Fintech atrasa pagamentos a comerciantes e escancara problemas do setor

A queda de 70% no volume de transações financeiras durante a greve dos caminhoneiros impactou o serviço de antecipação de recebíveis da BeBlue

As startups financeiras, conhecidas como fintechs, miram um mercado promissor, mas repleto de riscos. Elas lidam, afinal, com um bem valioso: dinheiro. Problemas técnicos, atrasos e imprevistos podem provocar um pequeno caos na vida de consumidores e comerciantes.

No caso da Beblue, empresa de Ribeirão Preto (SP) que gerencia pagamentos e programas de fidelidade de pequenos e médios comerciantes, o choque veio com a greve dos caminhoneiros, em maio.

Enquanto finalizava seu novo produto, um cartão de crédito 100% digital e gratuito, seus executivos tiveram de lidar com um problemão: arranjar dinheiro para cobrir um rombo no caixa, reflexo da greve.

“Como mais da metade do volume movimentado pela Beblue vem de postos de gasolina, nos 15 dias da greve tivemos queda de 70% nas transações, o que desiquilibrou nosso caixa”, diz Daniel Abbud, fundador da companhia, a EXAME. Abbud não quis dizer quanto perdeu com a greve, mas afirma que está na casa de dezenas de milhões de reais. Foi o suficiente para colocar a empresa nas cordas.

A queda brusca na entrada de dinheiro em caixa levou a empresa a suspender temporariamente seu serviço de antecipação de recebíveis a comerciantes. Isso gerou revolta de muitos varejistas, que contavam com o dinheiro para cobrir despesas. Alguns ameaçaram entrar na Justiça para resolver o imbróglio. Abbud afirma que a situação já foi normalizada.

Do total de 1.926 reclamações que a Beblue tem no site Reclame Aqui, 74% foram postadas nos últimos seis meses. Boa parte, explica Abbud, é de clientes finais, ou seja, pessoas físicas que baixam o aplicativo para conseguir descontos e recompensas em estabelecimentos comerciais parceiros, e nada tem a ver com o problema enfrentado em maio.

Fato é que a Beblue foi rápida em responder às críticas – 94,6% das queixas tiveram um retorno no Reclame Aqui e 73,3% dos problemas dos últimos seis meses foram solucionados. Porém, o episódio escancara a fragilidade que das fintechs no Brasil, apesar de todos os esforços do Banco Central e de outros órgãos em estimular o aparecimento de soluções inovadoras na área financeira.

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O serviço de antecipação de recebíveis funciona, no país, quase como uma extensão permanente de crédito para pequenos lojistas. Como grande parte dos brasileiros paga a prazo (cartão de crédito, cheque pré-datado e crediário), os comerciantes precisam de organização para não ficar com o caixa descoberto. Mas não é o que acontece – uma das três maiores causas de mortalidade de pequenas empresas é o descontrole financeiro.

A ineficiência, contudo, pode render ótimas oportunidades no Brasil. Empresas dos mais variados setores – das que vendem máquinas de cartão de crédito, como Stone, PagSeguro, Cielo e Rede, às que estão entrando agora no mercado, como a empresa de delivery de comida iFood e até a 99, de transporte – estão de olho nesse filão de antecipação de recebíveis. No ano passado, apenas as concessões de desconto de duplicatas movimentaram 225 bilhões de reais, 78% a mais do que 2016.

Considerando também antecipação de faturas de cartão, foram 305 bilhões, crescimento de 95% em relação ao ano anterior. O mesmo aconteceu com a antecipação do crédito nas faturas de cartão, um aumento de 455%. As receitas financeiras do PagSeguro, justamente as que vêm da antecipação de crédito, somaram ano passado 818 milhões de reais, 109% a mais do que em 2016.

Isso só é possível porque o Brasil é um dos poucos países no mundo em que, por lei, os lojistas só recebem 30 dias após a compra com cartão de crédito ser feita. O comerciante pode pedir para antecipar seu pagamento e, em troca, pagar um percentual à gestora de pagamentos, taxa que varia entre 2 a 3% e já é descontada antes do depósito.

No fim de 2016, quando o Banco Central sugeriu mudar a regra de 30 dias para dois dias, como é no mercado americano, a emissora de cartão de crédito Nubank ameaçou fechar as portas. “Nós já fizemos algumas simulações. Com dois dias é apagar a luz e fechar a porta. Com 15 dias, a gente precisaria de quase 1 bilhão de reais de capital adicional do dia para a noite”, disse Cristina Junqueira, cofundadora do Nubank, na época.

O mais comum é fintechs se capitalizarem via fundos de investimentos em direitos creditórios, os FDICs. Para solucionar seu problema de caixa, a Beblue foi rápida em buscar esse dinheiro. A empresa já estava em conversas com alguns potenciais investidores quando a greve dos caminhoneiros começou. Foi preciso apressar os planos: em um mês, a Beblue fechou parceria com o Omni Banco.

Além de disponibilizar uma linha de 1,5 bilhão de reais para a Beblue oferecer antecipação de recebíveis e outros dois serviços – crédito para capital de giro e compra antecipada de ticket –, o Omni também comprou uma participação minoritária da fintech (o valor não foi revelado).

A ideia é, no futuro, a Beblue também oferecer outros serviços, como o de crédito pessoal. Uma das novidades, a compra antecipada de ticket, ainda não é comum no Brasil. Consiste em adiantar o dinheiro ao comerciante antes mesmo de a compra ser feita, com base em seu histórico de transações. Por ser mais arriscado, o desconto tende a ser maior do que o do serviço de antecipação.

Fundada em maio de 2016, a Beblue cresceu 500% ano passado, ritmo que deve se manter este ano. Hoje, intermedeia 100.000 transações por dia (3 milhões no mês) nos 15.200 estabelecimentos comerciais parceiros. É uma subadquirente da Stone – depois do episódio de maio, já está atrás de mais parceiras. Num setor tão sensível, quanto mais segurança oferecer aos varejistas, melhor.