O empreendedor dos gadgets se encontrou na Multilaser

Em uma década, o administrador Alexandre Ostrowiecki, ao lado do sócio, Renato Feder, transformou uma empresa de reciclagem de cartuchos uma fabricante de smartphones, tablets e GPS que faturou 770 milhões de reais em 2012

São Paulo – Em 2003, o empreendedor Alexandre Ostrowiecki estava com 24 anos quando herdou inesperadamente o comando da Multilaser, uma pequena empresa que fazia reciclagem de cartuchos de impressoras. O negócio havia sido fundado em 1987 por seu pai, que desapareceu durante uma atividade de mergulho no oceano Pacífico.

Na época da tragédia, suas irmãs eram adolescentes e não se interessaram pela empresa. Ostrowiecki, então, comprou a parte delas e chamou um amigo de infância, o administrador Renato Feder, para ser seu sócio. Neste depoimento a Exame PME, Ostrowiecki, hoje com 35 anos, conta como os dois transformaram a Multilaser numa fabricante de eletrônicos com 2.700 funcionários e quase 2.000 produtos no catálogo.

“Meus avós eram judeus poloneses que passaram a Segunda Guerra em campos de concentração. Depois da guerra, eles se casaram na Alemanha, tiveram meu pai e em seguida vieram para o Brasil. Posso dizer que minha família veio do nada mesmo. Eles chegaram aqui em 1950 sem um centavo no bolso, sem falar português, sem parentes vivos. 

O primeiro negócio do meu avô foi um comércio, depois ele montou uma casa de câmbio e, por fim, uma agência de turismo. Meu pai, Israel Ostrowiecki, formou-se em engenharia e trabalhou um tempo em construtoras, mas seu sonho era ter o próprio negócio. Assim, em 1987, ele fundou a Multilaser.

No início, a empresa importava copiadoras da Xerox, que eram novidade no mercado. As vendas iam bem, o problema eram os cartuchos de tonner, que custavam quase o preço da própria máquina. Meu pai, então, começou a pesquisar opções mais baratas, até que descobriu que nos Estados Unidos estava nascendo uma tecnologia de reciclagem de cartuchos.

Uma das pessoas com quem ele entrou em contato se mostrou disposta a ensiná-lo, só que ela morava numa cidadezinha na fronteira com o Canadá. Quando chegou lá, a primeira coisa que meu pai fez foi comprar casacos e uma caneca de café. Assim que aprendeu a tecnologia, voltou para o Brasil e transformou a Multilaser na primeira empresa de reciclagem de cartuchos da América Latina.


Conservo essa caneca até hoje. Para mim, é o “marco zero” da Multilaser. A empresa prestava um serviço no começo: recolhia o cartucho do cliente, reciclava, e depois devolvia para o mesmo cliente. Com o tempo, a empresa fechou parcerias com papelarias e lojas de informática para revender os cartuchos já reciclados.

Em 2002, meu pai me chamou para trabalhar com ele. A Multilaser já estava com 15 anos, ainda era relativamente pequena, mas não era mais uma microempresa. Tinha uns 200 funcionários e faturava em torno de 30 milhões de reais. Eu estava com 23 anos, era formado em administração e trabalhava numa grande consultoria, mas aceitei o desafio.

Nos primeiros meses, fiquei totalmente perdido. Nem sequer sabia preencher uma nota fiscal! Ao longo do ano, fui conhecendo a empresa e pegando o serviço. Tive a sorte de ter um pai que me delegava muita coisa. Tanto é que fiz a primeira missão internacional da empresa. Mal tinha entrado e já fui para a China.

Depois assumi mais responsabilidades e passei a cuidar das importações e da parte financeira. um dos hobbies de meu pai era a prática de mergulho. Em 2003, ele foi para a Costa Rica participar de um mergulho em alta correnteza no oceano Pacífico. Dos 12 mergulhadores, dois não voltaram. Meu pai era um deles.

Eu estava no escritório quando recebi a notícia e fui imediatamente para lá. Depois de uma semana, a Guarda Costeira encerrou as buscas e eu voltei ao Brasil com o dilema do que fazer com a empresa. Não sei se agi certo, mas a primeira coisa que fiz quando voltei foi jogar fora a mesa do meu pai e colocar a minha no lugar.

Com esse gesto, tentei passar aos funcionários a ideia de que não haveria um vácuo na gestão da empresa. Depois, chamei os responsáveis de cada área, peguei o compromisso de cada um deles e consegui que a transição não fosse traumática. 

Minhas irmãs não quiseram saber do negócio — uma estava com 21 anos e morava nos Estados Unidos; a outra, tinha 12. Então, juntei minhas economias e comprei a parte delas.


Três meses depois, resolvi que não queria tocar a empresa sozinho e convidei um amigo de infância, o Renato Feder, para ser meu sócio. Ele topou e estamos juntos até hoje. O Renato também é formado em administração e na época trabalhava numa grande empresa.

Em 2004, as vendas de cartuchos haviam estagnado e começavam a cair. Foi quando resolvemos trabalhar com outros produtos de informática. Os notebooks e os computadores pessoais estavam se popularizando, e todo esse público precisaria de acessórios. Fomos para a Ásia em busca de fornecedores e lançamos uma linha de suprimentos, como caixas de som, mouses, microfones, CDs e DVDs.

Além dos artigos de informática, passamos a investir em eletrônicos. Os primeiros produtos foram uma câmera digital e um tocador de MP3. Depois continuamos lançando mais eletrônicos, sempre algo interessante para nossos clientes venderem. Nossos clientes aceitaram bem a ampliação do catálogo e deixamos de depender de apenas um produto.

Em 2007, para ganhar escala, desativamos a unidade de cartuchos de São Paulo e inauguramos uma fábrica no município de Extrema, em Minas Gerais. Uma semana antes da abertura da fábrica, um grupo armado roubou todo o nosso estoque. Como ainda não tínhamos contratado seguro, tivemos de recomprar a mercadoria. Apesar do prejuízo, superamos o baque.

Ainda importamos componentes da Ásia, mas fazemos uma série de processos na fábrica, como inserção de componentes, montagem, testes, gravação dos sofwares. Até aprendi a falar mandarim para negociar a importação da China e escolher melhor os fornecedores.

Também aperfei çoamos constantemente a logística e o pós-venda. Temos cerca de 20 .00 clientes em todo o país. É muito dinâmico o mercado de eletrônicos e acessórios de informática. Temos de buscar novidades o tempo todo para dar conta da evolução da tecnologia.

Hoje, a Multilaser é uma máquina de lançamentos. Não vendemos bens duráveis e focamos produtos compactos voltados para um grande público. Costumo brincar que um produto só pode fazer parte do catálogo da Multilaser se puder cair no pé sem machucar.

Foi com essa flosofia que ampliamos a linha de produtos para quase 2 000 itens, como pen drives, roteadores, aparelhos de som para carro, GPS, tablets, smartphones. A história da Multilaser é uma história conjunta minha e do Renato.

Não tenho mérito sozinho pelo sucesso da empresa. Nos últimos dez anos, a única coisa que fiz sem a ajuda dele foi jogar fora a mesa de meu pai. No geral, eu cuido de compras e processo; e o Renato, de vendas e fabricação. Mas todos os gestores respondem para mim e para ele.

Se um der uma ordem, o outro sabe que essa ordem está dada. Por outro lado, um projeto não sai do papel sem que os dois concordem. O negócio deu certo porque nossa sociedade está baseada em absoluta confiança e porque fomos ousados e cautelosos ao mesmo tempo. Nenhum projeto colocou a empresa em risco.

Acabamos de lançar a marca Multikids para testar o mercado de brinquedos. A meta é levar a Multilaser a faturar cerca de 1 bilhão de reais neste ano. Decidimos que parentes não trabalham na empresa. Futuramente queremos deixar uma política de sucessão para nossos filhos. É bom quando um filho assume a empresa, desde que esteja preparado para isso e seja algo que ele queira.”