O e-commerce chegou ao churrasco

Dono de uma construtora, com experiência também em varejo, Rodrigo Tragante fez do hobby um novo negócio, abrindo, em 2015, o Beef Club do Brasil

Rio de Janeiro Até pouco tempo, o médico e empresário carioca Rodrigo Tragante, um “carnívoro irremediável”, era daquele tipo de cliente que dá prejuízo para as churrascarias. Nos últimos anos, porém, ele tornou-se mais seletivo.

O glutão deu lugar a um consumidor mais atento, que hoje diz preferir apenas carnes nobres, em menor quantidade. Mais do que isso.

Tragante identificou uma tendência, reforçada ainda mais com a Operação Carne Fraca, que revelou várias irregularidades em frigoríficos: a procura cada vez maior do consumidor brasileiro por carne de qualidade, mesmo em tempos de crise.

Dono de uma construtora, com experiência também em varejo, Tragante fez do hobby um novo negócio, abrindo, em 2015, o Beef Club do Brasil, um dos primeiros sites de carne premium do Brasil.

“As grandes redes de supermercados sempre ficaram restritas ao comércio dos chamados cortes primários de carne. Quem queria comprar carnes mais nobres simplesmente não tinha onde ir”, diz o Paulo Tadeu de Oliveira, consultor em gestão de carnes. Com o tempo, explica Oliveira, os açougues mais sofisticados ganharam espaço e hoje ocupam 20% do mercado.

Tragante viu nessa mudança uma oportunidade, e investiu em atendimento para tentar encontrar seu filão. A primeira ideia foi um clube de assinatura.

“Quebrei a cara. Em dois meses, consegui apenas meia dúzia de assinantes”. Como o investimento em e-commerce era baixo (com apenas 10.000 reais ele criou a marca, abriu um site e começou a operar), Tragante seguiu em frente, dessa vez apostando na venda de carnes nobres pela internet. Descobriu um filão de vendas poderoso, que abastece justamente esse cliente desgostoso com a falta de bom atendimento nas butiques.

Segundo o empresário, o Beef Club cresce 10% ao mês por aproveitar uma lacuna no mercado de carnes nobres, que não são encontradas nas redes de supermercado. “Somos um empresa primordialmente de e-commerce, em que os clientes fazem os pedidos pelo site e recebem em casa”, diz Tragante. Ele explica que existem cortes congelados e resfriados, acondicionados em embalagens térmicas. Quase 100% delas seguem via motoboy.

As entregas são todas feitas as sextas-feiras. A não quer que haja um pedido de urgência. “Concentramos as entregas para o mesmo dia com finalidade de enxugar os custos, já que os churrascos quase sempre são feitos aos fins de semana”. A dificuldade, neste caso, é que a internet não lhe dá a escala possível em outros produtos – fica difícil, por exemplo, entregar uma picanha a centenas de quilômetros de distância.

Em busca de mais crescimento, Tragante mudou de novo sua estratégia, e abriu um quiosque no Casa e Gourmet Shopping, em Botafogo, na zona sul do Rio. O plano é que os canais se misturem.

O cliente vê as carnes no site e vai à loja fazer a compra. Ou vai na loja, vê os produtos e depois faz o pedido por e-mail ou Whatsapp. Também pode fazer o pedido por e-mail, acrescentar outros produtos pelo Whatsapp e efetuar o pagamento por via eletrônica no site.

Por enquanto, Tragante não tem concorrentes no Rio. As butiques que vendem carne contam com páginas nas redes sociais, mas não é possível fazer a compra utilizando apenas o e-commerce.

Em São Paulo, existe a Sociedade da Carne, esse sim totalmente integrado ao sistema, mas restrita apenas a assinantes. Açougues como Feed e Debetti também têm entrega, mas ela funciona como um apoio ao negócio tradicional, e não o contrário.

Tragante quer aproveitar o ineditismo para crescer o mais rápido possível e estar pronto para disputar com os concorrentes que certamente surgirão.

“As pessoas estão se tornando chatas, no bom sentido. Foi-se o tempo em que o cliente queria apenas se empanturrar de comida. Agora a busca é pela qualidade”.