5 empresas emergentes por uma sociedade mais justa

Conheça cinco empresas cujos negócios estão ajudando a diminuir a desigualdade social no Brasil

No Brasil, a inclusão social já foi um problema maior. Hoje, há mais crianças e adolescentes deficientes matriculados na escola, e um número crescente de brasileiros, mesmo em comunidades de baixa renda, tem acesso a computador.

De 2005 a 2011, dobrou o número de pessoas conectadas à internet. A expectativa de vida e a renda dos idosos também vêm aumentando. Em 2012, os rendimentos da população com 60 anos ou mais somaram 402 bilhões de reais, o dobro de dez anos atrás.

Mas as desigualdades no país ainda são uma grande barreira a ser retirada. As mulheres ganham, em média, 27% menos do que os homens e 68% delas se queixam de maus-tratos, dentro e fora de casa.

Poucas são as escolas que oferecem uma estrutura adequada a deficientes físicos e metade da população não tem acesso à internet. grupos discriminados, como deficientes físicos, mulheres de baixa renda e pessoas que estão inadimplentes, os empreendedores brasileiros têm colaborado para a construção de uma sociedade mais equilibrada.

Na oitava reportagem da série Sou Empreendedor — Meu Sonho Move o Brasil, Exame PME traz histórias de cinco negócios emergentes que estão melhorando a vida de muita gente.

A The Products, de Belo Horizonte, fabrica carteiras escolares e outros móveis para crianças com algum tipo de deficiência. A agência de turismo Pomptur, de São Paulo, organiza excursões específicas, no Brasil e no exterior, para quem tem mais de 60 anos. A programação dessas viagens, com bailes e aulas de ginástica, colabora para a socialização dos idosos. 

No Rio de Janeiro, a Quitei ajuda a negociar dívidas de pessoas físicas, em geral pertencentes às classes menos favorecidas, e ensina educação fnanceira. Em Curitiba, o Solidarium, comércio eletrônico de artesanato, procura mulheres com habilidades manuais em bairros pobres de várias cidades para qualificá-las e mostrar o passo a passo das vendas pela internet.


A Descarte Correto, de Manaus, empresa de reciclagem de equipamentos eletrônicos, como notebooks, aproveita peças em bom estado para montar computadores, usados com uma finalidade especial. Os aparelhos são destinados a escolas de informática gratuitas para crianças e adolescentes mantidas pela empresa em comunidades de baixa renda de Manaus e de outras cidades do Amazonas.

Conheça suas histórias.

Novos amigos e baladas

Durante grande parte de sua vida, a cientista Elza Manzan, de 70 anos, teve um dia a dia agitado. Ela passava pelo menos 8 horas diárias fazendo pesquisas sobre radiação na Universidade de São Paulo, onde trabalhava. Nos fins de semana, saía com o marido, José Barbosa, que era dono de um bufê em São Paulo, para visitar amigos e parentes.

Em 1995, o cotidiano de Elza mudou. Em menos de um ano, ficou viúva e se aposentou. Sem flhos, Elza fcava em casa fazendo crochê até que, num sábado de manhã, dez anos atrás, viu no jornal um anúncio de pacotes de viagem para idosos.”Liguei na hora”, diz Elza. “Vi que ali estava minha oportunidade de ser feliz e ter amigos.”

Desde então, ela viaja pelo menos três vezes por ano para lugares como Poços de Caldas, em Minas Gerais, e capitais do Nordeste. No começo, ia sozinha. Com o tempo, acabou fazendo amizade com companheiras de viagem, e hoje tem um grupo grande de amigas. “Agora vou sempre em bailes e restaurantes com minha turma”, afirma Elza.

O anúncio do jornal era da Pomptur, agência de turismo de São Paulo que vem se dedicando a montar excursões para idosos. Criada há 30 anos, na última década a empresa começou a investir mais nesse público.

“Os idosos começaram a ligar mais para cá procurando pacotes”, diz o empreendedor Everaldo Figueiredo, de 60 anos, dono da Pomptur. “O aumento da renda e da expectativa de vida faz com que mais gente de idade queira viajar e se socializar.”

Para agradar mais a essa clientela, em 2006 a agência começou a criar excursões exclusivas para locais como Poços de Caldas e Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. Até então, a empresa não fazia viagens específicas para esse público — quem quisesse viajar tinha de se
encaixar em algum grupo comum.


Hoje, a agência tem um departamento, chamado Suavidade, para servir só os mais velhos. Os atendentes são orientados a falar pausadamente ao telefone e a repetir as informações quantas vezes for necessário. “Gastamos quase o dobro de tempo nesse tipo de serviço, mas os ganhos são enormes”, afirma Figueiredo.

Hoje, o público com mais de 60 anos representa 60% do faturamento da empresa, que em 2012 foi de 38 milhões de reais. Nos últimos anos, o crescimento econômico do país e a melhoria das condições de saneamento básico e dos tratamentos de saúde têm contribuído para o aumento da expectativa de vida da população. 

De acordo com dados do IBGE, de 1980 a 2010, o brasileiro passou a viver 11 anos a mais, em média. Em 2020, mais de 13% da população do país deverá ser de pessoas com 60 anos ou mais. Atualmente, elas representam 10% dos cerca de 200 milhões de brasileiros. Os rendimentos dos idosos também têm crescido. Hoje, somam cerca de 402 bilhões de reais por ano, o dobro de dez anos atrás. 

“Para atender bem esse público, é preciso tomar cuidados especiais”, afirma Figueiredo. Antes de organizar uma nova viagem, funcionários da Pomptur visitam os hotéis para checar, por exemplo, se o piso dos banheiros é antiderrapante e se há um salão de festas bem grande.

“Os mais velhos adoram festas dançantes, então sempre incluímos isso na programação”, diz Figueiredo. Outra preocupação é verificar se há bons hospitais nas redondezas. Além disso, a agência faz um acerto com o hotel para sempre deixar um médico de plantão no local. Em geral vão mais de 1.000 pessoas numa viagem, o que ajuda a diluir os custos extras.

Para se certifcar de que tudo correrá bem, em geral o próprio Figueiredo participa do passeio. São realizadas pelo menos três excursões por ano somente  ara idosos, para destinos no Brasil, como resorts do Nordeste e estâncias hidrominerais, e no exterior, como Portugal.

A empresa reserva os hotéis com exclusividade para os grupos e monta uma programação especial. Os passeios são mais demorados do que de costume e todos estão de volta ao hotel antes das 5, para dar tempo de descansar antes do jantar. Bailes e atividades em grupo, como aulas de dança, tai chi chuan e hidroginástica, também fazem parte do pacote. “É muito divertido”, diz Elza.

A maioria da clientela mais velha da Pomptur é formada por aposentadas viúvas na faixa dos 70 anos, como Elza, que querem conhecer lugares novos e fazer amizade.


“Muitos aposentados têm algum trabalho que representa uma fonte extra de rendimento e querem participar da vida social”, diz Renato Meirelles, presidente do Instituto Data Popular, que pesquisa os hábitos de consumo e renda dessa faixa etária. “Os idosos são receptivos a programas divertidos, desde que estejam de acordo com as necessidades deles.”

Ajuda para o inadimplente ficar em dia

O negócio do economista carioca Charles Duek, de 43 anos, é ganhar dinheiro renegociando as dívidas dos outros. Duek é dono do site Quitei, que ajuda pessoas físicas a quitar seus débitos e ficar em dia com as contas. A receita da empresa, que neste ano deve ser de 4 milhões de reais, vem de uma porcentagem cobrada das instituições com as quais tem parceria, como bancos e fnanceiras, por cada dívida negociada.

São renegociados cerca de 14.000 débitos por mês pelo site. Duek fundou a empresa em 2012, no Rio de Janeiro, com três amigos — os especialistas em tecnologia da informação Rodrigo Labanca, de 30 anos, e Romario Melo, de 26, e o profissional de marketing Marcelo Melo, de 32.

A ideia de abrir o Quitei foi de Duek, que há 25 anos é sócio de uma empresa de cobrança, a Lyvey. “A maioria das pessoas se endivida por falta de conhecimentos básicos de finanças, e com o crédito fácil o problema tem se agravado”, afirma. “Percebi que havia espaço para um negócio que não se limitasse a cobrar, mas também ensinasse a usar bem o dinheiro.”

Os sócios criaram sofwares que cruzam os dados financeiros dos devedores, como despesas mensais e o valor da dívida, com as propostas de pagamento feitas pelos credores. Para que o cliente não se esqueça das datas de pagamento, o Quitei envia lembretes por e-mail.

O site também mostra quais despesas podem ser cortadas para que seja possível enfrentar a dívida, em geral parcelada. A expansão do crédito, que praticamente dobrou em cinco anos, de 2005 a 2010, segundo o Banco Central, e o aumento do consumo — as vendas no varejo subiram 8,4% em 2012 em relação a 2011 — vêm provocando um maior endividamento da população.

Apenas no primeiro semestre deste ano, a inadimplência do consumidor cresceu 5,3% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo a Serasa. Dívidas com cartão de crédito responderam por boa parte desse aumento.


“É muito importante que existam empresas que ajudem os brasileiros a aprender a planejar gastos e a poupar”, afirma Nelo Brizola, coordenador da consultoria Artemisia, que ajuda empreendedores a alavancar negócios sociais.

Uma das clientes do Quitei é a assistente administrativa Alessandra Serafn, de 39 anos. Em 2009, seu pai, funcionário público aposentado, sofreu um AVC. Ele precisou de remédios caros e cuidados especiais, como sessões de fsioterapia. Alessandra, que mora com os pais e uma irmã mais nova em São Paulo, assumiu as finanças da família.

Inexperiente com contas, ela fez uma dívida de 10.000 reais no cartão de crédito com a bandeira de um grande supermercado. “Uma hora resolvi procurar ajuda”, diz.

Em 2012, ela viu uma reportagem na televisão sobre o Quitei e se cadastrou no site. Logo recebeu uma proposta do supermercado, para pagar a dívida em várias parcelas, que estão sendo quitadas. Alessandra reduziu gastos e começou a fazer uma planilha financeira. Há pouco tempo, conseguiu abrir uma poupança. “Aprendi a controlar os gastos”, diz. 

Artesãs que vendem pela internet

Faz parte da rotina do administrador paranaense Tiago Dalvi, de 27 anos, visitar bairros pobres de capitais como Curitiba, Rio de Janeiro e Recife. Seu objetivo é conhecer as moradoras e descobrir se fazem trabalhos manuais. Dalvi é dono do Solidarium, site de venda de artesanato que neste ano deve  faturar 1 milhão de reais, o dobro de 2012.

Para contar com uma variedade maior de produtos, uma vez por mês ele sai em busca de novas artesãs — muitas pertencem às classes menos favorecidas. Ele também procura ajudá-las para que cadastrem seus produtos no Solidarium — a empresa cobra uma comissão de 15% sobre as transações. 

De tempos em tempos, Dalvi envia designers para fazer workshops com as artesãs, e vídeos no blog da empresa ensinam a precificar os itens. “Elas não têm experiência com vendas online, por isso é importante dar essas orientações”, diz Dalvi.


A ideia de criar o site da Solidarium surgiu em 2009, quando Dalvi cursava faculdade de administração de empresas em Curitiba. Alguns colegas dele trabalhavam em uma organização não governamental que fornece pequenos empréstimos a empreendedores de baixa renda.

Dalvi foi convidado a fazer parte do grupo. “Conheci muitos artesãos que frequentavam a ONG”, diz. Ele notou que a maioria era de mulheres na faixa dos 40 anos, com flhos e das classes C e D. Muitas dependiam fnanceiramente do marido e queriam aumentar seus rendimentos. 

“Como artigos feitos à mão estão em alta, achei que qualificar essas pessoas e vender o que elas produziam poderia ser interessante”, afrma. “Esse trabalho está trazendo mais dignidade e confiança para muitas mulheres.”

No Brasil, em geral as mulheres ganham 27% menos do que os homens, segundo dados do IBGE. De acordo com o Índice do Progresso Social, criado pelo Social Progress Imperative, grupo formado por especialistas para medir melhorias sociais no mundo, 68% das brasileiras não se sentem tratadas com respeito.

A violência doméstica é outro desafio a ser vencido. Uma pesquisa do Instituto Data Popular realizada neste ano mostra que metade da população brasileira, ou cerca de 100 milhões de pessoas, conhece pelo menos uma mulher que já sofreu algum tipo de agressão física.

“Negócios sociais como o Solidarium ajudam as brasileiras a ter independência financeira e a transmitir valores de autonomia para as gerações seguintes”, diz Meirelles, do Data Popular. “É o melhor jeito de acabar com o ciclo de maus-tratos contra a mulher.”

Em Apiaí, pequena cidade do interior de São Paulo, as mulheres de baixa renda em geral capinavam com enxada nas roças de tomate, que cresce com facilidade na região, ganhando no máximo um salário mínimo por mês. Era o caso da família da artesã Josenorma de Lima, de 18 anos.


“Minha mãe, Lourdes, durante anos queimou debaixo do sol nas plantações e eu não queria essa vida sofrida para mim”, diz Josenorma. Enquanto ainda trabalhava na lavoura, há dez anos, Lourdes decidiu chamar algumas amigas que faziam trabalhos manuais em argila, prática tradicional da região, para criar um grupo de artesanato. 

Elas começaram a fazer, nos fins de semana, vasos de cerâmica e utensílios de cozinha, como panelas e travessas. Josenorma acompanhava a mãe nesses encontros e se interessou pela atividade. “Adorei aprender a técnica”, diz.

As artesãs começaram a expor seus trabalhos em algumas feiras de artesanato, principalmente em São Paulo e no interior do estado. “A Solidarium conheceu nosso trabalho num desses eventos e passamos a vender pelo site”, diz Josenorma. Hoje, ela ganha cerca de 800 reais por mês com a venda dos produtos.

Esse dinheiro é suficiente para pagar seu curso técnico, e ainda sobra um pouco. “Pode não parecer muito para quem não é daqui, mas para nós é a diferença entre ter uma vida digna e se acabar de tanto trabalhar na roça”, afirma.

Programa de índio conectado

Há muito tempo, os índios da tribo Sateré-Mauwe, da Amazônia, plantam e vendem guaraná, fruta nativa da região, para mercados de cidades nas imediações, como Barreirinhas, no Maranhão, e Maués, no Amazonas. Eles também produzem farinha de mandioca.

É com a venda desses itens que algumas famílias conseguem mandar os flhos para a escola em Maués, onde hoje existe uma república de estudantes só para indígenas. Romeu Sari, de 24 anos, é um dos moradores da casa. Ele foi para Maués aos 14 anos, para cursar o ensino médio, e hoje faz faculdade de tecnologia da pesca.

Os primeiros anos em Maués, no entanto, não foram fáceis para Sari. Ele levou um susto quando viu um computador pela primeira vez, numa escola gratuita de Maués que ensina crianças e adolescentes a usar o equipamento. “Não tinha ideia de como funcionava aquilo, mas aprendi”, diz.


O computador usado por Sari foi feito de componentes reciclados pela empresa Descarte Correto, de Manaus. O negócio foi criado pelo empreendedor amazonense Alessandro Dinelli, de 39 anos, há três anos. Dinelli recolhe equipamentos antigos que seriam jogados fora por empresas e escritórios e os desmonta para vender os componentes, como plástico e ferro, para indústrias, como a Gerdau. 

Uma parte é aproveitada para montar novos computadores. Os equipamentos são enviados para as escolas de informática gratuitas que Dinelli criou. “Eles vão para bairros pobres de Manaus, Maués e outras cidades do Amazonas”, diz ele. Os próprios habitantes se encarregam de conseguir os professores, em geral amigos e parentes.

As escolas funcionam em espaços comunitários, como igrejas e sedes de associações de moradores. Em contrapartida ao empréstimo dos computadores e ao programa das aulas, Dinelli pede que os moradores doem equipamentos velhos ou quebrados, como celulares e computadores, em pontos de coleta que são instalados no local. “Sempre conseguimos alguma coisa”, diz.

Apesar de cada vez mais brasileiros terem acesso à internet, o país ainda está atrasado nesse aspecto. No ranking mundial de conectividade, o Brasil ocupa o 63o lugar, atrás de países como Singapura e Coreia do Sul.

“Para quem vive distante das cidades, a falta de familiaridade com o mundo digital é ainda maior”, diz Leonardo Letelier, criador do fundo Stawi, que investe em negócios sociais. “O país precisa muito de iniciativas como a de Dinelli”, afirma.

Antes de criar a Descarte Correto, Dinelli foi representante comercial de um fabricante de softwares. Para entender melhor o funcionamento do produto e aumentar as vendas, ele fez cursos técnicos de informática. Em um deles, aprendeu a montar e desmontar computadores.

Em 2010, quando foi promulgada a lei da Política Nacional de Resíduos Sólidos, que obriga as empresas a doar ou reciclar equipamentos eletrônicos usados ou com defeito, o empreendedor enxergou uma oportunidade de negócio na reciclagem de lixo eletrônico. “Já sabia reciclar computadores e não demorei muito até criar o negócio”, diz.


Para divulgar a Descarte Correto, Dinelli fez parceria com lojas de produtos de informática de Manaus que atendem o mercado corporativo. Nesses pontos comerciais, são colocados banners da Descarte Correto e é feita a distribuição de panfetos. Além disso, a cada três meses ele percorre as ruas de Manaus a bordo de um carro de som para fazer propaganda. 

“A cidade não é tão grande, por isso esse tipo de coisa ainda funciona bem”, diz. Hoje, grandes empresas, como Nokia e Samsung,
que possuem fábricas na Zona Franca de Manaus, contratam a Descarte Correto para se desfazer de equipamentos velhos.

“Um negócio de cunho social como a Descarte Correto pode ser replicado em outras regiões do país e ainda cumpre muito bem o papel de proporcionar inclusão digital para a população mais pobre, que em geral não tem acesso a computadores”, diz Letelier, do Stawi. 

Móveis adaptados a deficientes

O consultor Carlos Sant’anna, de 46 anos, perdeu a conta de quantas escolas visitou em Belo Horizonte, onde mora, no ano passado. Seu flho, Marcelo, de 6 anos, tem deficiência física e nunca havia frequentado a escola. “Sabia que seria difícil encontrar um colégio adaptado, mas já estava na hora de ele estudar”, diz Sant’anna.

Marcelo nasceu prematuro, teve uma parada cardiorrespiratória na UTI e ficou alguns minutos sem oxigenação no cérebro, o que afetou
os movimentos das pernas e a coordenação motora. Hoje, o garoto estuda em um colégio que tem carteiras escolares especiais para deficientes físicos. “Ele não conseguiria manter o equilíbrio numa cadeira comum”, diz Sant’anna.

As estruturas do móvel, como o tampo e o pé da mesa, são reguláveis e acomodam vários tamanhos de cadeiras de rodas. A carteira que Marcelo usa é fabricada pela The Products, de Belo Horizonte, especializada na produção de móveis para crianças com deficiência.


A empresa, que deve faturar 800.000 reais neste ano, foi criada em 2011 pelo contador mineiro Victor Renault, de 49 anos, e sua mulher, a designer Erika Foureuax, de 40. Uma das três filhas do casal, Sophia, hoje com 18 anos, teve paralisia cerebral na infância e precisa do auxílio de um andador ou de cadeira de rodas para se locomover, o que motivou o casal a criar produtos para crianças com deficiência.

“Fizemos móveis para ela porque não encontramos o que queríamos”, diz Renault. Um dos carros-chefe da The Products é uma cadeirinha projetada por Erika, de plástico flexível e sem pés, que oferece liberdade de movimentos para a criança. Com ela, é possível brincar sentado no chão, o que facilita a socialização com outras crianças. 

Neste ano, o produto foi vendido para escolas públicas de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, Campinas, no interior do estado, e Belo Horizonte. A empresa também fechou vendas de carteiras escolares para colégios de Belo Horizonte e sedes da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Minas Gerais e Pernambuco. 

Segundo o IBGE, cerca de 1,8 milhão de crianças e adolescentes no país têm alguma deficiência física. Desses, menos da metade frequenta regularmente a escola. “Muitos não conseguem brincar de igual para igual com outras crianças e não se sentem à vontade na sala de aula, por falta de uma estrutura adequada”, diz Renault. “Algumas famílias tiram o flho da escola. Queremos ajudar a resolver esse problema.”