Startup põe Coca-Cola e Bacio di Latte no Apple Business Chat e WhatsApp

A mineira Take foi criada há 20 anos e passou pela moda dos toques musicais no celular, do SMS e apostou que a próxima seria a de conteúdo multimídia

Mesmo negócios com vários anos de tradição precisam acompanhar as mudanças tecnológicas e adaptar sua forma de atuação — às vezes, matando sua própria empresa. A startup mineira Take, criada há 20 anos, tomou a atitude diversas vezes.

A provedora de soluções para celulares passou pela moda dos toques musicais, do SMS e apostou há cinco anos que a próxima tendência seria a do conteúdo multimídia. “Tivemos a visão de que aplicativos como o WhatsApp iriam se tornar o canal de comunicação entre empresas e clientes”, afirma o presidente Roberto Oliveira. Hoje, a Take ajuda empresas a se tornarem um “contato inteligente” no WhatsApp e no Apple Business Chat.

A startup mineira é provedora e gestora desses serviços de mensagem para 220 empresas. O empreendimento está na lista de As Pequenas e Médias Empresas Que Mais Crescem deste ano. O ranking, elaborado pela consultoria Deloitte em parceria com EXAME, elenca 100 companhias com receita líquida entre 10 milhões e 800 milhões de reais e em operação há pelo menos quatro anos.

A Take apresentou um crescimento médio de 18,6% entre 2016 e 2018. No último ano, o faturamento foi de 48,4 milhões de reais. Para o próximo ano, projeta dobrar seu tamanho.

 

Do ringtone ao WhatsApp e Apple Business Chat

Oliveira remonta a origem da Take a uma loja de conserto de celulares, fundada em Belo Horizonte no ano de 1997. “Acompanhamos a revolução no mercado de telefonia, que foi de estatal para privado [privatização da Telebrás, em 1998]. As operadoras precisavam oferecer assistência técnica e suporte pulverizado — e nossa loja explodiu em atendimentos”. 

Oliveira chegou a ter dez lojas de assistência técnica autorizada, com 20 mil telefones consertados por mês, e se aproximou de fabricantes como Nokia e operadoras como Telemig. A expectativa com o uso da internet nos celulares era grande. As lojas de conserto conviveram com um novo negócio de Oliveira. A Takenet, criada em 2001, era um diretório de sites mobile e uma vendedora de toques musicais. A nova empresa juntava a venda dos ringtones com a do celular 6120, da Nokia, que tinha suporte para diversos toques musicais. 

A Takenet vendia cerca de 250 mil de ringtones por dia e atraiu o interesse da japonesa de toques musicais Faith, que comprou a startup mineira em 2005. Logo, porém, os ringtones cederiam espaço ao formato MP3 e enfrentariam redução de margem pelo repasse às gravadoras. Em 2008, Oliveira decidiu recomprar a empresa por “10% do valor que havia vendido há três anos.”

“O faturamento caía, mas acreditava na equipe e na nossa cultura de sempre se transformar. Logo percebemos que havia uma oportunidade maior no SMS [serviço de mensagens instantâneas] do que nos ringtones”, diz Oliveira.

Roberto Oliveira, da Take Roberto Oliveira, da Take

Roberto Oliveira, da Take (Take/Divulgação)

A Takenet, que mudou seu nome para apenas Take, lançou uma plataforma para aplicações do SMS, como notificações. Demorou, mas o resultado apareceu. O negócio cresceu 35% ao ano entre 2010 e 2013. Mas logo sentiu novamente uma queda no ritmo, crescendo 10% em 2014.

A Take apostava que a próxima onda era a de conteúdo multimídia — espécie de SMS com fotos e vídeos — e queria desenvolver um serviço próprio. Mas percebeu que a oportunidade era maior em aplicativos já existentes, como o WhatsApp.

“Pensávamos que logo as empresas se tornariam uma espécie de ‘contato inteligente’ no WhatsApp, fornecendo atendimento e vendas por lá. Seria a união do call center com uma interface mais digital e móvel. As pessoas querem conversar com um contato de celular, não com uma corporação”, diz Oliveira. 

Em 2015, a Take criou a plataforma de construção, gestão e evolução de chatbots de atendimento, engajamento e vendas BLiP. A empresa criou mais de 35 mil chatbots para mensageiros e tem uma ferramenta para operadores de call center, chamada BLiP Desk.

No ano passado, o WhatsApp criou a solução voltada a empresários WhatsApp Business e a Take se tornou provedora. A empresa ajuda outros negócios a usarem o aplicativo para atendimento, vendas e engajamento. A Take integra o mensageiro profissional com chatbots dotados de inteligência artificial, como o Watson (IBM), e com softwares de venda, como Salesforce.

Escritório da Take Escritório da Take

Escritório da Take (Take/Divulgação)

A solução da Take é especialmente interessante nos empreendimentos de grande porte, com alto volume de mensagens. Empresas como Coca-Cola e Nextel usam o WhatsApp por meio da startup mineira. A monetização é através de tráfego na plataforma, com uma taxa de centavos cobrada por mensagem ou usuários únicos. Também vende serviços adicionais, nos quais a Take fica responsável pelo desenvolvimento do chatbot. Quanto mais profundas as conversas, melhor para a startup mineira.

Mesmo assim, as empresas menores também estão no WhatsApp. Segundo levantamento da plataforma gratuita de e-commerce Loja Integrada, 51% dos micros e pequenos lojistas virtuais usam o aplicativo como principal canal de atendimento. Cerca 61% dos lojistas virtuais usam o WhatsApp como canal de vendas e 34,1% para atendimento e dúvidas.

O WhatsApp Business levou a outros mensageiros. Recentemente, a Take se tornou provedora do Apple Business Chat, mensageiro exclusivo para celulares com o sistema operacional iOS e integrado ao meio de pagamento Apple Pay. Empresas como as sorveterias Bacio di Latte e a locadora de carros Localiza têm o mensageiro. 

O Bacio di Latte, por exemplo, reduziu seu tempo de espera em 50% nas lojas físicas usando o Apple Business Chat para otimizar as filas nas sorveterias. Os consumidores antecipam o pedido em um chatbot no iMessage, instalado em todos os iPhones. Fazem o pedido, escolhem a loja, pagam pelo Apple Pay e passam apenas para retirar o produto.

O Apple Business Chat da Bacio di Latte está operando com a loja da Avenida Paulista, em São Paulo. A expectativa é ampliar para todos os 140 pontos de venda até o final do ano. A base de WiFi das sorveterias tem mais de 75 mil pessoas cadastradas, e mais de 60% delas usam iOS. Mais de 80% do orçamento de marketing da rede é destinado ao digital, incluindo o uso de soluções da Take.

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Apenas no último mês, a Take mediou 200 milhões de mensagens de sete milhões de usuários. A startup mineira fecha de 50 a 70 novos contratos por mês e projeta chegar a um ritmo de 100 contratos por mês no curto prazo. Estimando um mercado de cinco milhões de CNPJs com mais de uma pessoa no atendimento, Oliveira afirma que o ritmo de contratos pode chegar a 1.000 por mês no ano que vem. Em 2019, o negócio espera dobrar de tamanho. Em 2020, triplicar.

A Take também planeja expandir sua solução — especialmente a criadora e gestora de chatbots BLiP — para outros países da América Latina, Estados Unidos e Europa. A equipe, hoje de 250 funcionários em Belo Horizonte e São Paulo, recebe 30 funcionários novos mensalmente. E todos continuam à espera da próxima moda nos celulares.