Parques tecnológicos são terrenos férteis para novos negócios

Governo vai investir R$ 85 milhões neste ano em parques tecnológicos, que oferecem oportunidade para startups florescerem

São Paulo – O ano era 1951. O reitor da escola de engenharia de Stanford, Frederick Terman, decidiu criar um programa para atrair as empresas de tecnologia que começavam a se desenvolver na época para as proximidades do campus, cedendo terrenos a preços atrativos.

Logo, companhias como Hewlett-Packard, Eastman Kodak e General Electric se mudavam para a área, batizada de Parque de Pesquisas de Stanford. Sem saber, Terman dava o pontapé inicial para a formação do maio pólo de inovação das décadas seguintes: o Vale do Silício.

E não foi por acaso que esta pedaço de terra no sul da Califórnia se tornou o centro da revolução tecnológica que testemunhamos na última metade do século passado. A fórmula de Terman para aproximar a academia do mercado provou-se uma receita de sucesso para inovação e os parques tecnológicos se espalharam mundo afora.

No Brasil, há mais de 74 iniciativas de parques tecnológicos em andamento – são 25 em operação, 17 em fase de implantação e 32 ainda no papel, segundo a Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec).

Somente neste ano, o governo investirá mais 85 milhões de reais em projetos de parques tecnológicos em diferentes regiões do Brasil. Segundo Rogério Mota, secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), há um forte reconhecimento tanto por parte do governo quanto do setor empresarial de que é preciso articular esforços para promover a inovação no país.

“O Brasil é o único país onde a maior parte das novas patentes pertencem à academia. Isso é uma anomalia. As empresas têm duas opções: inovar ou inovar. É preciso que esses atores conversem”, destaca Mota.

Os parques tecnológicos são terrenos naturalmente férteis para que as sinergias entre esses setores aflorem. Dentro deles, as ideias que surgem nas cadeiras da universidade encontram espaço para se tornarem negócios – seja nas mãos de grandes empresas ou de startups criadas pelos próprios estudantes egressos da universidade.

Um exemplo de como esta colaboração se dá na prática é o InovaLab, centro de inovação instalado no Sapiens Parque, em Florianópolis, Santa Catarina. Resultado de um investimento de 1,5 milhão de reais, o espaço será compartilhado por pesquisadores da Fundação CERTI (organização de pesquisa sem fins lucrativos), funcionários da área de desenvolvimento da Philips e representantes de outras empresas inovadoras, entre elas a jovem Sábia Experience Tecnologia, cuja plataforma para interação virtual de grupos de pessoas foi criada dentro do ambiente acadêmico.


“Uma das grandes vantagens é estar perto de pessoas e organizações que estão trabalhando com coisas novas. Essa sinergia nos motiva a continuar inovando”, opina Marcelo Guimarães, diretor presidente da Sábia. “A inovação ocorre pelo ambiente. Fala-se muito em inovação como se fosse um processo linear, mas na pratica não é bem assim. A inovação é sistêmica, é preciso ter atores trabalhando juntos com um único objetivo”, destaca o responsável pela área de capital de risco da Anprotec, José Alberto Sampaio Aranha.

Outro importante atrativo para as jovens empresas que se instalam em parques tecnológicos é a possibilidade de interagir comercialmente com as grandes. Devido à proximidade física, as parcerias e oportunidades de negócios surgem mais naturalmente. “Este arranjo dá às startups condições de acessar oportunidades de mercado que isoladamente elas dificilmente conseguiriam”, destaca José Eduardo Fiates, diretor executivo do Sapiens Parque. Com uma área total de 4 milhões e meio de metros quadrados e capacidade para receber 500 empresas, o parque deverá movimentar 4 bilhões de reais quando estiver funcionando a pleno vapor, gerando mais de 35 mil postos de trabalho.

Além de facilitar a colaboração, os parques permitem às empresas ratear os investimentos em infraestrutura e, muitas vezes, contam com incentivos fiscais oferecidos pelos governos locais. Para as startups, a grande vantagem é a possibilidade de compartilhar os custos de serviços básicos, como o próprio escritório, contabilidade e assessoria jurídica, entre outros.

Segundo Sampaio, os parques do futuro terão ainda mais atrativos, como a oferta de moradias para altos executivos, escolas e outros serviços que darão suporte à instalação de famílias dentro da área do empreendimento. “É o conceito de ‘smart regions’ [regiões inteligentes], que inclui a qualidade de vida na equação”, aponta o executivo.