Indústria de tecnologia renasce em Nova York

Nos últimos anos, a cidade vem discretamente passando por uma transformação industrial de alta tecnologia

Nova York – Em uma tarde no fim de setembro, um submarino foi lançado em Governors Island. A embarcação não tripulada de 45 kg balançou nas ondas por alguns minutos antes de mergulhar brevemente, voltando então para a doca.

Brian Wilson parecia um pai preocupado assistindo ao filho nadando sozinho pela primeira vez. “Não há GPS debaixo d’água. Ele nem sempre sabe onde está”, disse ele.

O submarino, projetado e construído por uma empresa chamada Duro UAS, sediada no Bronx, é um “veículo autônomo subaquático”, embora, por enquanto, não seja completamente autônomo, pois depende de um cabo de controle que o liga a um operador em terra.

Wilson, o presidente da Duro, espera vender esses submarinos dentro de alguns anos para ajudar autoridades, engenheiros de pontes e organizações ambientais sem fins lucrativos – o que o setor gosta de chamar de “tecnologia azul”.

Resumindo: drones subaquáticos estão sendo construídos, do zero, no sul do Bronx. Quem disse que a fabricação em Nova York está morta?

E a Duro está longe de estar sozinha. A Honeybee Robotics constrói equipamentos para os rovers de Marte no Brooklyn Navy Yard. A Rosco Vision Systems faz câmeras retrovisoras para ônibus no Queens. Aquelas telas de vídeo gigantes que começam a aparecer em estações de metrô? A Boyce Technologies as produz em uma fábrica de alta tecnologia em Long Island City.

Já faz muito tempo que “Nova York” e “fabricação” não são vistas juntas na mesma frase sem palavras como “decadência”, “poluição” e “perda de emprego”.

Mas, nos últimos anos, a cidade vem discretamente passando por uma transformação industrial. De acordo com um relatório da Industrial Trade and Assistance Corp., com pesquisa financiada pela Empire State Development, o ano de 2015 foi o primeiro em décadas no qual Nova York não viu uma queda nos empregos na manufatura.

Esses postos de trabalho, entretanto, não estão em fábricas escuras e fumarentas como as de antigamente. Eles são de alta tecnologia e, até agora, não automatizados, exigindo habilidades humanas sofisticadas para lidar com inovações como impressão 3D e moldagem computadorizada – que essencialmente utiliza brocas e tornos robóticos – para produzir pequenos lotes de produtos projetados com precisão.

Nas instalações da Boyce Technologies, que ocupa uma antiga fábrica de fragrâncias, os funcionários trabalham ao lado de enormes robôs de precisão, fazendo de tudo, desde porcas e parafusos personalizados até suas próprias placas de circuito; eles fazem até mesmo os conectores de plástico de cabos de maquinário. “Realmente, queremos trazer a manufatura de volta aos EUA”, disse Charles Boyce, presidente da empresa.

A Duro foi fundada em 2015 por Wilson e Gabriel Foreman, que se conheceram quando trabalhavam em uma empresa de consultoria em Manhattan.

Desde bem jovem, Wilson, que cresceu nas proximidades de Nova Jersey, ficou fascinado pelo Porto de Nova York, especialmente pelo mundo complexo sob sua superfície. Ele se lembra de pensar: como você controla as fundações de uma ponte nas correntes escuras, frias e rápidas do East River?

“O Porto de Nova York e Nova Jersey é um dos melhores do país. Esta é uma cidade marítima enorme, mas as pessoas nem sempre percebem isso”, disse Wilson.

Wilson e Foreman já tinham visto amigos brincando com drones aéreos, e começaram a se perguntar se não havia uma maneira de fazer um drone que funcionasse debaixo d’água. Os desafios são muito mais complexos: para começar, o operador geralmente não consegue ver um drone sob a água, por isso o dispositivo precisa ser verdadeiramente autônomo, usando sensores para se movimentar. E ele precisa conseguir se estabilizar em correntes poderosas e imprevisíveis.

Várias grandes empresas, muitas delas contratadas para a defesa, já contavam com produtos no mercado. Mas, para quem está fora das empresas militares ou de energia, esses produtos são extremamente caros, em geral custando bem mais de US$ 100 mil.

Wilson e Foreman fundaram a Duro para desenvolver um modelo mais barato, pelo qual governos municipais e grupos ambientais possam pagar.

O próximo passo óbvio teria sido se mudar para a Califórnia, onde estão os talentos da engenharia e o capital dos investidores. Mas a dupla percebeu que teria dificuldade em ser notada lá. “Nunca poderíamos fazer o que fazemos em San Francisco”, disse Wilson, o que implica que seu projeto se perderia na confusão.

As faculdades e universidades de Nova York têm bons departamentos de engenharia e Manhattan está cheia de investidores. Além disso, a infraestrutura incomum de Nova York tem suas próprias necessidades tecnológicas.

“Sem dúvida, operar em Nova York é ridiculamente caro. Mas nosso foco está no transporte público. Por estarmos no meio disso, podemos responder a questões urgentes de forma mais rápida, o que nos dá a capacidade de pegar trabalhos de concorrentes maiores que não são tão ágeis”, disse Boyce, cuja empresa projeta e constrói equipamentos de comunicação para as linhas de metrô da cidade.

Determinados a fazer a Duro dar certo em Nova York, Wilson e Foreman reuniram algum dinheiro de parentes e, juntamente com um investimento de US$ 150 mil da Quake Capital, empresa com sede em Manhattan, eles se estabeleceram na escola de engenharia do City College.

Para gerar receita até que o drone subaquático esteja pronto, a Duro vende o que chama de “sonde” – um pequeno tubo que flutua como uma boia e que contém um conjunto personalizável de sensores para rastrear itens como qualidade da água e temperatura.

Como o submarino, praticamente tudo no sonde é feito pela própria Duro, seja em uma impressora 3D ou em uma das várias fábricas com máquinas controladas por computador. Isso permite que a empresa vá do protótipo ao produto acabado de modo rápido e barato, podendo vendê-lo a um preço mais baixo.

E ela está crescendo. Dois anos atrás, a Duro se mudou do City College para um prédio no sul do Bronx; alguns meses depois, com o novo espaço rapidamente se tornando pequeno, mudou-se para um escritório maior no andar de cima. Apesar da bela vista do Rio Harlem, a nova sala de trabalho já parece apertada, repleta de novos funcionários e pilhas de peças.

Na narrativa convencional, Nova York seria uma história de sucesso pós-industrial, com o velho estilo de manufatura cedendo espaço à alta tecnologia e a indústrias criativas. Todas as fábricas outrora vazias no Brooklyn agora abrigam startups de software e espaços de co-working.

A Duro está entre esses dois. Mas, como fabricante, ainda tem um problema de imagem, disse Wilson. E isso afeta sua capacidade de recrutar e treinar adequadamente os funcionários.

“As pessoas pensam que a fabricação é suja, e essa imagem prejudicou a oferta de pessoas que podem querer entrar nela”, disse Adam Friedman, diretor executivo do Centro de Desenvolvimento Comunitário do Instituto Pratt.

Mas os postos na fabricação de tecnologia atuais exigem habilidades intensas e extensas; você não consegue assumir um cortador a laser controlado por computador depois de alguns turnos no trabalho. Boyce disse que leva um ano para treinar os funcionários da Boyce Technologies.

“O trabalho em fábrica não é o que costumava ser, e o sistema educacional tem de se ajustar em conformidade”, disse Miquela Craytor, diretora executiva da NYC Small Business Services.

Tanto o governo da cidade quanto o do estado vêm tentando mudar isso. O ApprenticeNYC, um programa da cidade, ajuda a treinar trabalhadores no uso de máquinas de alta tecnologia, enquanto o governo estadual financiou startups no Brooklyn Navy Yard.

Mas, para as empresas que precisam de força de trabalho, esses esforços não são suficientes. “As intenções são boas, mas são prejudicadas pela burocracia”, disse Boyce.

Uma resposta, pelo menos para algumas empresas, é fazer tudo por conta própria. Logo depois de fundar a Duro, Wilson e Foreman começaram a trabalhar com algumas das escolas e faculdades da cidade para promover um fluxo de trabalhadores. Um dos esforços da empresa, o Fundamentals of Fabrication – ou FunFab –, se dedica a encontrar alunos talentosos em partes carentes do Bronx.

Boyce tem programas semelhantes, e chegou a escolas como a LaGuardia Community College e a Queens Technical High School para preparar os alunos mais cedo para trabalhos de fabricação.

Mas para que essas empresas continuem a crescer, disse Boyce, elas precisam de assistência séria da cidade e do estado – sobretudo subsídios de emprego e treinamento.

“A marca ‘Made in New York’ (Feito em Nova York) é realmente valiosa na minha indústria, mas não é levada a sério pela cidade”, disse ele. “Quero que a cidade e o estado façam sua parte.”