Fintech brasileira de empréstimos recebe R$ 20 milhões de fundo americano

A BizCapital, que fornece financiamento a pequenas e médias empresas, recebeu um aporte para formalizar sua operação junto ao Banco Central

São Paulo – A startup brasileira BizCapital acaba de receber um novo aporte, em mais uma mostra do amadurecimento do mercado brasileiro de fintechs. O negócio especializado em empréstimos para micro e pequenas empresas brasileiras conquistou um investimento série A de 20 milhões de reais.

A injeção de capital foi liderada pelo Quona Capital, fundo de Washington (Estados Unidos) focado em startups financeiras localizadas em países emergentes, em estágio de tração. O fundo já investiu em outras fintechs brasileiras, como Creditas e Neon.

O investimento também conta com os fundos brasileiros Chromo Invest (que investiu também na Geru) e Monashees (que investiu também na Magnetis e na Neon), que já aportaram anteriormente na BizCapital.

Em comunicado, o Quona Capital diz acreditar que “o Brasil está no começo de uma reorganização de seus serviços financeiros” e que a BizCapital “é uma importante adição ao portfólio crescente de investimentos focados em empréstimos a pequenos negócios.”

A BizCapital informou que os 20 milhões de reais serão usados para agilizar os pedidos de empréstimos e obter a licença de operação como Sociedade Direta de Crédito (SDC), regulamentação anunciada pelo Banco Central em maio deste ano.

“Os pequenos negócios são a fundação da economia brasileira. Nossa missão é ajudar centenas de milhares de MPEs, ao mesmo tempo que construímos um negócio financeiro sustentável e com impacto social”, afirmou Francisco Ferreira, fundador da BizCapital. “Conversamos com nossos investidores toda semana e eles nos ajudam a atrair talentos e direcionar a estratégia. Temos investidores que atuam bastante com fintechs e conhecem bem os desafios e oportunidades do mercado.”

Histórico

A BizCapital foi fundada pelos empreendedores Cristiano Rocha, Daniel Orlean e Francisco Ferreira, que estavam interessados em ter uma fintech. “Começamos a pesquisar bastante sobre o tema e olhamos para fora do Brasil. No universo de empréstimo online, especialmente para pequenas empresas, vimos casos de sucesso como a Kabbage, que faz o processo de maneira muito automatizada e leva segundos para aprovar o crédito, e Credibly, que usa bancos de dados alternativos para avaliar as empresas”, contou Ferreira anteriormente a EXAME.

A BizCapital nasceu, então, com uma proposta similar: reduzir ao máximo o prazo que o micro e pequeno empresário brasileiro leva para conseguir empréstimos empresariais. Enquanto uma grande instituição financeira demora cerca de 30 dias para aprovar o crédito, o sócio afirma que a BizCapital consegue fazê-lo em até cinco dias – ou menos, se o tomador de crédito estiver com a documentação correta em mãos.

A startup afirma que atende empresas que faturam até 5 milhões de reais no ano – são cerca de 5,5 milhões de negócios nessa faixa pelo país. A BizCapital começou a ser estruturada em julho de 2016, enquanto o primeiro empréstimo pela plataforma ocorreu seis meses depois, em janeiro de 2017.

Para pedir um empréstimo pela BizCapital, o empreendedor acessa o site e preenche um formulário com as informações mais básicas. O grande diferencial da BizCapital, porém, está naquilo em que o usuário não escreve: a startup é capaz de analisar e ranquear pedidos de crédito em poucos segundos por se integrar a bancos de dados alternativos. São mais de mil fontes de variáveis possíveis e disponíveis online, como perfis em redes sociais.

Essa ciência de dados foi criada em parceria com o departamento de inteligência artificial da PUC-RJ para diminuir os custos associados ao fornecimento de crédito para micro e pequenas empresas brasileiras, que enfrentam uma das maiores taxas de juros do mundo. A taxa de juros cobrada pela BizCapital depende do risco de cada cliente, mas vai de 1,99% a 5% ao mês.

O negócio recebeu mais de 100 mil pedidos de crédito e concedeu mais de 2 bilhões de reais em financiamentos em sua história. A fintech já recebeu um investimento de 15 milhões de reais da Chromo Invest e da 42K Investimentos em janeiro deste ano. Em 2016, teve um aporte semente da Monashees. Alguns investidores-anjo do negócio são Sandro Reis e Sergio Furio, CEOs da Geru; e Jaime de Paula, da Neoway. Os valores desses aportes não foram revelados.

Fintechs no Brasil: populares, mas pouco rentáveis

As fintechs fazem parte da rotina de 40% dos clientes digitais brasileiros, de acordo com o estudo EY FinTech Adoption Index. O país se destaca principalmente pelo uso de serviços de pagamentos, investimentos e planejamento financeiro.

O principal motivo pelo qual os brasileiros afirmam adotar fintechs é a facilidade para abrir e gerir suas contas e pelo acesso a novos produtos e serviços. A principal barreira para adoção é não estar ciente da existência de tais serviços, demonstrando que há espaço para que as fintechs ampliem seus negócios com educação sobre suas tecnologia.

Em 2017, haviam 219 fintechs, 24% mais do que as 176 mapeadas em 2016, segundo a pesquisa FinTech Deep Dive 2018, da ABFintechs (Associação Brasileira de Fintechs) em parceria com a PwC Brasil (PricewaterhouseCoopers). Ao todo, 75% das fintechs registraram crescimento em 2017, sendo que a metade delas registrou expansão de mais de 30%.

Talvez o maior obstáculo para essas fintechs, agora, seja dar lucro. A receita bruta de apenas 12% delas ultrapassou 10 milhões de reais em 2017. Empresas em sua maioria jovens e com faturamento anual abaixo de um milhão de reais, as fintechs empregam normalmente equipes pequenas (52% têm menos de dez funcionários) e a maioria (58%) ainda não atingiu o ponto de equilíbrio entre receitas e despesas.

Nem a agora capitalizada BizCapital escapará desse desafio. A startup não divulga números absolutos de faturamento, mas disse anteriormente a EXAME conseguir atingir o ponto de equilíbrio entre receitas e despesas em 2019. Não que isso signifique que a saúde financeira seja a principal meta da BizCapital.

“A gente se preocupa mais em ser breakvável do que ser breakvado”, diz Ferreira. “Como existem muitas oportunidades, pode ser que a gente continue investindo agressivamente para conquistar mais espaço no mercado.”