Pós-Notre-Dame: o dilema das startups de combate a incêndios

Tragédia de Notre-Dame pode reaquecer setor que usa de drones a internet das coisas. Quem paga a conta é uma das grandes questões em aberto

Sete meses depois de o Brasil assistir inerte à destruição do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, a França viu queimar, nesta segunda-feira, a Catedral de Notre-Dame, em Paris. O edifício começou a ser construído em 1163, ficou pronto quase 200 anos depois e passou por inúmeras restaurações ao longo da história. Uma das restaurações, em curso, pode ter sido a causa do início das chamas que levaram à tragédia.

Durante as mais de cinco horas em que as chamas devoraram o prédio, uma leva de dúvidas sobre a tecnologia empregada no combate ao fogo pipocaram nas redes sociais. O presidente americano, chegou a tuitar que “talvez voar com tanques de água poderia ajudar a apagar o fogo”. A Defesa Civil francesa, por sua vez, informou que despejar águar por aeronaves poderia levar ao colapso integral da estrutura.

O presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou pouco depois das 18h30 de Brasília que a fachada da catedral não vai desabar, e que Notre-Dame será reconstruída. As mais de 500 toneladas de madeira usadas na estrutura do telhado aceleraram a propagação das chamas, tornando o combate extremamente difícil.

Notre-Dame era um símbolo da arquitetura gótica, o que explica o cuidado das autoridades no combate ao incêndio. Vários fatores jogaram contra a empreitada, a começar pelo fato de a catedral ficar numa ilha, o que dificulta o acesso e também um ângulo adequado de lançamento dos jatos de água.

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O combate a incêndio é feito mais ou menos da mesma forma há 20 séculos, desde que os imperadores romanos criaram grupos de combate ao fogo que usavam baldes e mangueiras. Curiosamente, um dos maiores imperadores tidos como precursores foi Nero, que acabaria entrando para a história por atear fogo a Roma. Na era moderna, incêndios históricos como o de 1666, em Londres, ajudaram a pavimentar os corpos de bombeiro modernos. Ainda assim, grandes incêndios entraram para a história em cidades como Lisboa (1755), Hamburgo (1842) e Chicago (1871).

Grupos de combate mais eficientes e técnicas de construção mais modernas reduziram o impacto das tragédias no século 20, mas inovações nesta seara dependem de uma equação de difícil solução. Startups e empresas inovadoras se pautam por ideias de impacto econômico. Uma técnica inovadora de combate a incêndios teria impacto social incalculável, mas quem a financiaria? “Uma startup inovadora sem modelo comercial não iria para frente. E mesmo uma ONG precisaria de gerar lucro, ou ter uma linha de crédito ou fonte de recursos específicos para fins sociais”, diz In Hsieh, fundador da Chinnovation, empresa focada na integração comercial entre Brasil e China.

Ainda assim, algumas boas ideias vêm sendo implementadas nos últimos anos. Nos Estados Unidos, o Serviço Florestal usa satélites que tentam antecipar o início de incêndios com base nas condições climáticas e de solo. Drones podem sobrevoar florestas e parques com histórico de incêndio para monitorar as áreas mais vulneráveis e, após o início dos incêndios, prever a direção das chamas. O governo do Canadá usa 178 pequenos satélites para monitorar em tempo real os 857 milhões de acres de florestas do país.

O sistema foi desenvolvido pela Planet, uma startup de São Francisco fundada por ex-engenheiros da Nasa. Outra startup canadense, a Tanka, usa imagens de satélite para detectar em até 15 minutos. A startup afirma conseguir processar enormes capacidades de dados com ajuda de inteligência artificial para conseguir agir rápido em solo. Em entrevista à revista americana Wired, o presidente da companhia, Nikola Obrknezev, afirmou estar em negociações com governos de países como Estados Unidos, Austrália e Chile.

O problema de quem paga a conta leva um grupo de startups a focar proprietários de residências e complexos empresariais. A californiana Whisker Labs, por exemplo, previne incêndios de pequena escala, em apartamentos e casas, por meio de equipamentos dotados de internet das coisas (IoT), monitorando sinais remotamente. A startup foi criada há cinco no Laboratório Nacional de Lawrence Berkeley, do Nobel de Física Ernest Lawrence.

Seu principal produto é o Ting, um equipamento que monitora sistemas elétricos e avisa os donos das residências sobre possíveis incêndios com base em faíscas e mudanças de voltagem. O Ting não precisa de instalação elétrica, bastando ser plugado em uma saída elétrica e pareado por meio de um aplicativo móvel a algum aparelho dotado de sinal bluetooth ou wi-fi, como um smartphone. A Whisker Labs foi comprada pela empresa americana de energia Earth Networks em 2017.

Outros negócios inovadores também apostam na internet das coisas, mas para a prevenção de incêndios em propriedades maiores. A finlandesa Quanturi Oy já recebeu 1,5 milhão de dólares em investimentos para desenvolver equipamentos de análise de dados. Entre eles está a Haytech, uma solução para antecipar o fogo em fazendas — especialmente em lotes de feno. Sondas em forma de pinos, conectadas à internet, são colocadas nos fenos para acompanhar a temperatura. Os graus podem ser acessados virtualmente e o dono da fazenda receberá alertas quando a temperatura estiver acima do recomendado. A Haytech afirma que sua solução também serve para terra, madeira triturada e lixo em aterros sanitários.

Ideias mais extremas envolvem até o isolamento de grandes áreas para cortar o oxigênio, o que também pode ser conseguido com a pequenas (ou grandes) explosões controladas. Fazer dessas ideias viáveis ainda vai um longo caminho. Descobrir quem paga por elas, também. Mesmo os visionários estão mais interessados em conquistar Marte do que em evitar destruições como a vista em Notre-Dame.