O sucesso das aulas online

Pedro Henrique Tavares e Isabel Seta

O desempenho dos alunos brasileiros é, como se sabe, muito ruim. De acordo com os dados do Programa Internacional de Avaliação Para Estudantes (Pisa), que avalia estudantes de 15 anos de 70 países em três disciplinas, o Brasil está em 61º em leitura, 63º em ciências e 65º em matemática. Na faculdade, as coisas não melhoram muito e o índice de evasão cresce. De acordo com dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), em 2014, 49% dos graduandos abandonaram o curso em que foram admitidos inicialmente.

No fracasso da educação brasileira surgem inúmeras oportunidades. Nos últimos anos, prosperaram os grandes grupos de ensino superior. Mais recentemente, as redes de ensino médio. Mas, nas franjas desse mercado, vêm ganhando espaço startups com modelos alternativos de ensino criadas para tentar dar conta dos gargalos do ensino médio e superior do país. É o que, a grosso modo, se pode chamar de aulas de reforço.

Sob o slogan “estude em qualquer lugar. Aprenda do seu jeito”, a Me Salva! é uma das iniciativas mais promissoras. Desenvolvida pelo engenheiro gaúcho Miguel Andorffy em 2012, o serviço oferece vídeo-aulas e conteúdos em texto que podem ser acessados pelo usuário quando e onde bem entender. Andorfyy começou a gravar aulas quando tinha 22 anos, durante o curso universitário. “Nas salas de aula, que tem períodos que vão de quarenta minutos a uma hora, os alunos perdem a atenção nos quinze primeiros minutos”, diz Andorffy.

A iniciativa rapidamente virou um negócio promissor. Na Me Salva!, cada estudante escolhe o conteúdo que exige mais tempo de estudo e também pode interagir com outros colegas na hora de tirar as dúvidas e estudar em grupo sem precisar sair de casa.

Da mesma forma que a Me Salva!, a Descomplica é uma startup que começou sua trajetória em 2011 com vídeo-aulas para estudantes de ensino médio e vestibulandos. Na sequência, foram implantadas lições voltadas a candidatos em concursos públicos e, desde o ano passado, bacharéis em direito também podem utilizar a plataforma como ferramenta de estudo para o exame da Ordem dos Advogados do Brasil. “Identificamos esta oportunidade ao considerar a grande quantidade de faculdades de direito no Brasil, um dos países que mais forma advogados no mundo”, diz Marco Fisbhen, co-fundador e CEO da Descomplica.

Mirando no ensino superior, o Responde Aí começou a funcionar em 2014 e oferece guias de estudo de matérias cobradas nos cursos de graduação de faculdades de exatas, como engenharia. A startup nasceu da frustração de dois cariocas, Paulo Monteiro e Miguel Nigri, então alunos de engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que notavam colegas desmotivados e perdidos no curso, em parte pelo descaso de professores. “Queríamos ajudar, pegar o aluno pela mão mesmo e mostrar como estudar”, diz Monteiro.

A Me Salva! aposta nos próprios estudantes para oferecer um ensino melhor. A equipe de suporte ao cliente é formada por universitários em meados de curso que já passaram por uma experiência de planejamentos de estudos como um vestibular. Universitários também são a base da equipe do Responde Aí. Atualmente 25 “professores” – alunos de graduação e pós graduação – dão conta dos resumos e exercícios do site, que visam, simplesmente, ajudar o aluno a estudar (e aprender) as matérias exigidas pelos cursos. “Na faculdade, diferente da escola, o professor não está nem aí. O cerne do problema é a falta de carinho”, afirma Monteiro.

Crescimento acelerado

A Me Salva! cresceu a uma média de 500% ao ano desde a fundação, em 2012, época em que Andorffy investiu 15.000 reais do próprio bolso. Em 2015, o negócio foi acelerado pela Fundação Lemann e recebeu um aporte do fundo de investimentos Ebricks Ventures, do grupo gaúcho RBS. Pelo menos sete milhões de estudantes já utilizaram a ferramenta e, atualmente, a empresa tem cerca de 600.000 estudantes cadastrados. Uma parcela deles paga mensalidades de 35 reais, o que fez o faturamento chegar a 3 milhões de reais ao final do ano.

Na Descomplica, os estudantes pagam cerca de 20 reais por mês. A startup recebeu em 2015 um aporte de 21 milhões de reais do fundo Amadeus Capital Partners. Em anos anteriores, fundos como Valar Ventures, 500 Startups e Valor Capital Group também apostaram no empreendimento ao injetar cifras superiores a 10 milhões de reais. “Em 2016, nossa meta era dobrar de tamanho, e conseguimos”, conta Fisbhen, apesar de não revelar o faturamento recente. A Descomplica conta com uma sede em São Paulo, duas no Rio de Janeiro, uma em Campinas e um estúdio de design em Londres.

No Responde Aí, a mensalidade também é de 20 reais por mês para o plano semestral e 35 reais para um plano mensal. A plataforma tem 160.000 estudantes cadastrados (não necessariamente pagantes), recebeu investimentos dos fundos Gera Ventures e Arpex Capital e foi acelerada pela 21212. A empresa não revela o valor dos aportes e nem quantos alunos pagantes possui.

Como se vê, são ótimos negócios. A grande questão é quando terão massa o suficiente para de fato influenciar (para melhor) o aprendizado dos estudantes brasileiros. O último Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), divulgado no final do ano passado, mostrou uma estagnação do Ensino Médio nos últimos quatro anos. Desde 2011, o indicador não passa de 3,7 (numa escala que vai até 10). As escolas privadas, que contam com 97 representantes entre as cem primeiras colocadas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), também não fizeram bonito: 5,3, abaixo da meta de 6,3 estabelecida pelo Ideb.

“Estamos falhando do início ao fim. O número de crianças e adolescentes nas escolas aumentou, mas a infraestrutura não comporta todo mundo”, afirma Andorffy, da Me Salva!. Fisbhen acredita que o Descomplica e as outras iniciativas podem fazer diferença porque têm mensalidades acessíveis a qualquer bolso. Segundo os números da empresa, a estratégia começou a dar certo: 55% dos usuários que utilizam o Descomplica para vestibulares são oriundos do ensino público. “Há localidades no Brasil que não chegam a oferecer nem o curso pré-vestibular, por isso nos tornamos uma alternativa”, diz Fisbhen.

Estudo digital

Me Salva! e Descomplica se firmaram como os grandes players de uma educação digitalizada, mas não estão sozinhos. Segundo o Sebrae-SP, pelo menos 30% startups do país são voltadas para o mercado de educação. A Stoodi, que oferece aulas particulares e foi acelerada em 2013 pelo programa Startup Brasil, do governo federal é mais uma delas. Outra iniciativa é a Passei Direto, criada em 2012. A ferramenta traz materiais de reforço compartilhados entre os próprios estudantes de maneira colaborativa. Já a Quero Bolsa reúne bolsas de estudo em mais de 400 faculdades do país.

Nos Estados Unidos, onde algumas das maiores universidades do mundo exigem altos índices de desempenho para novos alunos, a digitalização dos estudos é uma realidade. Entre centenas de possibilidades, a Udemy e a Udacity aparecem como fontes de inspiração para empreendedores como Andorffy e Fisbhen. Outra é a Khan Academy, que oferece um programa de aprendizado em cerca de quarenta idiomas. A organização sem fins lucrativos é mantida por Sal Khan, educador e empresário. Khan já contabiliza mais de 4.000 vídeo-aulas produzidas para a plataforma e é reconhecido como um dos maiores transformadores do mercado de educação nos Estados Unidos. É o reconhecimento que os empresários desta reportagem buscam – se vier junto com o lucro, tanto melhor.