Estes empreendedores levam confecções do Bom Retiro ao mundo das startups

A Houpa! conecta atacadistas de todas as regiões do Brasil. Com início no bairro paulistano Bom Retiro, startup já mediou 7,9 milhões de reais em roupas

Mateo Kim cresceu rodeado de confecções no tradicional bairro do Bom Retiro, em São Paulo. Mas há anos o empreendedor imagina um futuro mais tecnológico para a região conhecida pelos produtores e compradores de roupas por atacado.

A experiência no setor e a experimentação de tecnologias levou à criação da Houpa!, uma mistura de marketplace (plataforma que conecta compradores e vendedores) e rede social que já conta com 6,5 mil empresas cadastradas.

Em menos de um ano de negócio, o aplicativo já mediou nove mil pedidos equivalentes a 7,9 milhões de reais. Para se tornar lucrativa, a Houpa! apostará menos em comissões e mais em serviços de valor agregado, com o uso de inteligência artificial, para os vendedores e compradores de moda em lotes.

Da confecção ao aplicativo

Descendente de coreanos, Mateo Kim cresceu ajudando na confecção de seu pai, Young Shim Kim. Em 2012, aos 26 anos de idade, montou a própria confecção junto da esposa, chamada Unique Chic.

Mateo Kim sentiu a necessidade de ter um sistema de gestão que atendesse as necessidades de um varejista de moda por atacado. “Precisava de um sistema que integrasse comunicação com produção. Não achei nenhum ideal, então fui pegando um pouco de cada programa e aplicativo de organização e fazendo uma gambiarra. Por essa boa gestão, a Unique Chic cresceu”, explica. Hoje, o negócio possui duas lojas no Bom Retiro e é tocado apenas pela esposa de Kim.

Da Unique Chic surgiu a ideia de criar um sistema proprietário e comercializá-lo para outras confecções, em março de 2016. Kim conheceu Gabriel Sanabria, que programa desde os 16 anos de idade e trabalhou no comércio eletrônico do estilista Fernando Pires e em multinacionais como a Vivo, de telecomunicações. Eles começaram a desenvolver um ERP, ou programa de gestão.

Kim e Sanabria perceberam que a principal necessidade dos seus clientes estava na área de vendas. No final de 2017, pivotaram para o QRGO, um aplicativo que permitia escanear roupas e passá-las ao estoque em tempo real, automaticamente gerando entradas e saídas de itens.

Essa solução atraiu varejistas de outros estados. O pagamento e entrega das roupas era combinado pelo mensageiro WhatsApp, o que fez ambos pensarem em como expandir essas demandas dentro do QRGO. Basear o nome do negócio apenas na tecnologia de QR Codes não fazia mais sentido.

Em agosto de 2018, transformaram o QRGO na Houpa!, uma mistura de rede social com marketplace. Para criar o aplicativo, os empreendedores captaram entre um e dois milhões de reais entre si e com familiares e amigos.

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Como funciona?

De acordo com Kim, a principal função da Houpa! é ser a porta de entrada de confecções e revendedores de moda por atacado ao universo online. “Esses negócios investiriam 20, 30 mil reais em uma loja virtual mediana, fora os custos mensais de manutenção. É um modelo tão complexo que uma varejista do porte da Zara só começou a vender pela internet este ano no Brasil.”

Pelo aplicativo da Houpa!, a confecção cadastra seu perfil e os produtos comercializados. Já o comprador também cadastra seu perfil. Ambas veem como tela inicial um feed de postagens, que permite descobrir novos fabricantes e lojistas multimarcas. “É uma divulgação pelo social, e não só pela publicidade, como se vê em comércios como Amazon ou Mercado Livre”, afirma Kim. Dois perfis adicionados podem trocar mensagens, como em qualquer rede social, e combinar detalhes dos pedidos.

Gabriel Sanabria e Mateo Kim seguram smartphones com aplicativo da Houpa! Gabriel Sanabria e Mateo Kim seguram smartphones com aplicativo da Houpa!

Gabriel Sanabria e Mateo Kim seguram smartphones com aplicativo da Houpa! (Houpa!/Divulgação)

O comprador seleciona itens, calcula o frete e escolhe a forma de pagamento. Caso haja roupas de diferentes confecções, a Houpa! calcula fretes múltiplos e distribui as cobranças para cada fabricante. A entrega é feita pelos Correios. O aplicativo já negocia parceria com uma transportadora privada.

Para entrar na plataforma, é preciso ter um CNPJ válido mediante consulta na Receita Federal. A Houpa! concentra 6,5 mil empresas cadastradas em todas as regiões do Brasil, sendo 500 delas confecções e o restante revendedores.

O aplicativo já mediou nove mil pedidos, movimentando 7,9 milhões de reais. Cada encomenda possui tíquete médio de 800 a 1.000 reais. De acordo com Kim, o tíquete é acima da média da compra física de moda por atacado porque não há mais gastos com transporte e hospedagem, especialmente quando os compradores são de outros estados.

Inteligência artificial e metas de expansão

Além das funções de redes sociais, marketplace, mensageria, pagamento e logística, a Houpa! investe em tecnologias agregadas aos produtos e compradores de moda atacadista.

A primeira ferramenta lançado foi o escaneamento de estoque por QR Code, que já existia no QRGO. Outra foi um mapa com todas as confecções e lojistas multimarcas cadastrados, com cada usuário podendo ver quem adicionou ou não. “Se eu revendo roupas no Pará e só conheço o Bom Retiro, com a mapa posso descobrir que há um pólo de moda atacadista no meu próprio estado, por exemplo”, diz Sanabria.

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Agora, a Houpa! investe na ciência de dados como futura fonte de lucros. Como monetização, a startup não cogita fazer como a maioria dos marketplaces e cobrar uma porcentagem de cada venda e compra. “Como dono de confecção, sinto a dor que é cobrar uma comissão no final da venda dos meus clientes. Vamos monetizar por serviços atrelados às necessidades deles”, afirma Kim.

O aplicativo vende publicidade e estuda cobrar uma mensalidade opcional para a obtenção de relatórios inteligentes, com foco em vender ou comprar melhor. O aplicativo está desenvolvendo um algoritmo de inteligência artificial com bases próprias e externas, como históricos em buscadores, para sugerir compradores ou produtos com cores, estampas e cortes de venda mais certeira.

A Houpa! possui 20 funcionários hoje e está recrutando outros cinco. Nos próximos três meses, esperam atingir 12 mil CNPJs cadastrados. Os sócios da startup esperam atingir o ponto de equilíbrio operacional no final deste ano, assim como um investimento série A.

Caso o aporte se concretize, o ponto de equilíbrio total ficará ainda mais distante — o que ainda não é uma preocupação dos empreendedores. A meta, agora, é tornar o bairro do Bom Retiro cada vez mais digital.