Gasto das PMEs com contabilidade pode dobrar com novas regras

A implantação das normas internacionais de contabilidade pode gerar custos adicionais; só as microempresas com faturamento de até R$ 36 mil/ano ficam de fora

São Paulo – A partir de dezembro, as pequenas e médias empresas já devem apresentar seu balanço com base nas normas internacionais de contabilidade. A mudança, segundo os especialistas, vai ajudar as empresas a se manterem mais organizadas mas também vai aumentar entre 50% e 100% os gastos com a contabilidade.

As normas internacionais, conhecidas como IFRS (International Financial Reporting Standard), já valem para as grandes empresas desde 2008. As PMEs tiveram um ano para se adaptar à nova regra mas poucas já estão realmente preparadas. “Isso vai ser um processo que vai demorar de 5 a 10 anos para ser implantado plenamente”, diz o contador Charles Holland, conselheiro da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (ANEFAC).

O que muda
O Conselho Federal de Contabilidade (CFC) editou no final do ano passado a Norma Brasileira de Contabilidade Técnica (NBC) – Contabilidade para Pequenas e Médias Empresas, com o objetivo de melhorar o controle da situação econômica e financeira das companhias e facilitar a administração dos negócios.

Por isso, agora as normas internacionais são também as normas brasileiras, o que indica que as empresas devem segui-las.  Segundo Sebastião Gonçalves, conselheiro do CRC-SP, todas as companhias estão obrigadas, com exceção do Microempreendedor Individual, que tem faturamento de até 36 mil reais por ano.

Para as demais pequenas e médias empresas muda quase tudo na contabilidade. “Mudou a forma de pensar a contabilidade. Agora precisa ter números reais”, explica Sérgio Bispo, professor dos Cursos Contmatic e consultor contábil. Isso quer dizer que as empresas precisam listar o valor real de seus bens. “Antes o empresário comprava em computador e precisava incluir o valor da nota por 5 anos, que era o período de vida útil do bem. Agora, é obrigado a colocar o valor real, o quanto ele vale hoje”, explica Bispo.

Antes as empresas só precisavam entregar o Balanço Patrimonial e a Demonstração de resultados. A partir de dezembro, entram no balanço mais três demonstrações: de resultado abrangente, de fluxo de caixa e das mutações do patrimônio liquido, além de notas explicativas. “Isso vai exigir uma mudança na postura do contabilista, que pode ser multado e até cassado se não cumprir a nova norma”, diz Bispo. Mesmo assim, a responsabilidade pelo balanço é também do administrador.

Para o Anderson Amorim, diretor da Domingues e Pinho Contadores, as pequenas e médias empresas não ligavam muito para a contabilidade até então. “Com a convergência contábil, os analistas têm hoje um instrumento muito mais seguro para comparar o desenvolvimento e a lucratividade dos negócios”, opina Amorim.

Bom ou ruim?
Entre os especialistas é fato que a mudança representa uma evolução na contabilidade brasileira que pode ser muito boa para as empresas de pequeno e médio porte. A transparência das contas e a chance de mensurar o mercado são os principais benefícios.

“Isso vai ser bom porque um relatório pode mudar uma vida. O empresário vai visualizar melhor o que tem e ser mais transparente para possíveis investidores”, defende Bispo. “Os empresários passam a contar com um instrumento que vai permitir a avaliação dos negócios, parceiros e fornecedores. Vai facilitar também na hora de pegar crédito”, avalia Amorim.

Apesar disso, os especialistas concordam que os custos com a contabilidade devem aumentar até 100%. “O contador vai ter que solicitar laudas, sair do escritório para contar cadeiras, computadores, estoque, caixa. Por isso, vai ficar mais caro”, diz Bispo. “Se a empresa for começar do zero com as novas regras, o custo pode dobrar facilmente”, diz Amorim. Segundo o executivo da Anefac, Charles Holland, os custos devem aumentar porque só a partir de agora essas empresas vão ter contabilidade para valer.