In Loco: todo poder às máquinas

Isabel Seta 

Imagine sair do trabalho e voltar para uma casa que já está com as luzes da garagem acesas, o ar-condicionado ligado, o forno pré-aquecendo o jantar, a televisão no canal certo. Para os pesquisadores da computação ubíqua, a cena está perto de virar realidade. O termo, cunhado nos anos 1990 pelo cientista Mark Weiser, se refere a um momento tecnológico em que os computadores não estarão mais restritos a determinados ambientes, nem precisarão ser ligados e desligados, ou programados por nós. Eles serão parte de todos as atividades do dia-a-dia.

Chegar lá é mais difícil do que parece. Mais do que ter todos os seus dispositivos conectados entre si (a chamada “internet das coisas”), é ter dispositivos autônomos. Uma coisa é programar a cafeteira para ligar às 6h30. Outra é ela saber que você está saindo do banho. De olho nesse novo mercado, uma startup brasileira desenvolveu uma das tecnologias de geolocalização dentro de ambientes fechados mais precisa do mercado.

A In Loco Media nasceu de um projeto de alunos de ciência da computação da Universidade Federal de Pernambuco, em Recife, inspirados na teoria da computação ubíqua. “A ideia é ter, em todos os lugares, computadores com tanto conhecimento sobre o usuário final a ponto de se tornarem pró-ativos”, explica André Ferraz, CEO da In Loco.

“Identificamos que a primeira coisa necessária para ter um computador desses seria uma tecnologia de geolocalização bastante precisa. Testamos o GPS e vimos que ele não funciona em ambientes fechados, então começamos a criar a nossa própria ferramenta”.

A empresa foi criada em 2011, com a ambição de revolucionar a rotina de seus clientes. De lá pra cá, como costuma acontecer, precisou abraçar outros mercados mais palpáveis para conseguir pagar as contas. Hoje, a In Loco Media é uma empresa de publicidade digital que fatura 50 milhões de reais e tem escritórios em Nova York, São Francisco, Berlim, Londres e Buenos Aires.

O crescimento se deve à mesma tecnologia de geolocalização desenvolvida por André e seus colegas para chegar ao sonhado mundo ubíquo. Em 2014, eles levaram o quarto lugar em uma competição das melhores ferramentas de localização indoor promovida pela Microsoft.

Ao cruzar dados emitidos por dispositivos do próprio telefone, como sensores de wi-fi, acelerômetro (avalia a posição relativa do aparelho ao medir a aceleração), giroscópio (usa a gravidade da Terra para determinar a posição do celular) e magnetômetro (mede o campo magnético da Terra, funcionando como uma bússola), a tecnologia da In Loco consegue determinar a localização do smartphone do usuário com uma precisão de 1 a 3 metros. A margem de precisão do GPS, por exemplo, é de 9 metros. Para a publicidade digital, isso significa entregar o anúncio certo na hora certa para a pessoa certa.

“Com essa tecnologia, é possível saber que a pessoa está com seu celular na frente de uma loja e daí mandar o anúncio”, diz Ferraz. Em 2012, o potencial do negócio atraiu a atenção do grupo de mídia sul-africano Naspers, que virou sócio da In Loco, possibilitando que a empresa expandisse suas operações para São Paulo e começasse a conquistar mercado.

Hoje, a startup possui mais de 600 aplicativos parceiros que exibem os anúncios de diversas marcas, como Coca-Cola, Nestlé e Lojas Americanas, e recebem um percentual da receita gerada. Quando um usuário baixa um aplicativo parceiro da In Loco, ele concorda com os termos de uso que autorizam o acesso aos medidores de localização. “Conseguimos gerar dez vezes mais cliques que o Google ou o Facebook”, diz Ferraz. “Grandes marcas como Coca-Cola e Unilever, cuja maior parte das vendas são feitas em supermercados ou farmácias, não têm noção do tráfico que geram pelos anúncios”.

Saindo para o mundo

Com o sucesso no Brasil, a empresa começou sua expansão internacional neste ano, abrindo escritórios em vários países da Europa e da América. As operações estão mais avançadas nos Estados Unidos, onde a In Loco já alcança dez milhões de usuários — no Brasil, são 50 milhões.

Segundo Ferraz, em 2017 a In Loco deve abrir escritórios na Índia e em Singapura. Entre as metas para o ano que vem também está a captação de 20 milhões de dólares –atualmente, a startup está em fase de avalição de fundos e investidores. Nos Estados Unidos, o plano da In Loco é vender sua tecnologia para os gigantes da internet, como Google e Facebook, que atualmente são seus concorrentes.

Isso porque, como mostra o início de sua história, a empresa sempre encarou a publicidade como uma porta de entrada, um meio para provar o valor de sua tecnologia e, em última instância, para angariar fundos –a expectativa é triplicar o faturamento para 150 milhões de dólares até o final de 2017.

No momento, a In Loco está buscando parceiros para criar soluções via geolocalização, principalmente no setor financeiro. Há uma empresa de segurança da informação usando os dados da startup para criar aplicações antifraude (se um usuário passa o cartão em determinada loja, mas o celular dela não estava nesse local, pode se tratar de uma ação suspeita). Uma multinacional de crédito e pesquisa do consumidor também está desenvolvendo um algoritmo de cálculo de crédito para o consumidor com base nos dados da In Loco, que revelam as lojas que esse usuário frequenta, por exemplo.

Outras parcerias incluem estudos de gestão pública no Rio de Janeiro que usam as informações de localização para comparar o deslocamento de pessoas na zona sul e na zona norte para determinar onde pode ser construído o próximo hospital ou uma delegacia; e com empresas de robótica que querem dar autonomia de deslocamento para o robô –hoje, para um robô se movimentar é preciso lhe dizer qual é a rota e usar marcadores para que ele possa atualizar sua posição.

Mas objetivo final é aquele de sempre: criar uma plataforma para a computação ubíqua no mundo. “Começamos com uma meta bastante ambiciosa: usar a tecnologia para tornar o computador inteligente o suficiente para se tornar pró-ativo. Continuamos caminhando nessa direção, mas percebemos que não vamos conseguir dar conta sozinhos de todos os problemas que queremos resolver”, diz Ferraz. Para a In Loco, vale uma das máximas de Douglas Adams, autor do Guia dos Mochileiros das Galáxias: eu posso não ter ido para onde eu pretendia ir, mas eu acho que acabei terminando onde eu pretendia estar.