O plano da Magnetis, de robôs investidores, para chegar a 10 mil clientes

Fintech que aposta em investimentos geridos por algoritmos se uniu a GPS Investimentos, focada em alta renda, para melhorar e expandir produtos

As fintechs brasileiras especializadas em investimentos estão se armando para uma competição cada vez mais acirrada — inclusive naqueles que possuem como trunfo a força de seus algoritmos. O último capítulo da batalha está na parceria da fintech Magnetis com o GPS Investimentos, grupo de gestão independente de patrimônios de alta renda com 31 bilhões de reais sob gestão.

Criada em 2015, a Magnetis monta carteiras administradas por robôs de investimento e possui hoje 5.000 clientes e 250 milhões de reais em ativos gerenciados. A fintech usará o histórico de dados de investimento da gestora tradicional para melhorar seu algoritmo e atrair mais investidores, enquanto o GPS Investimentos espera expandir sua base de clientes para faixas mais populares de aportes iniciais e mensais.

A expansão dos algoritmos de investimento

A Magnetis aposta em um mercado cheio de oportunidades. No ano passado, 2,8 trilhões de reais estiveram em custódia de instituições financeiras dos segmentos de varejo tradicional, varejo de alta renda e private. Segundo Luciano Tavares, fundador da Magnetis, 94% desses recursos estão concentrados nos bancos tradicionais e sem independência de comissões, o que gera “falta de alinhamento de interesses, escolhendo produtos não tão interessantes e prejudicando a rentabilidade final do investidor”.

O primeiro passo para usar a Magnetis é responder algumas perguntas que ajudam a traçar o perfil de risco e o objetivo financeiro do cliente – pagar um carro, acumular patrimônio ou guardar dinheiro para a aposentadoria, por exemplo. Essa é uma exigência comum a todas as plataformas de investimento.

Munidos de tais informações, os robôs da startup começam a operar e o algoritmo sugere os investimentos mais adequados. O usuário terá uma carteira adaptada a cinco níveis de risco (quanto maior o número, maior o risco).

Cliente acessa sua carteira na Magnetis

Cliente acessa sua carteira na Magnetis (Magnetis/Divulgação)

O algoritmo desenvolvido pela fintech se encarrega de escolher e comprar cotas de fundos geridos pela Magnetis, que por sua vez usa o dinheiro de todos os compradores para acessar investimentos sofisticados, em uma compra “no atacado”. São três fundos diferentes: Magnetis Diversificação em Renda Fixa, Magnetis Diversificação em Multimercados e Magnetis Diversificação em Ações. Alguns fundos disponíveis e conhecidos são os multimercados AZ Quest, Exploritas e Adam D60.

Os clientes pagam uma única taxa anual de administração, baseada no valor total investido. Não há recebimento de comissões para indicação de produtos financeiros específicos. A taxa anual média da Magnetis é de 0,59% ao ano, incluindo o valor pago para a plataforma para fazer os investimentos, a corretora Easynvest. A Magnetis atua como gestora, usando seu robô para escolher onde investir e rebalancear a carteira.

Não estão inclusos os impostos. Cada uma das aplicações possui tributação específica: todos os fundos de renda fixa possuem incidência de imposto de renda sobre a rentabilidade, sendo que a renda fixa possui impostos proporcionais ao tempo aplicado; o multimercado possui a tributação estilo come-cotas; e o fundo ações possui a taxa sobre ganhos de capital, de 15% fixos.

Há dois anos, a Magnetis também apostou em dar consultorias financeiras a funcionários. A fintech atende três mil empregados de nove empresas, como as startups Arquivei e Edools. Há uma análise individual dos funcionários e uma plataforma com consultores para trabalhar objetivos como pagar dívidas ou juntar uma pequena quantia todo mês. Os empregados podem ou não serem usuários da Magnetis no futuro.

A fintech projeta chegar a 10 mil investidores e um bilhão de reais sob gestão até o fim deste ano. Nos últimos anos, a Magnetis cresceu anualmente a uma taxa de 150 a 200%.

Parceria entre o tradicional e a fintech

Criado em 1999, o GPS Investimentos teve seu controle adquirido há três anos pelo grupo suíço de gestão de fortunas Julius Baer, que atua em 25 países e possui 375 bilhões de dólares sob gestão.

Os clientes atendidos até o momento pelo GPS são de alta renda e a associação com a Magnetis significa a expansão para uma categoria mais popular de investimento. Na fintech, o aporte inicial mínimo é de mil reais e a média investida fica entre 50 e 60 mil reais. “Podemos democratizar o que fazemos, atendendo clientes menores e de fora de São Paulo. Pensando nas futuras gerações de investidores nossos, a parceria se mostrou interessante”, afirma Jan Karsten, presidente do GPS Investimentos.

Eles detém os produtos mais sofisticados em gestão de patrimônio e queremos levar essa experiência aos nossos clientes”, completa Tavares. Tanto o GPS quanto a Magnetis se consideram independentes, o que facilitou a parceria entre as instituições financeiras.

A parceria pode incluir a compra pelo GPS de uma fatia societária minoritária na Magnetis no futuro. Nenhuma das empresas comenta a porcentagem de participação ou a avaliação da fintech em jogo caso haja essa aquisição.

A Magnetis captou um aporte semente de três milhões de reais em 2015, feito pelos fundos Monashees e Redpoint e.ventures e completado pela aceleradora 500 Startups e por investidores-anjo. Em abril do ano passado, recebeu um investimento série A de 17 milhões de reais, liderado pelos fundos Monashees e Vostok Emerging Finance e completado pelo fundo Redpoint e.ventures e por investidores-anjo. Para este ano, a fintech negocia uma rodada série B.

Veja também

Concorrência e desafios para os robôs

Startups que usam robo advisors, como a Magnetis, fazem parte de uma tendência de automação crescente no setor de serviços.

Nos Estados Unidos, fintechs que desenvolvem algoritmos que escolhem os melhores investimentos começaram há mais de uma década e haviam arrecadado quase dois bilhões de dólares em investimentos até 2017, ano em que começaram seu amadurecimento.

Uma das pioneiras é a americana Betterment, criada em 2008 e com 275 milhões de dólares em aportes. No último ano, chegou a 15 bilhões de dólares gerenciados para mais de 400 mil investidores.

Alguns concorrentes brasileiros que a Magnetis enfrenta hoje são Monetus, Vérios e Warren, para citar apenas os mais conhecidos. Tavares acredita que o diferencial da Magnetis está na diversificação das carteiras, por meio dos “fundos de fundos”, e em um atendimento humano associado ao investimento em tecnologia para o operacional (similar ao que ocorre na fintech Nubank).

Todas essas startups financeiras enfrentam o desafio de desconhecimento sobre como algoritmos de investimento funcionam. Segundo pesquisa da gestora Legg Mason, mais da metade (52%) dos investidores brasileiros pretende aplicar via robôs nos próximos cinco anos. O interesse dos brasileiros em delegar carteiras a algoritmos ficou bem acima da média global, de 37%. No entanto, só 23% estão bem familiarizados com o conceito – e um terço não faz ideia de como operam os robôs. Ganhará quem atrair e continuar conquistando o número cada vez maior de investidores brasileiros.