminada, mesmo a longo prazo, a figura do corretor, que também pode se beneficiar da evolução tecnológica. “Sou de uma família de produtores rurais e não gosto da palavra ‘atravessador’. Prefiro usar o termo corretor, que não é necessariamente um mal. Há muita gente especializada e fazendo um bom trabalho”, afirma Nogueira.

As mudanças trazidas pelo WebGados, em certa medida, são vistas em uma série de outros mercados. A Truckpad, por exemplo, nasceu para conectar diretamente caminhoneiros e donos de carga. No mercado de imóveis, sites como o Zap Imóveis e o Quinto Andar tentam ficar com o quinhão dos corretores na venda e no aluguel de imóveis. No limite, até mesmo os market places como da Amazon permitem que vendedores e compradores negociem diretamente de artesanato a peças de carros. É uma revolução que vai deixar muita gente pelo caminho mas que, não necessariamente, fará vencedores entre os novatos.