Unindo bancos em um só app, CrediGO é aposta da China no Brasil

Fundada pelo brasileiro Bruno Chan, startup foi única latino-americana no braço chinês da aceleradora Y Combinator. No Brasil, meta é ultrapassar Guiabolso

Quando terminou a graduação em negócios e administração na Universidade de Tampa, na Flórida, o brasileiro Bruno Chan tomou uma decisão ousada para os idos de 2010: se mudou para a China, aos 22 anos, e sem falar uma palavra de mandarim.

Na época, a China já era a segunda maior economia do mundo, atrás dos Estados Unidos e à frente do Japão. Chan morou no país por oito anos, quando primeiro fundou uma empresa para facilitar a exportação de itens da indústria de plástico entre China e Brasil. Com a crise econômica brasileira batendo à porta, o negócio acabou, e o jovem foi então trabalhar em um fundo de venture capital, com foco em investir no estágio inicial de startups.

Sua principal tarefa no fundo era encontrar startups para investimento na América Latina. Foi aí que, após aprender como os chineses estavam revolucionando seus métodos de pagamento e tecnologia financeira, decidiu voltar ao Brasil e montar sua própria startup: uma concorrente direta do Guiabolso, com objetivo de organizar as finanças pessoais ao juntar contas de diferentes bancos em um só aplicativo.

A CrediGO, startup fundada por Chan ao lado do sócio chinês Stone Zheng — que chegou a trabalhar no braço chinês da Uber antes de a empresa americana desistir de operar na China –, nasceu em agosto do ano passado. A empresa tem hoje mais de 250.000 usuários, e o objetivo é chegar a 1 milhão de usuários nos próximos meses e fechar 2020 com mais de 3 milhões de pessoas usando a ferramenta.

Usuários da CrediGO conseguem conectar ao aplicativo suas contas em diferentes bancos e seus cartões de crédito, de modo a controlar os gastos em um mesmo app e ter uma visão completa das finanças. A cada novo gasto nas contas conectadas, o aplicativo é atualizado automaticamente. “Com a ferramenta, as pessoas não precisam abrir diferentes aplicativos a todo momento”, diz Chan.

Um pé no Brasil, outro na China

Embora o aplicativo da CrediGO tenha conexões somente com os bancos brasileiros, a startup já nasceu dividida entre os escritórios no Brasil e na China, com parte da equipe, sobretudo o braço de tecnologia, ficando sediado em Hanghzou — mesma cidade da Alibaba, dona do AliExpress e uma das maiores varejistas de comércio eletrônico do mundo.

A conexão com os chineses ajudou a CrediGO a ser a única startup com operação fora da China selecionada neste ano para a edição local do programa de aceleração americano Y Combinator. O programa chegou à China neste ano, de olho no ecossistema de startups local — nos Estados Unidos, a aceleradora já teve nomes como Dropbox e Airbnb. Além da CrediGO, outras 21 empresas foram selecionadas nesta edição.

A Y Combinator tem mais de 1.700 startups no ecossistema, e seu líder na China, o executivo Qi Lu, já passou por empresas como a americana Microsoft e o buscador chinês Baidu. O objetivo é fazer conexões entre os fundadores de startups em todo mundo. “É uma ótima oportunidade para apresentar a CrediGO para investidores de diferentes países”, diz Chan.

O fundo 01VC, onde Chan trabalhou quando estava na China, é por enquanto o principal investidor da CrediGO. A empresa não revela quanto já recebeu em aportes, mas afirma que está em conversas para novos investimentos, incluindo fora da China.

As ferramentas da CrediGO são gratuitas para o usuário. Aos que desejarem, a empresa vende um serviço de parcelamento de boletos no cartão de crédito, batizado de “Boleto Pago” — a CrediGO paga o valor da conta à vista, e o cliente paga à startup uma taxa de 12% do valor da compra.

A empresa também começou a monetizar a operação por meio de venda de serviços de marketing a instituições financeiras. Os usuários do aplicativo recebem recomendações de cartões sem anuidade ou empréstimos pessoais, e a CrediGO é paga pela instituição caso o cliente opte pelo produto.

Tudo em um só lugar

No Brasil, mais de 60 milhões de brasileiros começaram o ano inadimplentes, segundo levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC). Dentre todos os tipos de inadimplência, os brasileiros de até 39 anos, principal público da CrediGO, foram responsáveis por 38% das dívidas em outubro, segundo o SPC.

Para ajudar a diminuir esse número, além da organização dos extratos e contas bancárias, a CrediGO também planeja, para os próximos meses, inserir uma ferramenta que mostraria quanto de taxas bancárias os usuários estariam pagando, de modo a auxiliar o cliente a tomar melhores decisões. Dados do SPC de outubro mostram que metade (53%) das dívidas dos brasileiros no mês está relacionada aos bancos, como cartão de crédito atrasado ou uso do cheque especial.

Por ora, estão disponíveis na CrediGO as contas do Banco do Brasil, Bradesco, Caixa, Itaú e Santander, além dos bancos digitais Nubank e Banco Inter. A empresa diz que está trabalhando para integrar outros bancos, carteiras digitais e serviços financeiros de varejistas.

Como tem pouco mais de um ano de vida, as funcionalidades ainda vêm sendo adicionadas. O aplicativo inaugurou recentemente, por exemplo, uma ferramenta para “guardar boletos” impressos: o usuário pode fotografar um boleto impresso e o app irá capturar as informações de pagamento. Assim, mesmo que o pagamento seja efetuado dali a vários dias, não será preciso ter mais a versão impressa em mãos. Quando finalmente desejar pagar o boleto, o usuário será redirecionado ao aplicativo de seu banco.

“É uma inovação que parece pequena, mas ajuda muito no dia-dia, para evitar perder contas impressas. É esse tipo de facilidade que queremos trazer aos nossos usuários”, diz o diretor de marketing, o coreano Jae Lee.

Pagamento: metade dos brasileiros inadimplentes têm dívidas relacionadas a bancos, como atraso no cheque especial ou cartão de crédito

Pagamento: metade dos brasileiros inadimplentes têm dívidas relacionadas a bancos, como atraso no cheque especial ou cartão de crédito (Germano Lüders/EXAME)

Pelo fim da inadimplência

É esse cenário brasileiro de dívidas altas e pessoas tentando se organizar que levou ao sucesso do Guiabolso, lançado em 2012 e que tem mais de 5 milhões de usuários.

Além do menor número de pessoas, também será difícil para a CrediGO competir com a Guiabolso em lembrança do consumidor: por ser uma das mais antigas ferramentas de finanças pessoais do Brasil — tanto que a primeira ferramenta foi feita para computador, muito antes da popularização dos smartphones e de aplicativos –, o Guiabolso tem mais de 450.000 seguidores no Facebook e mais de 70.000 no Instagram.

Chan diz que a concorrência não assusta. “Em ecossistemas mais avançados de tecnologia, como a própria China, vemos que há espaço para concorrentes além do líder do mercado. É difícil brigar com o Guiabolso no Brasil, outras startups já tentaram. Mas temos um modelo capaz de ser bem-sucedido e tecnologia para fazer isso”, diz Chan.

Além da meta de aumentar exponencialmente o número de usuários em 2020, a empresa afirma que o potencial da tecnologia da CrediGO no Brasil também deve ganhar um impulso com as discussões sobre open banking, o compartilhamento de informações bancárias.

O debate vem ocorrendo no Banco Central, e os avanços devem começar a entrar em vigor no ano que vem. Empresas como CrediGO e Guiabolso, ao permitirem visualização de extratos e saldo de diferentes bancos, já atuam em um modelo de open banking próprio. Com novas regras, haveria possibilidades como fazer transferências ou pagamentos direto pelo aplicativo da CrediGO. “Estamos nos adiantando a esse futuro que será essencial para o sistema bancário no Brasil”, diz Chan.

Apesar do alto número de endividados, dados do SPC mostram que mais da metade dos inadimplentes no Brasil admitiram que dedicam pouco ou nenhum tempo a atividades de controle dos gastos e da vida financeira. Ao tentar tornar a tarefa cada dia mais fácil, a CrediGO e outras startups do setor acreditam que há espaço para crescer.