NotCo, da não-maionese que conquistou Jeff Bezos, acelera no Brasil

A chilena The Not Company, que aplica inteligência artificial a alimentos à base de plantas, anuncia neste mês presidente e parceiro de produção brasileiros

Comidas à base de plantas não estão mais restritas ao Vale do Silício — você já pode encontrá-las nos corredores de supermercados brasileiros. Se passar pela prateleira das maioneses, poderá ver produtos da startup chilena The Not Company. 

A “não-maionese” da companhia, que leva de grão-de-bico à sementes de mostarda e vinagre de uva, é comercializada em 185 unidades da rede varejista Pão de Açúcar. Mas a startup chilena busca conquistar uma fatia maior do grande mercado consumidor brasileiro. Para isso, anunciou a EXAME sua profissionalização no país.

O primeiro passo para se firmar por aqui foi contratar Luis Augusto Silva, que fez carreira como executivo na Danone, como presidente da The Not Company no Brasil. O segundo passo será fechar parcerias para produzir a “não-maionese” em solo brasileiro — e, futuramente, outros produtos a base de plantas.

Expansão brasileira: novos produtos

A Danone, fundada há 100 anos em Barcelona (Espanha), apostou cedo no crescimento do mercado de emulação de produtos animais a partir de ingredientes vegetais. Silva trabalhou por 13 anos da gigante e participou da integração entre a Danone e a White Waves, fabricante de produtos como iogurte a base de plantas adquirida pela gigante alimentícia em 2016. 

“Vi como essa startup crescia dois dígitos por ano e me conectei a esse mercado. Era uma tendência puxada pelo consumidor”, afirma Silva. Sua experiência como diretor da unidade de bebidas vegetais e leite longa vida da Danone no Brasil também influenciou em sua escolha como presidente brasileiro da The Not Company.

Luis Augusto Silva, presidente da The Not Company no Brasil Luis Augusto Silva, presidente da The Not Company no Brasil

Luis Augusto Silva, presidente da The Not Company no Brasil (The Not Company/Divulgação)

A NotCo, como é mais conhecida, substitui produtos como carne, ovo e lácteos para preservar o meio ambiente, mas sem prejudicar a conexão emocional gerada pelo sabor dos produtos originais. A NotCo começou a vender no Chile, chegou ao Brasil em abril deste ano e anunciou neste mês a entrada na Argentina.

Cada produto é diferente de acordo com o país onde é vendido, segundo Silva. A “não-maionese” brasileira leva um grão-de-bico próprio ao país e extrato de acerola, por exemplo. “Mais do que uma empresa multinacional, somos multilocal”. São 13 funcionários administrativos no Brasil, de um total de 40 globalmente. Com as fábricas, o número total sobe para 150 membros.

No país de origem, a NotCo não vende apenas a “não-maionese”, mas também o “não-leite” e o “não-sorvete”. Tais produtos, provavelmente, serão os próximos lançamentos da chilena no Brasil. A startup também pensa em produzir emulações de queijo e de hambúrguer. 

Na última seara, não faltam concorrentes internacionais e locais. A Impossible Foods, startup californiana criada quatro anos antes da NotCo, é especializada em hambúrgueres feitos à base de plantas — o sangue da carne, por exemplo, é replicado com beterrabas. A Impossible Foods já obteve 387,5 milhões de dólares em investimentos, ou 1,46 bilhão de reais. Outra startup do segmento, a Beyond Meat, estreou no mercado acionário neste ano e atingiu um valor de mercado de nove bilhões de dólares. A brasileira Fazenda Futuro foi avaliada em 100 milhões de dólares, após receber um aporte para sua fórmula de hambúrguer vegetal.

As grandes redes de alimentação também estão tentando oferecer alternativas alimentares. O fast food americano McDonald’s já criou um lanche vegetariano, com queijo coalho no lugar do hambúrguer. A brasileira Marfrig criou seu próprio hambúrguer vegetal e o vende em redes como o também fast food americano Burger King.

O não-hambúrguer da The Not Company O não-hambúrguer da The Not Company, provado anteriormente por EXAME

O não-hambúrguer da The Not Company, provado anteriormente por EXAME (Ian Scabia/The Not Company/Divulgação)

Produção e expansão

Novos produtos pedem uma nova produção. A NotCo está conversando com indústrias próximas à cidade de São Paulo para, neste mês, começar a produzir localmente sua não-maionese. Até o final do ano, terá outros alimentos à base de plantas por aqui. Com o aumento da demanda, os parceiros devem dar lugar a uma fábrica própria da NotCo.

Segundo Silva, dificuldades tributárias e logísticas estimularam a decisão pela produção local. Como EXAME reportou anteriormente, um dos maiores desafios da empresa é aumentar a vida útil de seus produtos nas prateleiras. A não-maionese possui validade de oito meses, se permanecer fechada e bem armazenada. Mais um desafio será integrar tais produtos com o delivery de restaurantes e supermercados, contornando o tempo fora da geladeira e o agitamento do produto durante o trajeto em motocicletas.

O Brasil deverá ser o maior mercado da NotCo na América Latina. Na virada para 2020, a empresa também expandirá ao México e aos Estados Unidos — este último o maior mercado global para a startup chilena. O primeiro cliente da NotCo em solo americano é a gigante de tecnologia Google, em acordo de food service já firmado.

A história da não-companhia

Cerca de um bilhão de pessoas dependem da criação e produção animal para sua sobrevivência e a demanda por tais alimentos deve crescer 70% até 2050, segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura. Em 2017, 323 milhões de toneladas de carne foram produzidas globalmente, número que deve chegar a 367 milhões de toneladas nos próximos dez anos. O Brasil é um dos cinco maiores produtores de carne do mundo, ao lado de China, Estados Unidos, União Europeia e Rússia.

Porém, há consequências graves dessa atividade na sobrevivência do planeta. O setor ocupa um terço das terras aráveis em todo o mundo, com a decorrente degradação de 20% dos pastos e de 70% das áreas sem vegetação. A criação e produção animal usa um décimo do consumo total de água por humanos no mundo e gera poluição pelo uso de fertilizantes, hormônios e pesticidas ou pela emissão de gás carbônico em uma taxa maior do que a vista combinando todas as emissões de meios de transporte.

A The Not Company foi criada há quatro anos pelo economista Matías Muchnick, pelo cientista da computação Karim Pichara e pelo especialista em biotecnologia Pablo Zamora. A startup possui um algoritmo por trás de seus alimentos à base de plantas. Giuseppe, o robô, analisa alimentos em nível estrutural e cruza informações de tabelas nutricionais, revistas científicas e os próprios testes em laboratório da startup chilena. Ao usar as informações corretas, replica sabores, texturas e consistências vistos nos produtos de origem animal. Há muito material para ser usado: o mundo possui 300 mil espécies de plantas comestíveis, mas só consumimos 200 delas.

Karin Pichara, Matías Muchnick e Pablo Zamora Karin Pichara, Matías Muchnick e Pablo Zamora

Karin Pichara, Matías Muchnick e Pablo Zamora (The Not Company/Divulgação)

A NotCo começou com um investimento de 250 mil dólares dos três fundadores. No final de 2017, obteve um investimento de 3 milhões de dólares do fundo KaszeK Ventures, criado pelos fundadores do marketplace Mercado Livre. A startup obteve um investimento de 30 milhões de dólares de nomes como Jeff Bezos no início de março. O criador do comércio eletrônico Amazon possui uma fortuna de 131 bilhões de dólares, segundo a revista Forbes

Seu capital foi usado para o desenvolvimento de produtos e para a expansão da startup chilena pela América Latina e pelos Estados Unidos. Inclusive no Brasil, como vemos agora.