Potato Valley: Vale brasileiro atrai cada vez mais startups de tecnologia

EXAME apurou que mais de 20 startups já têm sede nas proximidades da Praça Largo da Batata

Localizado no coração do bairro de Pinheiros, em São Paulo, o “Potato Valley”, como é chamado por alguns empreendedores, investidores e participantes do mercado de startups da capital paulista, vem ganhando cada vez mais empresas de tecnologia e formando um microecossistema de empreendedorismo que, guardadas as devidas proporções, lembra o Vale do Silício, nos Estados Unidos. EXAME apurou que mais de 20 startups já têm sede nas proximidades da Praça Largo da Batata. Somam-se ainda os pequenos empreendedores que estão em um dos quase 20 coworkings de Pinheiros (quatro só no Largo).

A combinação de aluguéis acessíveis com infraestrutura de transporte, uma rede de bares e restaurantes e melhora da segurança pública fizeram da região próxima ao Largo da Batata (daí o nome Potato Valley) uma das mais procuradas para quem quer instalar uma startup ou se mudar para um escritório maior. O crescimento acelerado dessas empresas de tecnologia faz elas mudarem a cada um a dois anos, aproximadamente, em busca de endereços que comportem centenas de funcionários, entre desenvolvedores, profissionais especializados em marketing digital, design de produto, usabilidade de aplicativos e softwares, entre outros.

Este foi o caso do GuiaBolso, aplicativo de soluções financeiras, que acaba de se mudar de um prédio antigo na Avenida Faria Lima para a cobertura do WeWork recém-inaugurado na Rua Butantã. Os três andares onde ficam os cerca de 200 funcionários do GuiaBolso somam uma área total de 1 606 metros quadrados de escritório, terraço aberto onde os funcionários podem descansar ou trabalhar e uma área de convivência onde é feito o happy hour semanal e celebrações especiais.

O espaço é quase o dobro do antigo endereço e tudo é administrado pelo Wework, desde o café e água saborizada que ficam à disposição dos funcionários o dia todo, a limpeza, até a reposição de papéis na impressora. “Quando decidimos sair de onde estávamos, começamos a procurar algo na região. É perto do metrô, próximo do centro financeiro da cidade, e onde nossos funcionários já costumavam frequentar depois do expediente”, diz Benjamin Gleason, cofundador do GuiaBolso. O contrato do GuiaBolso é de três anos.

Benjamin Gleason, co-fundador do Guia Bolso, em WeWork na Rua Butantã Benjamin Gleason, co-fundador do Guia Bolso, em WeWork na Rua Butantã

Benjamin Gleason, co-fundador do Guia Bolso, em WeWork na Rua Butantã (Germano Lüders/EXAME)

Segundo informações exclusivas da plataforma de recrutamento digital Revelo, que atende 720 startups, o número de entrevistas com candidatos na região do Largo da Batata aumentou 208% no primeiro semestre de 2018 em relação ao mesmo período de 2017. Na primeira metade do ano passado, o crescimento havia sido de 62% na comparação com 2016. Já o número de empresas ativas, que buscaram os serviços da Revelo, cresceu 93% de janeiro a junho deste ano. No total, 49 companhias sediadas na região do Largo da Batata entrevistaram algum candidato pela plataforma. Entre os profissionais mais demandados, estão os de tecnologia, como desenvolvedores e designers de experiência do usuário em aplicativos e plataformas.

Vantagens

O nome Largo da Batata data da década de 1920, quando agricultores do interior do estado iam até o local para vender seus produtos, principalmente batata. A área, localizada entre as ruas Martim Carrasco, Fernão Dias, Teodoro Sampaio, dos Pinheiros e Avenida Faria Lima, foi totalmente revitalizada há cinco anos. Mais de 200 milhões de reais foram gastos com as obras da praça, metrô e terminal de ônibus.

De lá para cá a região ganhou mais segurança e público. O bairro ganhou aproximadamente 30 000 novos moradores de 2008 para cá. Dezenas de restaurantes foram abertos e a vida noturna se agitou. É comum ver, às quintas e sextas-feiras à noite, uma multidão de jovens reunidos nas proximidades das ruas Fernão Dias e Guaicuí, próximos à Igreja Nossa Senhora de Monte Serrate, onde vários bares foram sendo abertos ou reformados ao longo dos últimos anos para atender à crescente demanda.

“Chegamos a olhar a região da Avenida Paulista, mas a atmosfera de Pinheiros desempatou o jogo”, diz Daniel Abbud, presidente e cofundador da Beblue, startup de recompensas que acaba de lançar um cartão de crédito digital sem anuidade, e tem sua unidade de São Paulo na Rua dos Pinheiros.

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A facilidade de deslocamento também ajuda a trazer mais pessoas e empresas para a região. Além da proximidade às estações Pinheiros e Faria Lima da Linha 4–Amarela do Metrô de São Paulo e do terminal de ônibus Pinheiros, é fácil ainda encontrar transportes alternativos, como táxis, carros compartilhados e bicicletas – na Avenida Faria Lima tem ainda uma das ciclofaixas mais movimentadas da cidade.

Segundo dados do portal de classificados de imóveis ZAP levantados com exclusividade para a Revista EXAME, nos últimos 12 meses o bairro de Pinheiros foi o mais desejado para compra e locação de conjuntos comerciais, na frente do Itaim Bibi, Tatuapé, Centro, Jardim Paulista e Vila Mariana. A preferência de quem está na busca é por locação, responsável por 88% da demanda. O bairro é, contudo, o quarto da cidade em conjuntos comerciais – em agosto eram mais de 2 mil ofertas disponíveis para compra e locação em Pinheiros.

Grande parte da demanda é por escritórios de até 60 metros quadrados, ideais para empresas em estágio inicial. Com toda a estrutura e procura é de se esperar que o preço também não seja dos amigáveis, apesar de não ser difícil de encontrar imóveis 20% mais baratos do que no Itaim e Vila Olímpia. Segundo o ZAP, o preço médio do metro quadrado para locação de sala comercial em Pinheiros estava em 68 reais em julho, bem acima dos 42,9 reais da média da cidade.

Ecossistema

A chegada de mais coworkings para a região é uma prova de que o ‘Vale’ brasileiro está se desenvolvendo. O Brasil – e o Largo da Batata – ainda está bem longe dos Estados Unidos onde existem 4 050 coworkings. Em São Paulo, a cidade com maior densidade de startups do país, existem 220 coworkings, um quarto de todo o país, de acordo com o Censo Coworking Brasil. A empresa de escritórios Regus inaugurou em junho um novo coworking em Pinheiros, na esquina da Avenida Faria Lima com a Avenida Rebouças. Em dois meses já tem 54% das posições ocupadas. O próprio Spaces, outra marca do grupo, tem uma unidade próxima à estação de metrô Fradique Coutinho, também no bairro, praticamente lotada.

O WeWork da Rua Butantã inaugurou oficialmente o espaço no dia 3 de setembro e todas as salas privadas já estão comprometidas, só restando as posições individuais, que ficam nas áreas comuns e compartilhadas do coworking. O fundo de investimento Canary foi um dos que já garantiu uma sala no endereço

Guia Bolso em WeWork na Rua Butantã Guia Bolso: três andares onde ficam os cerca de 200 funcionários somam uma área total de 1 606 metros quadrados

Guia Bolso: três andares onde ficam os cerca de 200 funcionários somam uma área total de 1 606 metros quadrados (Germano Lüders/EXAME)

“Recebíamos muita demanda por uma unidade em Pinheiros, lugar onde muitos dos nossos clientes moram. Assim que conseguimos uma boa parceria imobiliária, desenvolvemos o projeto”, diz Lucas Mendes, diretor geral da WeWork no Brasil. Apesar de Mendes afirmar que a ocupação do WeWork Butantã está em linha com o de outros prédios, a empresa já estuda novos endereços nas proximidades do Largo da Batata. A expectativa é ajudar a desenvolver mais a região, impulsionar o comércio e serviços, de lotérica a manicure. A rede já tem nove coworkings em São Paulo e dois no Rio e esperava fechar o ano com 15 – outros serão abertos em São Paulo e um em Belo Horizonte (MG).  

Apesar de não cobrar tão barato (o preço varia entre 800 e 1200 reais por funcionário por mês), o WeWork, assim como outros coworkings, acabam atraindo startups que não querem se preocupar em manter um escritório e, ao mesmo tempo, buscam trabalhar em um ambiente mais moderno e com possibilidade de interagir com outros empreendedores e profissionais que circulam no ecossistema. A extensa agenda de eventos abertos, como palestras, workshops, happy hours e outros é apontada como outra vantagem por quem aluga espaços como esse. “Além de dinheiro e cultura, qualquer ecossistema empreendedor de sucesso precisa de gente junta. E o coworking ajuda a aproximar as pessoas”, diz Mendes.

A nova sede do aplicativo de transporte Cabify, na rua Eugênio de Medeiros, a 250 metros do Largo da Batata, também foi arquitetada, desenhada e equipada por um coworking, o Campus Inc. Até pouco tempo a empresa estava em outro espaço compartilhado, o do Plug, na Rua Lisboa, próximo à Praça Benedito Calixto, a menos de 2 quilômetros dos metrôs Faria Lima e Fradique Coutinho. O ambiente descontraído, os horários flexíveis, o happy hour e a união do time – não há baias separando as pessoas – são apontados por empresários como prós para se trabalhar num coworking. Mesmo quando migram para prédio ou andar próprio, como aconteceu com o Cabify, replicam o ambiente. Nos 450 metros quadrados de escritório do Cabify, os funcionários têm à disposição pebolim, videogame, sofá e mesas. A conveniência de serviços também é um ponto a favor. Alguns coworkings, como o Plug, têm chuveiros para quem chega de bicicleta, manicure, café à vontade e chop grátis no período de happy hour, o que não pode faltar na vida social de boa parte dos empreendedores. A empresa também usa um espaço de apoio para atender os motoristas em outro prédio da região, no Edifício Birmann 21, ao lado da estação Pinheiros do metrô e ônibus, às margens da Marginal Pinheiros.

A combinação preço, comodidade, ambiente, localização e proximidade com startups e outros agentes do meio é decisiva para muitas empresas se mudarem para espaços compartilhados. Mas há também quem prefira que o escritório seja uma casa e na região do Largo da Batata há muitas opções de imóveis vagos. Depois de ficar um ano instalada no coworking Ahoy! Berlin, em Alto de Pinheiros, a equipe da Singu, empresa que oferece um aplicativo de serviços de beleza, está desde 2017 em uma casa na Rua Amaro Cavalheiro, na região do Largo. “Eu prefiro casa porque tem mais o clima Silicon Valley e enquanto pudermos ficar em casa, vamos ficar”, diz Tallis Gomes, fundador da Singu e ex-Easy Taxi.

Ainda que o Potato Valley seja um micro Vale do Silício, é fato que o ecossistema empreendedor está crescendo na região. Diversas áreas de São Paulo já foram cotadas para receber o posto de polo tecnológico da capital, como o antigo Ceagesp, onde se concentravam produtores agrícolas, e o centro velho, mas, ao que parece, os próprios empreendedores estão escolhendo seu Silicon Valley.

Comentários

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  1. Fernando Jardim

    Forçaram a barra total. Em São Paulo já existe uma comunidade de Startups, chamada ZeroOnze Startups, reconhecida inclusive pela ABStartups, por todos fundadores de startups, aceleradoras, e por outros ecossistemas.