O fracasso é inevitável, diz Eric Ries, guru de startups

Eric Ries, nome badalado entre empreendedores, fala com exclusividade sobre lean startup, plano de negócios e fracassos; leia um trecho de seu livro recém-lançado no país

São Paulo – Esqueça tudo o que você aprendeu sobre como criar uma empresa. Deixe o plano de negócios na gaveta, não desperdice tempo e dinheiro em um produto completo e escute o que o seu cliente tem a dizer. É isto o que defende uma das teorias mais discutidas no universo empreendedor atual, a lean startup, ou startup enxuta, encabeçada por Eric Ries. Empreendedor e investidor-anjo, Ries é autor do livro “A Startup Enxuta”, recém-lançado no Brasil, e viaja o mundo ensinando os futuros empreendedores uma nova forma de enxergar os negócios.

Depois de uma empresa fracassada, Ries começou a repensar tudo o que sabia sobre empreendedorismo e administração e chegou à tão falada metodologia. No lean startup, os empreendedores usam o mínimo capital e esforço possível e colocam o produto em teste no mercado. São os próprios consumidores que vão dizer onde melhorar, o que gostam ou não e até quanto pretendem pagar por aquilo. Neste modelo, o fracasso não é tão grave assim. “O fracasso é inevitável, porque empreendedorismo é extremamente incerto”, diz Ries.

Autor do blog Startup Lessons Learned, o guru das startups do momento falou com exclusividade a Exame.com sobre como chegou a esta metodologia, o que fazer com o plano de negócios e como o fracasso pode ser a chave para o sucesso. Leia ainda, ao final da entrevista, um trecho do livro “A Startup Enxuta” traduzido para o português e publicado pela editora Leya.

Exame.com – De onde surgiu a metodologia da startup enxuta?
Eric Ries –
A palavra ‘lean’ vem de manufatura enxuta, um método do Japão, que torna empresas mais competitivas. O que eu fiz foi adaptar essas ideias para que elas fizessem sentido no mundo das startups. E eu fiz isso porque, quando eu era um empreendedor, minhas ideias sobre que empresa deveria fazer eram tão malucas que ninguém me ouviria. Eu conseguia ver que dava certo, mas não conseguia explicar a ninguém o porquê. Eu precisava de uma teoria que indicasse porque aquilo dava certo. Então, foi o conceito de manufatura enxuta que me ajudou a explicar.

Exame.com – Na sua visão, qual a importância do fracasso para os empreendedores?

Ries – O fracasso é inevitável, porque empreendedorismo é extremamente incerto. Todos os empreendedores acham que são uma exceção a essa regra e dizem que com eles tudo vai dar certo.  Nós frequentemente erramos em detalhes. Só que algumas vezes são detalhes importantes, como se alguém realmente vai usar o seu produto. Já que é inevitável, é melhor fracassar o quanto antes. O que eu tento ensinar aos empreendedores é superar seus fracassos de forma rápida e indolor para que possam aprender com eles como ter sucesso.


Exame.com – Você diz no livro que empreendedorismo é um processo que pode ser aprendido. Como isso é possível?

Ries – A inspiração que eu tenho é a ciência. O desenvolvimento da forma moderna de pensar a ciência é de algumas centenas de anos atrás. Todo mundo que quiser pode se tornar um cientista, só estudando as teorias básicas da ciência. Mas não é porque todo mundo pode se tornar um cientista que eles vão mesmo ser ou querer. O mesmo vale para empreendedorismo. Empreender é difícil. Muitos não vão querer ser empreendedores mesmo que a gente torne isso mais compreensível. Por outro lado, para quem realmente quer empreender e tem uma ideia para mudar o mundo, nós vamos lhe dar ferramentas para aumentar as chances de sucesso e isso naturalmente pode ser aprendido.

Exame.com – Quais ferramentas são essas?

Ries – A ferramenta mais famosa é a do mínimo produto viável (MVP, na sigla em inglês). Quando você encontra um empreendedor e pergunta o que ele está fazendo no dia, eu garanto que, na maioria das vezes, ele vai dizer que estava discutindo com o seu sócio sobre quais elementos incluir na primeira versão do produto. A gente gasta boa parte do nosso tempo nisso e não temos nem ideia do que fazer. Ao invés de discutir sobre isso, nós temos uma recomendação específica: pense sobre o que você está tentando aprender ao criar esse negócio. Aprenda como quem conduz um experimento e deixe seu mínimo produto viável ser a menor quantidade de trabalho necessária para tocar a experiência.

Exame.com – Qual a sua opinião sobre fazer planos de negócios?

Ries – O problema de escrever um plano de negócios é que ninguém nunca lê. Então, ele não ajuda. Você toma como verdade coisas que só imagina. Steve Blank [empreendedor em série e referência no Vale do Silício] sempre diz que nenhum plano de negócios sobrevive ao primeiro contato com os clientes. Quando você vai para a parte prática do empreendedorismo, as coisas mudam tão rapidamente que é difícil manter o plano. O que nós fazemos é uma versão bem simples do plano de negócios, só para saber quais são os pressupostos estratégicos e as hipóteses que devem ser testadas. Ao invés de construir um plano de negócios, vamos só construir o negócio e deixá-lo nos ensinar o que fazer depois.


Exame.com – Você diz que estamos no “segundo século da administração”. O que isso significa na prática?

Ries – Quando eu estava escrevendo o livro, eu fiz uma pesquisa sobre a história da administração. Basicamente, o que nós chamamos de administração, as ideias da administração científica, tem um século. Nós fizemos muito progresso. Mas, ultimamente, estamos lidando com desafios que requerem uma nova forma de administrar. Estamos tendo novos problemas que a administração do século passado não tem respostas. Esta é a era da administração empreendedora. Os problemas que temos agora são os problemas do empreendedorismo. Precisamos pensar em como criar uma nova geração de novas empresas sustentáveis.

Exame.com – Qual o seu conselho para os empreendedores brasileiros?

Ries – O meu conselho é o mesmo que dou a todos os empreendedores do mundo. Lembre-se de que tudo o que você faz em uma startup é um experimento científico e que você precisa aprender algo com ele. Se você não estiver aprendendo com a atividade que está fazendo, não faça. Se você encontrar uma maneira de fazer essa experiência ser mais barata, faça isso.

Leia abaixo a introdução do livro “A Startup Enxuta”, de Eric Ries, lançado recentemente no Brasil