O lado bom de não ter noção

Quando temos muita consciência de quão difícil é o terreno que estamos para pisar, o risco é ficar parado, só olhando os outros prosperar

São Paulo – Existe idade mínima para em­preen­der? E máxima? Quando po­demos nos considerar preparados? Podemos empreender por necessidade ou somente quando enxergamos uma oportu­ni­dade? Um amigo, que está pensan­do em abrir uma loja de roupas, me procurou recentemente e trouxe todos esses questionamentos que atormentam muitas pessoas com vontade de ter seu próprio negócio.

Abri minha primeira empresa aos 17 anos porque enxerguei uma oportunidade de ganhar dinheiro produzindo adesivos para enfeitar motocicletas. Como deu tudo certo, minha experiência de vida diz que, quanto antes você empreender, melhor.

Mas entendo quem tem receio de se arriscar por se considerar despreparado. Fiz até o segundo grau. Hoje estou com 41 anos. Às vezes fico pensando que, com mais estudo, talvez as coisas tivessem sido mais fáceis para mim.

Por outro lado, é possível que eu tivesse perdido o momento. Com mais capacidade de analisar os fatores que pesam no sucesso ou no fracasso de um empreendimento, é provável que eu tivesse sido pouco ousado. Acho que, se tivesse feito um daqueles planos de negócios arrumadinhos, minha empresa jamais teria nascido.

Eu não tinha conhecimento do mercado. Não tinha  dinheiro. Não tinha plano B. Acima de tudo, não tinha a menor noção de quantas coisas não sabia. No meu caso, ser um “sem noção” me fez bem. Acho que, quando temos muita consciência de quão difícil é o terreno que vamos pisar, o risco é ficar parado, só olhando os outros ir em frente. 

Tenho um velho amigo — o seu Nadais, um português cuja história de vida me trouxe várias lições. Quando tinha 22 anos, seu Nadais trabalhava numa roça. Decidiu vir para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor. Trabalhou como lavador de pratos, copeiro e açougueiro. Aos 28 anos, resolveu ter o próprio negócio e abriu um pequeno açougue. Deu certo.

Anos mais tarde, decidiu fundar uma fábrica de calçados. A fábrica era pequena, mas rentável. Depois dos 40, muito bem de vida, foi a Portugal visitar parentes e amigos. Como acontece com muitos empreendedores que começam a ganhar dinheiro, seu Nadais passou a gastar demais. Imaginem que, uma vez, ele levou seu Chevrolet no navio para andar em Lisboa. Dez anos depois de ter fundado a fábrica de sapatos, ele faliu.

Seu Nadais já tinha 50 anos quando recomeçou do zero, ao comprar uma pequena parte de uma padaria. Dois anos depois, quando a coisa começava a dar certo, a padaria pegou fogo. Seu Nadais faliu novamente. Ele tinha 55 anos. Foi quando resolveu abrir um motel. Hoje, aos 90 anos, seu Nadais é dono de um motel enorme em São Paulo que dá muito dinheiro.

A história de seu Nadais me ensinou que não existe idade ou tempo certo para empreender. Existe, sim, uma pequena fresta na parede pela qual alguém com veia empreendedora resolve espiar. Se você enxergar alguma coisa, é hora de empreender.