“iFood” da comida caseira planeja crescer 300% com arroz, feijão e bife

Com 46 cozinheiros ativos e uma fila de espera de mais de 3 mil, a startup brasileira entregou 80 mil marmitas para mais de 5 mil clientes ativos

A startup brasileira Eats for You quer recolocar a comida caseira na rotina de quem trabalha fora de casa. Com um modelo que conecta donos e donas de casa a possíveis clientes, a empresa já entregou mais de 80 mil marmitas desde que iniciou sua operação há um ano e meio. De um lado, ela oferece refeições mais saudáveis e baratas para os consumidores, do outro, ajuda donos de casa a conseguir uma renda de aproximadamente dois salários mínimos líquidos por mês.

O mercado de entrega de refeições está em alta com aplicativos como iFood e Rappi, que ligam restaurantes tradicionais a seus clientes. A Eats for You buscou um modelo que lhe permite crescer sem competir diretamente com os gigantes.

O projeto conquistou os fundos GvAngels e Bossa Nova Investimentos, que aportaram 767.500 reais em uma rodada que seguirá aberta até o primeiro trimestre de 2020. Kim Machlup, sócia do GvAngels, afirma que o fundo investiu 200 mil reais por acreditar no time empreendedor e no potencial de impacto social que a startup tem de gerar para os cozinheiros.

Ao final da rodada, a meta da companhia é levantar 1,5 milhão de reais para poder melhorar a tecnologia utilizada e expandir suas áreas de atuação. Hoje, as entregas estão presentes somente nos pólos empresariais das cidades de São Paulo, Barueri, Cuiabá e Curitiba.

Em 2019, a startup projeta faturar 1 milhão de reais. Para 2020, usando o capital recebido, o objetivo é aumentar o faturamento entre 300 e 500%, consolidar a marca no mercado para consumidores finais e expandir seus contratos com empresas.

Comida de casa no escritório

Nelson Andreatta, fundador da startup, teve a ideia de vender comida caseira no final de 2016, enquanto ainda administrava sua agência de publicidade em Cuiabá, no Mato Grosso. Durante um intervalo para almoço, percebeu que não queria mais comer nos restaurantes que frequentava há oito anos na região, mas sim poder comprar a comida que estava sendo feita por pessoas em casa naquela hora.

A partir desse desejo, ele e a sócia, Ester Scheffer, fundaram a Eats for You em setembro de 2017. Ao perceber o potencial do negócio, os fundadores decidiram vir para São Paulo para se posicionar no maior mercado do país. Antes de deixar Cuiabá, a empresa recebeu investimentos de amigos e familiares.

Além da confiança de conhecidos, logo no início a startup conquistou um importante parceiro comercial: a empresa de vale refeição Alelo. A companhia assinou um acordo de cooperação com a Eats for You, fornecendo informações sobre o mercado de alimentação no Brasil e criando um modelo piloto de pagamento com voucher online — em uma época que nenhum outro player do setor oferecia essa facilidade.

A operação começou a funcionar na região de Alphaville, em São Paulo, em fevereiro de 2018 e depois foi se expandindo pela capital. Hoje, são atendidas as regiões da Paulista, Berrini, Vila Olímpia e Pinheiros, além das cidades de Cuiabá e Curitiba. Segundo Andreatta, há 46 cozinheiros na plataforma, com uma lista de espera com mais de 3 mil candidatos, e mais de 5 mil usuários ativos.

Modelo de negócio

O primeiro modelo testado pelos sócios-fundadores foi o de entrega de comida caseira para consumidores finais (b2c). Para isso, a empresa precisou estruturar uma cadeia de produção de alimentos que respeitasse as normas sanitárias. O caminho encontrado foi exigir que todos os cozinheiros registrados fossem microempreendedores individuais, o que permite que a vigilância sanitária fiscalize suas cozinhas.

Além disso, a própria plataforma faz um controle de qualidade. Quando uma pessoa quer se registrar, ela precisa primeiro enviar fotos da sua cozinha e contar um pouco sobre o que gosta de cozinhar. Depois, funcionários da startup fazem uma visita na casa para verificar as condições da cozinha e experimentar a comida. Se tudo estiver de acordo com os padrões, a Eats for You auxilia o candidato a fazer o cadastro como MEI e, em um prazo de sete a dez dias, ele pode começar a oferecer refeições na plataforma.

Os “tios e tias”, que é como a companhia se refere aos cozinheiros, podem definir o preço de cada prato. O tíquete médio por refeição é de R$16,50 e a Eats for You fica com 15% a 20% do valor de cada transação realizada na plataforma. A empresa padroniza as embalagens e organiza a entrega, que é terceirizada. No geral, os cozinheiros trabalham das 8h às 11h da manhã de segunda a sexta.

Na outra ponta, os clientes têm acesso às opções de comida oferecidas no dia pelos cozinheiros, escolhem o que desejam e pagam pelo app. Um motorista busca os pedidos nas casas dos cozinheiros e leva até o ponto de retirada mais perto do consumidor. As refeições ficam disponíveis entre 11h30 e 14h e são entregues mediante a apresentação de um QR Code.

Os pontos de retirada foram o caminho que a Eats for You encontrou para reduzir o custo do delivery e, por consequência, o preço das refeições. Para que eles funcionem, é necessário ter um funcionário em cada ponto para organizar a entrega dos pratos. “São entregues 150 refeições em 1h ou 2h”, diz Andreatta.

Para o fundador, o centro do negócio é a sensação que o cliente tem de comer uma comida afetiva. “A Eats for You transforma a cozinha das pessoas em um grande negócio e o cliente sente isso, a comida vem de alguém”, comenta.

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Demanda empresarial

Quando a operação começou, os fundadores já miravam a possibilidade de adaptar os serviços para o atendimento de empresas (b2b). O próprio fundo Bossa Nova Investimentos, que aportou 245 mil reais na operação no começo de 2018, acreditava que a startup precisava apostar no nicho corporativo.

As atividades no segmento só começaram de fato há três meses, quando uma empresa multinacional os procurou para oferecer refeições de graça aos seus 50 funcionários em São Paulo. “Para a empresa é bom, pois ela não precisa construir um refeitório interno, e ela ainda gera um impacto social para a região”, diz o fundador.

Na prática, os funcionários têm acesso ao cardápio no aplicativo e podem escolher entre pratos que variam desde carne com batata até bacalhau, sempre com pelo menos uma opção vegetariana e vegana. A companhia é quem paga a conta.

Outro modelo existente é o que a empresa não compra as refeições, mas instala um ponto de retirada da Eats for You dentro de suas instalações, oferecendo as refeições a seus empregados, que podem comprá-las com o vale-refeição. “Nós reduzimos nossos investimentos em marketing e os funcionários ganham uma opção mais cômoda para o almoço”, diz Andreatta.

Por enquanto, a startup tem três clientes b2b e 12 que estão instalando o modelo com ponto de retirada interno.

João Kepler, sócio da Bossa Nova Investimentos, diz que o fundo voltou a investir 200 mil reais na startup nesta rodada por acreditar no modelo empresarial. “Não tem competição nessa área, o principal competidor é o vale e o restaurante do lado”, afirma. Com o novo aporte, um desafio é expandir o número de cozinheiros. Há 3 mil “tios e tias” na fila.