Volanty, que paga acima da concessionária por carro usado, recebe R$ 70 mi

Os fundos do SoftBank e da KaszeK Ventures investiram na plataforma que medeia a compra de automóveis usados e seminovos

O SoftBank, conglomerado japonês de telecomunicações e dono do maior fundo de investimentos em startups do mundo, olhou para mais uma oportunidade no mercado brasileiro: mediar a compra e venda de carros seminovos e usados.

A Volanty, um marketplace carioca criado há pouco mais de dois anos pelos empreendedores Antonio Avellar e Maurício Feldman para aproveitar o mercado de 12 milhões de carros usados e seminovos no país, anunciou um aporte série B de 70 milhões de reais.

Além do Latin America Fund, fundo de cinco bilhões de reais do SoftBank voltado para startups da América Latina, completa o investimento o fundo KaszeK Ventures, criado por ex-executivos da gigante e também marketplace Mercado Livre.

Com os recursos, a Volanty espera multiplicar ao menos dez vezes a quantidade de carros comprados/vendidos por sua plataforma na comparação anual. Em 2018, foram mais de 500 automóveis.

Como funciona?

Quem quer vender seu automóvel usado deve entrar no site, cadastrar-se e agendar uma visita em um dos centros de inspeção da Volanty. Hoje, são 11 centros de inspeção em São Paulo e três no Rio de Janeiro.

No horário marcado, a startup checa 150 pontos do automóvel em até 25 minutos, definindo o estado em que este se encontra. Se aprovado, o carro passa para um estúdio e são feitas cerca de 20 fotos – que mostram, inclusive, possíveis defeitos.

Centro de inspeção da Volanty Centro de inspeção da Volanty

Centro de inspeção da Volanty (Volanty/Divulgação)

Realizada a inspeção, a Volanty faz uso de algoritmos para analisar seu banco de dados e sugerir um preço de acordo com o mercado. Com a expansão, a Volanty foi tornando seu cardápio de automóveis mais variado e flexibilizando seus critérios. Entram na plataforma automóveis com estado razoável de conservação e lançamento a partir do ano 2000, não mais 2011. Não há mais limite de quilômetros rodados. 

“As pessoas que negávamos antes acabavam indo para as concessionários. Então ampliamos nosso atendimentos e compradores podem se basear mais na qualidade ou no preço”, diz Feldman.

Definido o valor cobrado, o dono do veículo assina contratos de propriedade, volta para casa e aguarda as propostas intermediadas pela startup. A Volanty é responsável por cadastrar o veículo em sete sites de venda (como MercadoLivre e OLX), por tirar dúvidas e selecionar quem realmente possui intenção de compra no valor definido pelo usuário.

Só após tal filtro o automóvel pode ser vendido pela internet ou chamado novamente para uma apresentação física no centro de inspeção. Toda a troca de dinheiro e de documentos é feita pela plataforma, evitando possíveis golpes. Há garantia de motor e câmbio por um ano para o comprador.

Há automóveis à venda de 15 mil reais a 470 mil reais. O valor médio de venda é de 40 mil reais. Em 2018, o campeão de compras/vendas foi o Renault Sandero.

A comissão cobrada pela Volanty é de 7% sobre o valor total da venda do carro usado. Por isso, a startup defende que não sugere um preço abaixo do mercado, como fazem a maioria das concessionárias – que querem pagar menos pelo veículo para aumentar suas margens de lucro na revenda.

Em troca, o cliente deverá esperar de uma semana a meses para ter o dinheiro na carteira, diferente de uma venda imediata na loja de automóveis usados. Assim, o valor pago nas transações entre consumidores finais pode ser de 20 a 25% maior do que a média oferecida por lojas de usados e seminovos.

A concorrente InstaCarro, por exemplo, também capta interessados em venderem seus seminovos — mas os conecta com concessionárias, e não com outras pessoas físicas. Com isso, promete a venda em até uma hora.

Investimento e estratégia

O primeiro objetivo para os novos 70 milhões de reais é ampliar a equipe da Volanty. O negócio tem 100 funcionários e espera dobrar a equipe nos próximos 12 meses. 

Algumas contratações serão em marketing, para fortalecer a marca Volanty no mercado. Outras irão para a operação, expandindo os centros de atendimento da startup para além de São Paulo e Rio de Janeiro e chegando a “outras capitais brasileiras”, segundo Feldman. Os 14 centros de inspeção deverão chegar a 30 até o final de 2019. Cada centro medeia em média 30 carros por mês, após três meses de amadurecimento.

Por fim, mais talentos serão contratados para tecnologia. A startup espera refinar seu algoritmo de precificação, calculando um preço mais preciso com ainda mais variáveis. Também investirá mais na visualização 3D dos automóveis pelo site, por meio de realidade virtual — alguns carros dentro da Volanty já permitem essa visita em três dimensões. Em terceiro lugar, a Volanty pensa em trazer tecnologias de países como China.

A Guazi, espécie de Volanty chinesa e bilionária, investe pesado em inteligência artificial. A plataforma também é investida pelo SoftBank, que realizou um aporte de 1,5 bilhão de dólares na Guazi. “Apostamos na troca de conhecimento, experiência e tecnologia com as investidas da KaszeK e do SoftBank para acelerar nossa curva de aprendizado. Esse foi o pitch que eles nos fizeram. Visitaremos a Guazi em breve, com a ponte do SoftBank”, afirma Feldman.

O cheque de 70 milhões de reais está abaixo do que o Latin America Fund costuma investir — o fundo aportou um bilhão de dólares na colombiana do delivery Rappi; 361 milhões de dólares na startup de logística Loggi; 300 milhões de dólares na plataforma de academias Gympass; e 200 milhões de dólares na fintech de crédito com garantia Creditas.

A diferença acontece porque todas as investidas anteriormente são startups de estágio avançado. O aporte na Volanty marca a primeira vez que o SoftBank faz um investimento em uma startup brasileira ainda em vias de tração. “Ter investido na gente em um série B mostra quanto acreditam na equipe, no mercado e em nós e na KaszeK como parceiros ideais”, afirma Feldman.

O movimento para séries de investimento mais iniciantes já havia sido sugerido pelo SoftBank. “Se apreciamos o empreendedor, a startup e o modelo de negócios, não temos problemas de investir cedo”, afirmou anteriormente a EXAME Marcelo Claure, líder do Latin America Fund. “Talvez participemos desde os primeiros estágios de investimento em algumas startups, levando-a até sua possível transformação em empresa pública.”

Ideia de negócio e mercado

Feldman e Avellar são amigos de infância e fizeram graduação e MBA na mesma época. Feldman fez um MBA na Universidade de Stanford e foi trabalhar na área de tecnologia, sendo diretor regional de um marketplace de ingressos chamado Viagogo. Enquanto isso, Avellar fez um MBA da Universidade de Nova York e foi trabalhar na área de projetos e operações da consultoria McKinsey.

Feldman queria abrir sua própria empresa e convidou o amigo para montar um negócio próprio. Os empreendedores se lembraram de um problema antigo: a dificuldade de venderem seus automóveis, logo antes de viajarem aos Estados Unidos e cursarem seus respectivos MBAs.

Os empreendedores passaram o ano de 2016 desenvolvendo o novo negócio e montando uma apresentação de PowerPoint. No início de 2017, um investimento semente (seed) transformou a ideia em empresa formalizada. O fundo de investimento Canary, capitaneado por empreendedores de empresas como Peixe Urbano e Printi, aportou 2,5 milhões de reais.

O empreendimento, que recebeu o nome Volanty, investiu em desenvolvimento tecnológico, time e infraestrutura e começou a funcionar em maio de 2017. Em junho do ano passado, a startup recebeu um aporte de 19 milhões de reais do Monashees, que investiu em negócios como Conta Azul, Getninjas, Grin, DogHero, Enjoei, Loggi, Neoway, Rappi e VivaReal. 

Com o investimento bem mais polpudo da KaszeK Ventures e do SoftBank, a Volanty afundará ainda mais o pé no acelerador.