Lyft se compara a startups para deslanchar IPO. E até a Uber sai ganhando

Empresa de carros compartilhados espera que sua avaliação seja mais sobre seu potencial do que sobre seus resultados financeiros

A Lyft, segunda maior empresa de carros compartilhados dos Estados Unidos, finalmente começa a agir quanto à sua oferta pública inicial de ações, ou IPO. Na reta final, o plano do aplicativo é conquistar investidores de startups — mais acostumados a avaliar negócios pelo seu potencial do que pelas últimas linhas de um balanço financeiro. Diante dos resultados da empresa de carros compartilhados, faz todo sentido se aproximar das startups. E poderá ser um sinal para a rival Uber fazer o mesmo.

A Lyft espera captar dois bilhões de dólares, com uma avaliação da empresa entre 21 e 23 bilhões de dólares (na cotação atual, de 80 a 87 milhões de reais). De acordo com o site Crunchbase News, a procura de investidores foi além da esperada e pode até mesmo fazer o valuation aumentar.

O otimismo pode ser, em partes, atribuído ao discurso de bancos como Credit Suisse e JPMorgan, que estão por trás do IPO. Eles comparam a Lyft a plataformas de mediação como a loja online de moda luxuosa Farfetch e o site de compra e venda Mercado Livre, de acordo com o site americano Business Insider. Outras equiparações são feitas a empresas online que começaram pequenas e se tornaram gigantes, como Netflix, e softwares que se transformaram em redes para conectar usuários, como Facebook e Google.

A Lyft revelou seus planos de oferta pública inicial em dezembro do ano passado, pouco antes da rival Uber. O IPO está marcado para o final deste mês, na bolsa americana Nasdaq. As empresas com as quais a Lyft se compara terão grande influência na avaliação dos investidores sobre seu preço por ação no IPO, cada vez mais próximo.

A Lyft ainda não opera no Brasil. Enquanto isso, para a Uber, a cidade de São Paulo é a que mais usa suas corridas em todo o mundo.

De Farftech a Netflix

Como a rival Uber fará sua oferta pública inicial de ações depois da Lyft, a empresa não usará a rival como comparação. A primeira leva de inspiração da Lyft serão startups que atuam no modelo de marketplace, conectando vendedores a compradores de produtos e serviços.

Estão na lista o aplicativo americano de entrega de comida Grubhub, com uma avaliação de mercado de 6,4 bilhões de dólares; o comércio eletrônico português de moda de luxo Farfetch, avaliado em 8 bilhões de dólares; a plataforma americana de artesanato Etsy, com 8,2 bilhões de dólares em valor de mercado; o site argentino de compra e venda Mercado Livre, avaliada em 21,8 bilhões de dólares; e a plataforma de reservas de hotéis e passeios Booking, com market cap de 79,4 bilhões de dólares.

Outra equiparação será feita com empresas baseadas na internet e de alto crescimento, como o serviço de streaming de séries e filmes Netflix, com valor de mercado de 156,6 bilhões de dólares.

Uma última comparação, ainda mais ousada, será com companhias de software que cresceram por meio de sua habilidade em conectar usuários. É o caso da rede social Facebook, avaliada em 461 bilhões de dólares, e a Alphabet, empresa-mãe do Google, com market cap de 835 bilhões de dólares.

Contas de startup

A comparação com empresas que são ou foram startups faz sentido olhando os últimos resultados da Lyft, que terminou no vermelho e aposta em seus futuros projetos para se tornar lucrativa.

O principal trunfo da empresa não está nos números financeiros. A Lyft faturou cerca de 2,2 bilhões de dólares em 2018 e teve prejuízo de 1 bilhão de dólares, sobretudo por dar descontos para atrair passageiros na competição com a Uber. Segundo o Crunchbase News, a Lyft espera operar com uma margem Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de 20%, porcentagem que não é das mais saudáveis. Nos últimos dois bimestres, a Lyft reportou as maiores perdas de sua história.

Mesmo assim, negócios como Grubhub, Netflix ou Facebook geralmente possuem múltiplos de retorno (avaliação de mercado dividida pela receita de uma empresa) superiores aos vistos na indústria automotiva, analisa o Business Insider. Isso quer dizer que, se a Lyft entrar para o grupo de negócios inovadores, poderá pedir muito mais de seus investidores em troca das mesmas receitas de uma empresa tradicional.

Na General Motors, um investidor precisa investir 6,87 dólares para a empresa obter 1 dólar de receita. O múltiplo da Ford está em 9,31. Enquanto isso, a Farftech teve um valor de mercado 16 vezes maior que sua receita de 2017 e 10 vezes maior do que sua receita de 2018. Na Grubhub, esse múltiplo explode para 90,31. Levando-se em consideração a receita de 2,2 bilhões de dólares da Lyft no ano passado, o IPO a avaliaria em um múltiplo de 9,54 a 10,45 vezes.

Para justificar o investimento e colocar-se como vanguarda, a Lyft lançou em janeiro de 2018 seu serviço de carros autônomos. O projeto da Lyft ainda é experimental, mas nos primeiros oito meses completou cinco mil corridas. Outra oportunidade está no investimento em novos modais de transporte, como patinetes, bicicletas elétricos e o que vier pela frente.

Quem também faz tais investimentos é a rival Uber. O negócio gastava 20 milhões de dólares por mês em sua unidade de carros autônomos, esperando uma frota de 75 mil veículos nas ruas até 2022. Investidores como o Vision Fund, do conglomerado japonês SoftBank, estariam negociando um aporte de um bilhão de dólares na unidade de carros autônomos da empresa de mobilidade, avaliando o braço em 5 a 10 bilhões de dólares.

Em 2018, a Uber reportou 50 bilhões de dólares em corridas, mas perdas de 1,8 bilhão de reais. São volumes movimentados e prejuízos maiores do que os vistos na Lyft, e por isso a Uber espera ser avaliada em nada menos que 120 bilhões de dólares em seu IPO.

Restam poucos dias para a Lyft convencer os investidores de que passa seu tempo livre ao lado do pessoal do Vale do Silício, e não com as clássicas Ford e General Motors. Se a Lyft conseguir, a Uber terá luz verde para seguir o mesmo caminho. Para ambas, comparar-se a empresas históricas parece um mau negócio.