Foi uma ginástica para chegar lá

Edgard Corona nasceu para ser usineiro no setor de açúcar e álcool. Uma sucessão de eventos, que inclui tombo de esqui, um projeto desastrado e até pinguinha na praia, levou-o a dono de uma das academias mais bem-sucedidas do país

São Paulo – Não é porque é dono da Bio Ritmo, rede de academias paulistana, que Edgard Corona, de 58 anos, faz apologia da malhação pesada. “No Brasil, quem consegue se exercitar diariamente é um herói”, diz. “Nos Estados Unidos, o expediente acaba às 5 e, em poucos minutos, você está na academia. Aqui, as pessoas saem tarde, pegam condução cheia e chegam mortas em casa.”

Ele próprio não segue um treino impossível: exercícios aeróbicos e musculação, no mínimo três vezes por semana, mantendo os batimentos cardíacos altos por 45 minutos. Em 2009, ele inaugurou a Smart Fit, bandeira econômica do grupo, que oferece mensalidades a partir de 50 reais. “O empreendedor tem de ter um papel social”, diz. “O meu é ajudar a combater o sedentarismo.”

“Virei dono de academia por acaso. Estudei engenharia química para tocar uma usina de açúcar e álcool, localizada na região de Ribeirão Preto, no estado de São Paulo, que pertencia à minha família. Trabalhei lá 14 anos.

Quando os negócios passaram para a terceira geração, as disputas de poder entre os parentes tornaram as coisas difíceis. Sou um cavalo muito bravo para ficar sentado disputando poder. Pedi demissão.

Em 1984, eu tinha entrado na sociedade de uma escola de natação, em São Paulo. O projeto era de um professor de natação muito bom. Na época achei que tinha tudo a ver, pois eu nadava e jogava polo aquático. Foi uma resolução que tomei bebendo uma pinga na praia.

Tinha acabado de pedir demissão e andava muito cansado. Como a academia ainda estava em construção e era dezembro, resolvi viajar com meus filhos para uma estação de esqui nos Estados Unidos. Eu tinha me separado e fazia um tempão que não viajava com eles. A babá foi junto.

Depois de umas aulas, achei que estava esquiando bem. E me colocaram numa turma de salto. Descobri que não sabia saltar quando já estava no ar. Foi uma queda feia, que fez romper os ligamentos do joelho. Depois de uma cirurgia complicada, passei a fazer sessões de fisioterapia que levavam uma manhã inteira. Não dava para fazer mais nada. Resolvi ver como estava a maldita da academia, que nunca ficava pronta.

A academia finalmente inaugurou. Chamava-se Bio Ritmo. Tinha todos os defeitos do mundo. O arquiteto que fez o projeto não sabia nada. No banheiro masculino, por exemplo, os chuveiros foram dispostos em círculo para banho coletivo. Imaginou ter dez homens, um tomando banho pelado na frente do outro?

Contratei um consultor, que disse que não daria certo sem musculação. Fizemos outro pavimento para uma sala. Daí falaram que musculação sem ginástica não funciona. Erguemos mais um andar para acomodar a ginástica. Depois, apareceu outro consultor, que falou que precisava ter lutas.

Então instalamos o escritório dentro de um contêiner de lata, que ficou num estacionamento, para que o escritório virasse sala de lutas. No verão, parecia um forno micro-ondas. Esquentava pra burro. A cada meia hora tínhamos de sair de lá, porque não dava para trabalhar ali dentro.

A academia começou a dar certo depois que alugamos um lugar maior. Mas o imóvel foi desapropriado para passar o metrô. Nem fiz contas para saber quanto dinheiro foi perdido para não fi­car triste.

Como na vida não vem só coisa ruim, um desses consultores falou sobre um espaço no Conjunto Nacional (grande condomínio comercial e residencial de São Paulo) para alugar. Fui ver e resolvi tentar. Foi em 1996.

Minha mulher e eu fomos passear em Londres. Entramos em alguns restaurantes bonitos. Pensei: “Não quero uma academia com cara de academia, com aquele piso verde, lâmpada de padaria, espelho. Quero um negócio transado, que se pareça com esses restaurantes”.

Fui ao escritório do João Armentano (arquiteto badalado de São Paulo), expliquei uma porção de coisas e perguntei: “João, como você enxerga uma academia nessa linha?” Ele disse: “Vejo uma academia clean”. Então, tá. Mandei fazer.

A Bio Ritmo da Paulista ficou maravilhosa. Havia muito aço escovado, muito uso de madeira. As cores, a decoração — tudo era diferente. Show. Custou caro pra caramba. Mudou o paradigma do setor no Brasil. A partir dali, outras redes passaram a chamar arquitetos famosos.

Há coisas muito legais por aí. Sou fã de um cara chamado David Barton — um gênio. Fez umas academias diferentes de tudo o que já vi. Seu último trabalho foi em Nova York. Ele pegou uma igreja e a transformou em academia. Já pensou? Mandei um arquiteto lá olhar e ele quase ficou louco.

Descobri que fazíamos uma porção de coisas erradas. A pessoa chegava na recepção e pedia para conhecer. Um atendente explicava: isto é uma esteira, isto é um aparelho de musculação, isto é o vestiário, o preço é tanto, obrigado, até logo. O certo seria conversar e entender seus anseios e fazer perguntas do tipo: “Há quanto tempo você pensa em se exercitar? A decisão é sua ou depende de mais alguém?” E no final: “Então vamos começar. Só preciso de seu cartão de crédito”.

Chamei um americano para melhorar a fase da avaliação física. Ele falou para tirar medidas com o cliente vestido com a roupa de ginástica. Estávamos pegando uma pessoa fora de forma e mandando-a tirar a roupa. Daí vinha um professor malhado beliscá-la em 23 lugares com um compasso para informar que ela está acima do peso. O cliente não paga para ser ofendido.

Aí o professor manda fazer uns abdominais e diz que a pessoa está fora de forma. Por favor, me conte algo que eu não saiba. Não há nada que justifique essa cafajestada. Hoje dizemos “vamos trabalhar” e explicamos tudo: por que a respiração deve ser naquele ritmo e por que se ganha músculo ao aumentar a carga. Passa um tempo, a pessoa está durinha, perdeu alguns centímetros na cintura e está se sentindo melhor.

Comecei a me incomodar com o fato de que só 3% dos brasileiros estão matriculados em academias. Nos Estados Unidos, são 14%. Eu queria bolar uma rede que não fosse cara. Fui aos Estados Unidos ver umas com poucos tipos de equipamento, mais centradas em musculação, o que satisfaz 70% das pessoas. Eram horrorosas, com iluminação ruim e barulho.

Soube que é para que os clientes paguem as taxas, mas não tenham vontade de ir. Como são bem baratas, a maioria paga e só vai de vez em quando. Eu me recuso a fazer uma coisa feia dessas — na Smart Fit colocamos luz azul para dar um clima noturno, amarela para a pele ficar legal, cinza para atenuar. Está dando muito certo. A receita já é 70% do total. Daqui a cinco anos, deve ser 90%.

Depois da Bio Ritmo, aprendi muito sobre o ser humano. Li que todo mundo acorda com um estoque de força de vontade que vai esvaziando durante o dia. Você sai cedo de carro, leva uma fechada e não xinga de volta. Consome um pedacinho do estoque. É contrariado pelo chefe, mas não responde — mais um tanto do estoque. E por aí vai.

Ao sair do trabalho, vai para a academia. Chega lá, a catraca trava. É aquela música do Tim Maia: “Me dê motivo para ir embora”. O cara diz: “Não volto mais, cancela meu plano”. Quem vem de manhã, quando o estoque de força de vontade está cheio, não falta. Por isso, não damos treinos longos para a turma da noite.

Nos Estados Unidos, o trabalho acaba às 5 e em poucos minutos a pessoa está na academia. Aqui a pessoa vem e vai e volta socada na condução, chega em casa morto e vai acordar cedo para fazer ginástica? Quem faz isso é herói.”