Para ele, comprar roupas é fora de moda

Tom Cardoso

O empresário Paulo Alexandre não compra roupa para os três filhos, de 24, 22 e 15 anos, há mais de uma década. É preciso dar exemplo. “Aqui não tem essa história de ‘casa de ferreiro, espeto de pau”: um irmão sempre herda a roupa do outro mais velho”, diz Alexandre, citando o popular provérbio. Nascido em Portugal, ele é fundador da Arranjos Express, rede de franquias especializada na customização, ajustes e reparos de roupas, que encerrou 2015 com o faturamento de 11 milhões de reais – o grupo espera faturar este ano cerca 24 milhões de reais, uma expansão de quase 120%.

O que explica um crescimento tão vigoroso em plena crise econômica? A própria crise, explica Alexandre. Ela contribuiu para que o conceito de reformar roupas, tão difundido na Europa, vencesse preconceitos e chegasse com força no Brasil. A rede, de origem portuguesa – são 30 lojas em operação por lá – cresce com força no Brasil desde 2012. Já são 52 unidades em operação em 10 estados brasileiros. A meta é chegar a 90 unidades até o fim de 2016. Alexandre veio junto, para coordenar a expansão da marca no país.

Para ele, não havia até então no Brasil, um país pautado pelo consumismo, uma cultura de reaproveitar peças de roupas, preconceito que começa a ser vencido, segundo ele, não só pela diminuição do poder aquisitivo da população, em todas as classes sociais, mas também pelo serviço prestado pela Arranjos Express – algo que ele chama de transformar a roupa numa peça que “dialogue com seu tempo”.

A reciclagem de tecidos no Brasil ainda é utilizado, na sua grande maioria, na produção de peças de artesanato. Recuperar roupas velhas, diz o empresário, não é só uma boa saída para o consumidor, que vai gastar menos pelo conserto do que pela compra de uma peça nova, mas também para um país que se preocupada cada vez mais com a sustentabilidade.

O fundador da Arranjos Express recorre ao seu time de coração para demonstrar o quanto a sua empresa colabora de forma indireta para a causa sustentável. “Em três anos e meio de operação, já evitamos o descarte de aproximadamente 554.000 peças de roupa em todas as unidades da rede no Brasil, o equivalente a 87 campos do Canindé, o estádio da Portuguesa de Desportos”, diz o empresário, filho de uma costureira e ex-executivo da L’Oreal.

A Arranjos tem planos de abrir lojas nos Estados Unidos, em Angola e na Rússia, mas o seu foco principal é mesmo o Brasil, cujo mercado ele considera complexo e ao mesmo tempo desafiador.

“Quando trouxe o conceito de customização, ajustes e reparos de roupas para cá, eu imaginava trabalhar apenas com um público da classe A e B”, lembra Alexandre, que abriu a primeira loja no Shopping Vila Olímpia, localizado numa região nobre de São Paulo. Atualmente, a Arranjos tem lojas no Shopping Aricanduva, no Extra Jaguaré e no Shopping Center Penha, que atendem principalmente consumidores da classe C e D. Nada como uma crise para forçar (ou acelerar) a mudança de conceitos. Para Alexandre, é torcer para o consumismo não voltar com tudo quando as coisas melhorarem.