Este alemão criou a maior empresa de brinquedos sexuais da Europa

Com capital inicial de 25 euros, Dirk Bauer começou a história da Fun Factory nos anos 90

O empresário Jorge Paulo Lemann, o homem mais rico do Brasil, vem provando nas últimas três décadas que o mercado de alimentos e bebidas traz oportunidades infinitas. Todos comemos e bebemos, afinal. De certa forma, com o sexo não é diferente. Embora ainda tabu em publicações de economia e negócios, o sexo é parte cotidiana da vida das pessoas, e um mercado formidável mundo afora. Estima-se que, entre casados e solteiros, na média, as pessoas façam sexo 127 vezes por ano. Entre filmes, roupas, brinquedos, acessórios e afins, o mercado de sexo no mundo cresce 6,9% ao ano, pelas estimativas da empresa de análise Technavio. Só a indústria da pornografia fatura de 40 a 50 bilhões de dólares por ano, segundo a revista Economist.  

Nessa enorme indústria, um nicho particular tem crescido acima da média e, ainda na surdina, faz parte da rotina de cerca de 23% dos adultos do mundo: os brinquedos sexuais. São vibradores, massageadores e outros brinquedinhos que, segundo a empresa de pesquisas Statistic Brain, faturam 15,2 bilhões de dólares por ano, com perspectiva de ultrapassar os 50 bilhões na próxima década.

Se entrar num sex shop e sair com uma sacolinha colorida para pegar os filhos na escola ou ir a uma reunião de trabalho é uma situação embaraçosa, o varejo online está aí para resolver o problema. A maior varejista digital do mundo, a Amazon, tem mais de 50.000 produtos na seção de “bem-estar sexual”. De todos os produtos vendidos online, 19,2% são vibradores — um artefato que 20% dos homens e 44% das mulheres admitem ter utilizado em algum momento de suas vidas.

Este mercado não tem multinacionais bilionárias, com capital aberto em bolsa e aporte de fundos de investimento do Vale do Silício. A maior parte do dinheiro vai mesmo para empresários desconhecidos do grande público que, em muitos casos, chegam a faturar dezenas de milhões de dólares. Poucos crescem tanto quanto o alemão Dirk Bauer, que há algumas semanas esteve em São Paulo para um evento do mercado erótico. Bauer jantou com a reportagem de EXAME e, em duas horas de conversa sem trocadilhos nem piadinhas infames, contou sua história e as oportunidades deste mercado mundo afora, inclusive no Brasil.

Bauer começou a história de sua fabricante de brinquedos sexuais, a Fun Factory, nos anos 90, com capital inicial de 50 marcos alemães, o que equivalia a 25 euros na época. Hoje, sua empresa é líder no mercado europeu. Em 1995, sua então esposa abriu um sexshop para mulheres na cidade de Bremen, na Alemanha, mas muitas clientes reclamavam das opções de mal gosto ou da qualidade dos produtos, feitos com materiais baratos. Diante desse cenário, Bauer se pôs a trabalhar na cozinha de casa, junto de um amigo, Michael Pahl, para conceber um novo tipo de brinquedo sexual.

Utilizando materiais como silicone, uma matéria-prima pouco comum à época, ele construiu um brinquedo em formato de pinguim, o Paddy Pinguin. Sim, um pinguim. O silicone viraria um material importante na indústria dada sua durabilidade e facilidade de limpeza, além de não provocar reações alérgicas nem reagir com lubrificantes. O Paddy Pinguin, feito inteiramente de silicone e descrito como o “companheiro para aquelas horas de tarde da noite”, tinha uma característica estimulante em seu formato, cujo bico massageava regiões erógenas. Sim, o bico. Vendeu rápido e o faturamento foi revertido na produção de dois novos produtos. Em 2004, as vendas globais eram de 5 milhões de euros, passaram para 13,5 milhões em 2007 e a companhia espera faturar 25 milhões de euros até o final deste ano.

Hoje, a Fun Factory tem uma fábrica, ao norte de Bremen, onde produz vibradores, dildos e outros sextoys, empregando 140 funcionários. São feitos diariamente cerca de 3.000 produtos que são distribuídos em todo o mundo. Só no ano passado, a Fun Factory entregou 1,2 milhão de sextoys em vendas que vão da China aos Estados Unidos. 

Bauer conta que já foi questionado sobre sua moralidade em trabalhar com brinquedos sexuais, e encara o assunto da maneira mais natural possível. “Nós tentamos trazer performance e inovação para a vida das pessoas, para que elas consigam alcançar orgamos e bem estar sexual”, afirma.

A conversa envereda para a estratégia comercial. “Temos lojas próprias apenas na Alemanha e preferimos atuar com empresas parceiras. Para cada país é uma estratégia”, diz o empresário. Ele explica que a entrada em um novo mercado depende de como é o consumidor e a infraestrutura do país. Na China eles atuam em parceria com lojas e marcas locais; na Índia, produtos mais incisivos, vamos dizer assim, não são bem aceitos; nos Estados Unidos a demanda é tão grande que a Fun Factory tem sua própria estação de armazenamento para realizar a distribuição. 

“Nós temos operações em praticamente todos os países do mundo. No Brasil é mais difícil, porque a questão de importações é dificultada, mas já contamos com 50 lojas que comercializam nossos produtos”, afirma Clarice Och, diretora de vendas da Fun Factory. No fim, as dificuldades do empresário alemão são as mesmas de qualquer estrangeiro que tenta fazer negócios por aqui.

A empresa tem firmado parcerias locais, que vão desde lojas de produtos eróticos até médicos. O objetivo é ensinar os representantes locais e as lojas sobre os produtos, que chegam a custar 1.500 reais. A Fun Factory espera ter 125 parceiros locais até o final do ano que vem e alcançar vendas de 1 milhão de reais.

Apesar do valor, a Fun Factory é consumida de Nova York a Taipei, com vendas fortes também na Rússia, Chile, China e África. Metade do mercado está na região da Ásia do Pacífico. Em Nova York e Paris, os produtos podem ser encontrados em luxuriosas boutiques, como a Le Printemps, na capital francesa.

Pergunto a Bauer por que não baratear os custos de produção para diminuir o valor médio dos produtos e, assim, vender mais. Para ele, a estratégia não faz sentido. Embora produza brinquedos sexuais, a Fun Factory é uma empresa familiar: cresceu com o reinvestimento dos lucros, não fez empréstimos gigantescos, tampouco tem investidores de grandes fundos. Para uma empresa como a Fun Factory, nada como uma estratégia pra lá de conservadora.