Startup que troca limite no cartão por milhas recebe aporte de R$ 6 mi

A VirtusPay já concedeu 750 mil reais em parcelamentos a partir dos limites de donos de cartões de crédito. Startup cresce de 30 a 40% ao mês

Tanto a busca pela renda extra quanto o surgimento de startups de serviços financeiros, ou fintechs, crescem a passos largos. No caso da VirtusPay, a união desses dois movimentos acaba de render uma captação milionária de investimento.

A fintech, que troca o limite no cartão de crédito por milhas e concede parcelamento a quem é pouco bancarizado, opera há quase dois anos e foi criada pelos empreendedores com experiência em finanças e varejo Fabio Colella, Gustavo Câmara, Joel Amaro e Lucas Vieira.

Com novos seis milhões de reais recebidos de investidores como a família Klein, dona do grupo Via Varejo, a VirtusPay busca aumentar os parcelamentos concedidos, melhorar seu processo de análise de risco e expandir sua equipe.

Oportunidade entre crédito e milhas

A ideia para a VirtusPay surgiu de um hábito que Gustavo Câmara tinha há anos: emprestar seu cartão de crédito para a irmã, que queria fazer compras pela internet. O hábito de acumular milhas só virou ideia de negócio em 2016, após algumas pesquisas de mercado. Segundo estudos da VirtusPay junto a entidades como Banco Central e Serasa, o Brasil possui mais de 100 milhões de brasileiros com acesso restrito a crédito. Ao mesmo tempo, há 350 bilhões de reais em limites não utilizados nos cartões de crédito do país. 

Setores como o comércio eletrônico, em que metade das compras são parceladas, poderiam ganhar mais com o aumento dos usuários com capacidade de dividir o pagamento das suas compras. No último ano, o e-commerce faturou 53 bilhões de reais. “Vimos a quantidade de pessoas que chegavam à B2W não podendo comprar um eletrodoméstico online. Seja pelo medo de usar o cartão de crédito, preferir os juros conhecidos do boleto ou pela falta de limite”, afirma Vieira.

O mínimo produto viável (MVP) ficou pronto no final do ano passado e a startup começou a crescer em janeiro de 2019. Para validar a ideia de trocar limites de crédito por milhas, os empreendedores passaram por uma aceleração na Startup Farm

Depois, participaram do Programa de Aceleração da Visa, em parceria com a Kyvo. Lá, desenvolveram a estrutura jurídica necessária para oferecer os limites trocados por milhas como parcelamento para desbancarizados ou pouco bancarizados. Ao final do programa, foram selecionados para participar do programa global de inovação aberta Visa Everywhere Initiative. Por fim, a Virtus participou do BTG Pactual boostLAB, programa de potencialização para startups de alto crescimento. O objetivo da startup era fortalecer seu sistema de concessão de crédito por meio do relacionamento com players financeiros. O programa originou parcerias como a feita com a adquirente Cielo, que valida a atuação da VirtusPay junto a bancos que concedem cartões de créditos (e limites a serem aproveitados pela startup).

Como funciona a Virtus?

Quem quiser ceder seu limite deve entrar no site da Virtus e fazer um cadastro, colocando informações pessoais e sobre seus cartões — quanto limite será concedido e a data de vencimento da fatura. O mínimo de limite que pode ser ofertado na Virtus é de 500 reais, mas o máximo fica em 30 mil reais por cartão.

O limite do usuário da Virtus fica congelado e vai para um outro usuário da startup, desta vez cadastrado como interessado em parcelar compras online por meio de um boleto transformado em diversos, cada um representando uma parcela. Essa modalidade, chamada de Boleto POP, pode ser usada em e-commerces como Americanas, Carrefour, Casas Bahia, C&A e Submarino. Ao todo, são 16 empreendimentos aceitos.

A Virtus analisa bancos de dados estruturados (como os bureaus de crédito Serasa e SPC) e dados não-estruturados (como os aparelhos usados para acessar a internet) para conceder o parcelamento. A taxa que varia de acordo com o risco de crédito de cada usuário. Em média, o juro vai de 5% a 6% ao mês.

Para pagar à vista ao e-commerce as compras parceladas pelo tomador de crédito, a VirtusPay pede uma antecipação de recebíveis (receber à vista o dinheiro de uma compra que foi parcelada) junto a instituições financeiras. A diferença entre a taxa que a VirtusPay consegue com bancos e a taxa cobrada do usuário tomador do limite é a monetização da startup. O dinheiro é devolvido a quem concedeu o limite um dia antes do vencimento da fatura. Com o limite consumido, ele ganhará suas milhas extras. Em caso de inadimplência do tomador de limite, a Virtus se responsabiliza e cobre o valor usado.

Suponhamos que João quer comprar uma geladeira que custa 1.000 reais. João não tem limite para pagar à vista, mas poderia pagar em dez vezes. João fecha o pedido no e-commerce por meio da VirtusPay e pede um financiamento. Se aprovado, a Virtus pode embutir sua taxa e cobrar dez parcelas de 105 reais, por exemplo. Mas o e-commerce ainda quer receber à vista. É nesse ponto que VirtusPay busca o cliente que afirmou estar disposto a ceder um limite de 1.000 reais. A VirtusPay procura o banco do usuário que emprestou o limite e pede para antecipar o valor. Os 1.000 reais servirão para pagar o boleto à vista do e-commerce. O dinheiro de pagadores anteriores na VirtusPay reembolsará o emprestador do limite antes do vencimento de sua fatura. A startup receberá o dinheiro de João em dez meses, com juros.

A VirtusPay tem 100 mil usuários cadastrados na plataforma — oito mil donos de cartão de crédito e 92 mil buscando parcelamentos. Neste ano, a startup registrou 19 mil pedidos únicos de análise de crédito e já concedeu 750 mil reais em parcelamentos. O tíquete médio de empréstimo é de 1.000 reais, enquanto o ticket de limite concedido é de 8.000 reais.

Novo investimento e expansão das milhas por crédito

A VirtusPay obteve um aporte de 6 milhões de reais dos fundos de investimento Vox Capital, investidora de fintechs como Celcoin, e Kviv Ventures, da família Klein (da Via Varejo). 

Os recursos serão usados para expandir times de análise financeira, atendimento ao cliente, marketing e tecnologia. A VirtusPay tem 20 funcionários e busca dobrar a equipe até o final de 2020. O crédito concedido deve fechar em 2,5 milhões de reais neste ano e saltar para 30 milhões de reais em 2020.

Os recursos também servirão para resolver o maior entrave da VirtusPay atualmente: uma fila de espera de oito mil usuários buscando ceder limites. A startup tem que regular a oferta de acordo com sua demanda por crédito. Se começar a colocar muitos pedidos na plataforma, corre o risco de aumentar a inadimplência a ponto de comprometer a operação.

“Crescemos de 30 a 40% ao mês, mas com fundamento. Não vamos apenas surfar na moda das fintechs”, diz Câmara. As taxas cobradas pela VirtusPay hoje já levam em conta o acompanhamento da curva de inadimplência. Um obstáculo para combater a inadimplência é ela costumar aparecer só na hora do pagamento. Para melhorar a análise de bons e maus pagadores, a VirtusPay planeja acrescentar iniciativas de inteligência artificial à sua análise preditiva de dados atual.

Por fim, a VirtusPay também estuda incorporar o financiamento de terceiros em sua plataforma. Caso a startup não tenha informações para avaliar um candidato, repassará a outras instituições de crédito para que elas façam análises próprias. O aumento da aprovação faz subir a conversão dos comércios eletrônicos — e a aproxima a VirtusPay de chegar aos 30 milhões de reais em parcelamentos concedidos no próximo ano.

O crédito online é estabelecido em mercados como os Estados Unidos, com statrups como Affirm e Klarna, mas ainda tem obstáculos por aqui. As altas taxas nos parcelamentos e inseguranças financeiras e jurídicas assustam consumidores.

Mesmo citando tais desafios, os empreendedores da VirtusPay acreditam que o aumento do comércio eletrônico será superior. Nos próximos anos, a Virtus espera conquistar 10% do total de 350 bilhões de reais em limites não utilizados nos cartões de crédito do país, chegando a um mercado de 35 bilhões de reais.