Pé no acelerador e no freio: o balanço da Yellow em São Paulo

Empresa de bicicletas e patinetes elétricas está há um ano na capital paulista. São 1,5 milhão de usuários das patinetes elétricas Grin e Yellow na cidade

A startup de micromobilidade urbana Yellow atua há doze meses na cidade de São Paulo. Primeiro com bicicletas e depois com patinetes elétricas, o empreendimento expandiu a ponto de ser parte de uma holding que atende mais de um milhão de usuários com milhares de equipamentos de locomoção individual. A jornada não aconteceu sem obstáculos que quase interromperam sua atuação na capital paulista, porém. E a busca pela lucratividade continua.

A startup compartilhou alguns dados exclusivos a EXAME. Neste primeiro ano de atuação da Yellow na cidade, 6,9 milhões de quilômetros foram percorridos — o equivalente a 170 voltas no planeta. Se tal distância fosse anteriormente percorrida por meio de carros, seriam mais 1,37 mil toneladas de gás carbônico emitidas no ambiente. A economia equivale a uma floresta de 2,74 quilômetros quadrados sequestrando carbono da atmosfera durante um ano. É quase o dobro da área do Parque do Ibirapuera, também na cidade de São Paulo.

A Yellow foi criada em junho de 2017 por Ariel Lambrecht, Eduardo Musa e Renato Freitas. Lambrecht e Freitas co-fundaram o aplicativo e unicórnio brasileiro 99, enquanto Musa já foi presidente da fabricante de bikes Caloi.

No começo de 2019, a Yellow se uniu à mexicana Grin, de patinetes elétricas. A holding originada dessa junção, conhecida como Grow, atende cinco milhões de usuários em 21 cidades de sete países. Apenas no Brasil, são 13 cidades. Apenas falando dos últimos dados revelados sobre seus patinetes na capital paulista, a Grow disponibiliza cerca de quatro mil equipamentos, atendendo 1,5 milhão de usuários em uma área de 76 quilômetros quadrados.

“A Yellow conduziu milhares de pessoas por meio das bikes e patinetes e trouxe uma alternativa sustentável de locomoção para a cidade de São Paulo”, afirmou Marcelo Loureiro, cofundador e vice-presidente da Grow. “Continuaremos a desenvolver essa nova cultura de mobilidade, que gera impactos positivos e tangíveis no meio ambiente.”

Pé no freio

A Grow enfrentou um revés momentâneo em sua operação no último ano, que evidenciou como entidades públicas e privadas ainda precisam conversar sobre modelos de negócio antes não previstos pela legislação — para que startups não sejam forçadas a encerrar suas operações repentinamente.

A holding teve 557 dos seus equipamentos apreendidos pela Prefeitura de São Paulo no começo de junho. O motivo foi a vigoração de um decreto do prefeito Bruno Covas (PSDB), que estabeleceu regras (e multas de até 20 mil reais) para o uso incorreto das patinetes elétricas. Loureiro afirmou na época que não previa aumento no número de patinetes elétricas em São Paulo com o decreto.

A Prefeitura de São Paulo especificou que as patinetes elétricas foram recolhidas no primeiro dia de fiscalização “em cumprimento às regras do decreto 58.750/2019”. “As empresas de locação de patinetes não realizaram o credenciamento previsto na legislação e, portanto, operam sem autorização da administração. As penalidades para as empresas vão do recolhimento dos equipamentos até a multa de R$ 20 mil. A Prefeitura publicou regras para a atuação das empresas com o objetivo de promover a segurança de todos (pedestres, usuários, ciclistas e motoristas) e o uso adequado dos equipamentos de mobilidade individual, importantes meios de transporte.”

Já a dona das marcas Grin e Yellow disse que todos os patinetes que estavam na região paulistana da Faria Lima, do Largo da Batata até a Vila Olímpia, foram apreendidos pela prefeitura “com truculência”. Mais de 400 patinetes elétricas teriam sido apreendidas e danificadas, mesmo estacionadas de acordo com as normas que passaram a vigorar — paradas em pontos privados, em pontos públicos e em espaços que não prejudicam a livre circulação dos pedestre. “A empresa entende que a ação da prefeitura foi ilegal e atenta contra o direito de escolha dos cidadãos de São Paulo”, afirmou o grupo em comunicado à imprensa.

A regulamentação do uso das patinetes elétricas estava em discussão na Prefeitura de São Paulo desde janeiro deste ano, quando um grupo de trabalho foi criado com 11 operadoras de patinetes. O decreto publicado em 14 de maio pelo prefeito Bruno Covas deu um prazo de 15 dias para empresas e usuários se adaptarem ao novo uso das patinetes elétricas.

Depois de inúmeras discussões com a administração de São Paulo, as patinetes elétricas Grin e Yellow retornaram à capital paulistana cerca de um mês após a apreensão inicial. A Grow informou na época, em comunicado à imprensa, que havia concluído seu credenciamento junto à Secretaria Municipal de Mobilidade e Transportes de São Paulo.

Pé no acelerador

A volta à cidade de São Paulo fez a Grow retomar suas metas de crescimento. A startup afirma ser a terceira maior companhia de micromobilidade do mundo, atingindo no último mês 10 milhões de corridas realizadas desde o início das operações de Grin e Yellow.

O número mostra que a Grow tem uma taxa de crescimento similar às taxas de suas rivais. A americana Lime chegou a 11,5 milhões de corridas de bicicletas e patinetes elétricas em setembro do ano passado. No mesmo mês, a também americana Bird anunciou ter chegado ao marco de 10 milhões de corridas por patinetes elétricas. A Lime chegou ao Brasil no mês passado, trazendo a comparação hipotética à realidade brasileira.

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As marcas Grin e Yellow mediaram 2,7 milhões de viagens nos últimos seis meses e possuem uma frota conjunta de 135 mil bicicletas e patinetes elétricas, segundo os últimos dados revelados. O plano é dobrar o número de equipamentos de micromobilidade nos próximos meses.

A expansão de frota será acompanhada por um investimento polpudo na produção desses equipamentos de micromobilidade urbana. A companhia está investindo R$ 25 milhões em uma fábrica na Zona Franca de Manaus. A operação deverá começar no início do ano que vem. Quando estiver funcionando com força total, a produção será de 100 mil equipamentos por ano. A previsão é de 100 funcionários sejam empregados diretamente e outros 500 empregos indiretos  sejam criados na região.

A fábrica deverá facilitar o atendimento às cidades próximas, mas também aproximará a Grow da lucratividade. Segundo a holding, essa produção local pode gerar uma economia de 30% a 40% nos gastos com fabricação dos equipamentos. É mais margem para Grin e Yellow — o que dá mais fôlego para pisar fundo no acelerador.