O líder humilde Antônio Ermírio de Moraes, em livro

O professor e economista José Pastore conta em seu livro os hábitos espartanos e os princípios de uma lenda do empreendedorismo brasileiro — o empresário Antônio Ermírio de Moraes

São Paulo – No cenário empresarial brasileiro, Antônio Ermírio de Moraes é quase um mito. Ele esteve no comando, por quase três décadas, do grupo Votorantim, que faturou cerca de 35 bilhões de reais em 2012. Envolveu-se em política, teatro e filantropia. Bilionário, vestia ternos surrados, de mais de 20 anos de uso.

Às vezes saía de casa com sapatos de pares diferentes — e nem ligava. Mesmo doente, tinha vergonha de voltar cedo para casa, pois temia dar mau exemplo aos empregados. Sua trajetória é contada no livro Antônio Ermírio de Moraes — Memórias de um Diário Confidencial, do economista José Pastore, seu amigo há 35 anos.

O livro não é propriamente uma biografia. É um relato abrangente, em tom memorialista, sobre a vida de alguém que o autor admira imensamente. O relato comove e serve de inspiração para empreendedores que sonham não apenas com o crescimento de seus negócios mas também com o progresso do Brasil.

Pastore conta que, em 1945, Antônio Ermírio embarcou para os Estados Unidos para cursar engenharia metalúrgica no Colorado. Os americanos tinham dificuldade para pronunciar seu sobrenome, Moraes. “Pedi que me chamassem de ‘more ice’ (mais gelo) e deu certo”, disse Antônio Ermírio a Pastore.

Ao voltar para o Brasil, Antônio Ermírio fez estágio não remunerado na Siderúrgica Barra Mansa, da família. Em 1973, após a morte do pai, ele assumiu, junto com o irmão, José Ermírio, o comando do grupo Votorantim. Antônio Ermírio acompanhava todos os detalhes das fábricas. “Se eu só precisasse dar ordens, chegaria às 7 da manhã e sairia em meia hora”, dizia.

Na viagem de lua de mel, ele e sua mulher, Maria Regina, estavam passeando pela Áustria e pela França, quando Antônio Ermírio resolveu levá- la para visitar fábricas de aço e de alumínio. “Não foi uma viagem perdida, porque Regina aprendeu coisas interessantes sobre o alumínio”, disse ele a Pastore.


O casal teve nove filhos. Antônio Ermírio viu o grupo Votorantim enfrentar momentos difíceis, como o surto inflacionário e os sucessivos e fracassados planos monetários dos anos 80. Seu estilo conservador e o horror a dívidas o ajudaram a enfrentar esses períodos turbulentos.

Quando, em 2001, deixou a presidência do conselho de administração e entregou o comando aos filhos e sobrinhos, o Votorantim quase não tinha dívidas — considerando seu tamanho (era um dos cinco maiores conglomerados de capital brasileiro).

Em 1986, Antônio Ermírio candidatou- se ao governo de São Paulo. Antes, foi ao túmulo do pai pedir-lhe desculpas, pois tinha prometido nunca se meter com política. “Eu vivia criticando os governos. Tinha obrigação de ao menos propor uma solução”, disse. “Os políticos no Brasil não pensam no Brasil. Só pensam na eleição.”

Na campanha, enlouqueceu os marqueteiros. “Os médicos terão de cumprir horário e parar de conversar no serviço enquanto os pacientes esperam”, falou certa vez. Ao final, foi bem votado, mas não venceu. Em meio a tudo isso, Antônio Ermírio ainda ajudava a administrar a Beneficência Portuguesa, hospital paulistano com quase 2.000 leitos — dois terços dos pacientes vêm do Serviço Único de Saúde.

Ele passava na Beneficência três vezes por dia: de manhã, no intervalo do almoço e no fm do expediente, quando ia até a capela agradecer por ter podido ajudar os pacientes. Uma vez, viu um homem roubando um vaso sanitário enquanto o segurança do hospital dormia na guarita. Passou uma bronca nos dois.

Como acompanhava as planilhas de custos de perto, descobriu um roubo de carne e um desvio de lençóis e toalhas. Antônio Ermírio ainda encontrou tempo para se dedicar ao teatro — ele escreveu três peças sobre a injustiça social brasileira.


Antônio Ermírio não se comportava como rico. Andava com roupas amassadas e em carros velhos, sem ar-condicionado. “Em 1995, ele trocou uma Caravan por um Santana usado de 1991”, escreveu Pastore. Na mesma época, seus filhos lhe deram um Volvo. O carro novo fcou parado na garagem e acabou recebendo o apelido “De-Volvo”.

Em 1998, a saúde de Antônio Ermírio começou a ficar frágil, e ele passou a ter difculdades para cumprir sua rotina. Algum tempo depois, foi diagnosticado com mal de Alzheimer. Mesmo assim, continuou conduzindo sua grande paixão — a Companhia Brasileira de Alumínio, pertencente ao grupo.

Chegou um momento, em 2008, em que não deu mais — desfecho um pouco triste para quem disse, em várias ocasiões, que queria morrer trabalhando. De lá para cá, o grupo Votorantim foi, aos poucos, se transformando. A terceira geração da família, que está na gestão, é mais disposta a enfrentar riscos.

A internacionalização com capital alavancado, por exemplo, é um tipo de decisão que provavelmente Antônio Ermírio não tomaria. Os resultados mais recentes foram positivos. O lucro trimestral, segundo balanço divulgado em novembro, foi de 381 milhões de reais — 156% mais em relação ao mesmo período de 2012.

Hoje com 85 anos, Antônio Ermírio não consegue mais acompanhar detalhes da empresa nem da economia brasileira. Em conversa com Pastore, disse uma vez, acamado, em tom otimista: “Vejo que o Brasil está crescendo bastante”. Pastore não desmentiu. “Fiz questão de deixar com ele a imagem de um país pujante.”