O fabuloso mercado da programação

Carol Oliveira 

Quanto tinha 70 anos, em 2012, o empresário Michael Bloomberg, então prefeito de Nova York, anunciou em seu Twitter que decidira aprender a programar como uma de suas “resoluções de ano-novo”. Para isso, participaria da chamada Hora do Código, um movimento global de incentivo à programação em que cada participante dedica uma hora por dia para lições sobre o tema.

Entusiasta da tecnologia, o presidente americano Barack Obama também escreveu suas primeiras linhas de programação na Hora do Código. “Não apenas baixe um novo game, faça um. Não apenas baixe o último app, ajude a criá-lo. Não apenas jogue no seu celular, programe-o”, disse em 2013. No início deste ano, Obama lançou o Computer Science For All, uma iniciativa para incentivar o ensino de ciência da computação nas escolas públicas americanas, além de estimular parcerias com ONGs e empresas. É o primeiro passo para seguir uma cobrança recorrente do fundador da Apple, Steve Jobs. Ele costumava dizer que “Todo mundo neste país deveria aprender a programar um computador… Porque isso ensina você a pensar”.

Mundo afora, cada vez mais políticos e empresários fazem questão de afirmar que os códigos deixaram de ser coisa de nerd para ser fator decisivo no futuro dos indivíduos, das empresas, dos países. É, em suma, uma habilidade essencial para os cidadãos do século 21. “Boa parte das novas tecnologias usam a programação como base. Precisamos entender o mundo que está por trás das ferramentas que usamos”, diz Fabio Kon, professor do Departamento de Ciência da Computação do Instituto de Matemática e Estatística da USP.

Programação para todos

A programação é uma matéria obrigatória no currículo básico de países como Reino Unido, Finlândia e Estônia. Nos Estados Unidos, a presença varia em cada estado, mas 40% das escolas americanas já possui pelo menos uma aula destinada ao tema, de acordo com um estudo da empresa de pesquisas Gallup, encomendado pelo Google.

No Brasil, a consulta pública que deu origem à Base Nacional Curricular Comum, que traz as diretrizes para o Ensino Fundamental, decidiu por não incluir a matéria no currículo. O texto diz apenas que os colégios devem incentivar o uso de “tecnologia digital” para integrar as disciplinas.

Isso não impede que escolas e governos locais desenvolvam iniciativas na área, da mesma forma como acontece com aulas de teatro, música ou robótica. Mas na falta de um incentivo nacional em larga escala, empresas e organizações se mobilizam Brasil afora para disseminar o tema.

Um dos exemplos mais interessantes no Brasil é o PrograMaria, um projeto que busca difundir a programação entre as mulheres. O foco no público feminino não é à toa: elas representam apenas 22% dos alunos em cursos de Ciência da Computação, segundo o IBGE, e menos de 8% no mercado, de acordo com um estudo da consultoria StackOverflow feito em 157 países. O projeto oferece conteúdo online, organiza palestras, cursos, encontros. “Vemos a tecnologia como uma ferramenta de transformação. Não é preciso querer ser programador para se beneficiar desse conhecimento”, diz Iana Chan, uma das fundadoras do projeto.

O uso desse aprendizado em outras áreas é um dos argumentos usados pelo empresário Daniel Cleffi para convencer os pais sobre a importância de incentivar as crianças a aprenderem códigos. Após trabalhar 15 anos na área de Tecnologia da Informação na Microsoft, ele decidiu criar a MadCode, uma escola de programação para jovens de até 17 anos. De 2014 para cá, já são sete unidades e 4.000 alunos. “Você não entra numa reunião sem números, sem insights. Nossos alunos não vão virar programadores, mas, sem dúvida, vão desenvolver capacidade analítica”, diz.

Enquanto isso, pensando nos bem novinhos, o britânico Filippo Yacob e o italiano Matteo Loglio criaram um brinquedo chamado Cubetto, para ensinar programação a crianças de 4 a 7 anos. Fabricado em Londres e ainda sem entrega no Brasil, o equipamento é composto por uma caixinha e um tapete colorido e não possui telas. Basta que a criança aperte uma sequência de botões para fazer o bloco se mexer de acordo com suas ordens – o análogo de escrever uma linha de código. “A programação deveria ser ensinada o mais cedo possível, da mesma forma que se ensina leitura ou matemática”, defende Yacob.

Primeiros passos

Para quem não tem acesso a uma escola como a MadCode ou não cresceu usando brinquedos como o Cubetto, a internet pode vir a calhar na hora de dar os primeiros passos no aprendizado de programação. O capixaba Gabriel Guimarães ajudou a traduzir um dos cursos de linguagem de programação da Universidade Harvard para o português, quando ainda estava no Ensino Médio. Hoje com 22 anos, Guimarães está prestes a se formar em Ciência da Computação na própria Harvard e trabalha no projeto de uma startup. “Computação é uma coisa muito autodidata. Existe muito conteúdo online, então dá para aprender se tiver um pontapé inicial”, diz.

O projeto Programaê, da Fundação Lemann e da Fundação Telefônica, é o responsável pela Hora do Código no Brasil e também traduziu conteúdos de sites gringos para os internautas daqui. O site recebe 150.000 acessos todos os meses. Por meio de uma rede de parceiros, o programa ainda ajuda iniciativas a favor da programação pelo país, incluindo projetos em escolas públicas. “Queremos proporcionar as ferramentas para que todo mundo que se interesse por esse tipo de conteúdo possa ter acesso”, diz Lucas Machado Rocha, coordenador de projetos da Lemann.

Um dos materiais traduzidos pelo Programaê foram os cursos do CodeCademy, um site que ensina programação por meio de atividades que têm o formato de jogos. Pioneiro no setor, o CodeCademy surgiu em 2011, quando os fundadores Zach Sims e Ryan Rubinski, então com 21 anos, ainda eram alunos na Universidade Columbia.

“O mercado para o que estamos fazendo não são programadores, mas pessoas comuns”, diz Zach. Hoje, o CodeCademy conta com 25 milhões de usuários, fechou parcerias com a Casa Branca e o Twitter e já recebeu um total de 45 milhões de dólares em investimentos.

O Brasil para trás

A organização Code.org, criadora da Hora do Código, estima que, até 2020, os empregos na área de computação irão dobrar, chegando a 1,4 milhão de vagas. Graduados em Ciência da Computação têm o segundo melhor salário dos Estados Unidos, de acordo com um levantamento da Associação Nacional de Faculdades e Empregadores.

No Brasil, a média salarial de um programador é de 2.461,53 reais, e os vencimentos podem passar de 5.000, segundo o site de vagas de emprego Catho. Por outro lado, a Associação para a Promoção da Excelência do Software Brasileiro estima que, até 2020, faltarão mais de 400.000 profissionais para preencher as vagas de Tecnologia da Informação.

Devemos colocar programação como disciplina obrigatória nas escolas imediatamente? Talvez. Mas não agora. Apesar da importância de alfabetizar digitalmente as crianças, é difícil pensar em incluir programação no currículo em um país em que 48% das escolas públicas ainda nem sequer têm computadores, ao passo que outras 59% não disponibilizam acesso à internet.

Para o professor Mike Tissenbaum, do laboratório de criação de aplicativos do MIT, não basta aprender programação apenas porque “as pessoas dizem que é importante”. O cientista argumenta que a programação só faz sentido quando se conecta com a realidade de cada um e gera independência.
“A habilidade de identificar um problema no dia-dia e construir uma solução para ele é libertadora”, diz. E não importa se a pessoa está efetivamente escrevendo os códigos ou não: sabendo um pouco de programação, já é possível interagir melhor com programadores e outros profissionais que estejam desenvolvendo um projeto digital em uma empresa, por exemplo.

“Qualquer conhecimento é válido, e programação ensina raciocínio, muitas habilidades interessantes. Então, é importante que a criança tenha algum contato, mas como um hobby, uma optativa, se ela tiver interesse”, diz a professora Luciana Ruffo, do Núcleo de Pesquisa em Psicologia em Informática da PUC-SP. É para garantir acesso a esse mundo que as seis empreendedoras da foto que ilustra essa reportagem criaram o Programaria (nenhuma delas, por sinal, se chama Maria; são, da esquerda para a direita: Luciana Fernandes, Daiana Buffulin, Iana Chan, Patricia Jenny e Luciana Heuko).